sexta-feira, 12 de junho de 2009

teste Mensagem ( treino)

ESCOLA SECUNDÁRIA RAINHA DONA LEONOR
POR TUG UÊ S
T E S T E S UM A T I V O (treino)
Ano Lectivo: 2008/2009 Pof: Euclides Rosa


Padrão

1 O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
este padrão ao pé do areal moreno
e para deante naveguei.

5 A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão signala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por fazer é só com Deus.
E ao immenso e possível oceano

10 Ensinam estas quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é portuguez.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
15 Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Fernando Pessoa, Mensagem

A. Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.


1. Justifique o título do poema, tendo em conta a estrutura da obra em que se integra. (15 Pontos)

2. Explique o primeiro verso, identificando a figura de estilo que o estrutura. (15 Pontos)

2.1 - Registe expressões de valor equivalente. (5 Pontos)

3. Apresente os traços caracterizadores de Diogo Cão, esclarecendo o significado dos dois últimos versos da segunda estrofe. (15 Pontos)

4. Explicite a intencionalidade da afirmação «O mar sem fim é português» (v.12). (20 Pontos)

B. Escreva um texto expositivo-argumentativo com cerca de 100 a 120 palavras a partir da afirmação apresentada, atendendo ao estudo comparativo dinamizado entre Os Lusíadas de Luís de Camões e a Mensagem de Fernando Pessoa. (30 pontos)
«Distanciados quase quatro séculos, Camões e Pessoa sentem os problemas nacionais, cada um à sua medida e de acordo com os contextos históricos e nacionais. (…) A diferença essencial consiste no plano factual: Camões move-se na linha das realidades acontecidas (…); Pessoa, mais na asa do sonho, da imaginação e do desejo.»
J. Oliveira Macêdo, in Sob o signo do Império, Edições Asa, 2002 (Adaptado)






O grande mérito da Europa, e sobretudo dos povos ibéricos, está na exploração sistemática dos oceanos, no traçar pioneiro de rotas marítimas, unindo fracções da humanidade que até então tinham permanecido isoladas umas das outras, e que mutuamente se ignoravam. Concretamente em relação à Ásia, os Descobrimentos Portugueses traduziram-se, em primeiro lugar, por uma revolução geográfica – os navios comandados pelos nossos capitães estabeleceram uma ligação marítima directa entre a Europa e a Índia, unindo pela primeira vez, e definitivamente, mundos que viviam de costas voltadas entre si. Neste sentido, a segunda viagem dos portugueses ao Oriente é emblemática: a frota comandada por Pedro Álvares Cabral largou da Europa, - aportou à América (do Sul), fez escala em África, para finalmente atingir a Ásia – numa só viagem, os pioneiros portugueses estabeleceram a ligação entre quatro continentes, o que dá bem a medida da unificação dos “mundos do mundo” levada a cabo pelos nossos navegadores. Em segundo lugar, os Descobrimentos Portugueses traduziram-se por uma verdadeira revolução cultural: a Europa descobriu a Ásia, de um ponto de vista intelectual. Enquanto na Idade Média apenas vagas notícias sobre a Ásia, filtradas pela enorme distância, chegavam à Europa, cristalizadas em relatos como o Livro de Marco Polo ou as Viagens de John de Mandeville, com a sua chegada à Índia, os portugueses entraram em contacto com uma parcela da humanidade – de que mal suspeitavam a existência; de repente, tiveram de assimilar e incorporar no seu universo mental um vasto leque de povos e sociedades diferentes, com todo o tipo de consequências que essa operação intelectual pode desencadear – desde a alteração da concepção do mundo e da visão do outro, até à transformação de hábitos e práticas sociais. A noção de descobrimento é, pois, limitada; se há um mundo que “descobre” há outro que 2é descoberto”. Seria, então, mais rigoroso falar de encontros civilizacionais – a civilização europeia, ou antes, alguns dos seus representantes meridionais encontram-se, no término de uma longa viagem, face a uma nova civilização, com a qual têm de se relacionar em termos práticos, e que, em termos intelectuais, são obrigados a assimilar. Rui Loureiro, “O encontro de Portugal com a Ásia no século XVI”, in António Luís Ferronha (coord.), O Confronto do Olhar, Ed. Caminho







1. Para cada um dos quatro itens que se seguem, escreva, na sua folha de respostas, a letra correspondente à alternativa correcta, de acordo com o sentido do texto. (30 pontos)

1. O vocábulo «que» (linha 2) introduz :

A. uma oração subordinada substantiva completiva.

B. uma oração subordinada adjectiva relativa explicativa.

C. uma oração subordinada adjectiva relativa restritiva.

D. uma oração subordinada substantiva relativa (sem antecedente).

2. Com o recurso às expressões «em primeiro lugar» (ll.5) e «Em segundo lugar» (linha 12), o autor pretende :

A. utilizar um mecanismo de coesão espacial.

B. indicar uma noção temporal.

C. utilizar um processo de referenciação espacial.

D. usar um processo de coesão enumerativo.

3. O vocábulo «emblemática» (linha 8) desempenha, na frase, a função sintáctica :

A. de atributo.

B. de predicativo do sujeito.

C. complemento directo.

D. de predicativo do complemento directo.

4. O vocábulo «se» (linha 22) assume na frase a classe gramatical de :

A. pronome reflexo.

B. conjunção integrante.

C. pronome pessoal.

D. conjunção condicional.

5. O pronome relativo «que» (linha 26) tem como antecedente :

A. «uma longa viagem» (linha 27).

B. «a civilização europeia» (linha 26).

C. «termos práticos» (linha 28).

D. «uma nova civilização» (linha 27).






6. Para responder, escreva, na folha de respostas, o número identificativo de cada ele-mento da coluna A e a letra identificativa de um único elemento da coluna B que lhe corresponde. (20 pontos)

A B
1. Com o recurso ao vocábulo «Enquanto» (linha 14), a) o enunciador especifica a informação apresentada no segmento textual anterior.
2. Com o uso da conjunção «pois» (linha 22), b) o enunciador apresenta uma ideia alternativa face ao anteriormente dito.
3. Com a utilização do travessão (linha 21), c) o enunciador exprime uma ideia de conclusão em relação ao referido anteriormente.
4. Com o uso da expressão «ou antes» (linhas 24) d) o enunciador apresenta uma justificação relativamente à ideia anterior.

e) o enunciador procura destacar a ideia que expõe em seguida.
f) o enunciador introduz a frase seguinte como um aparte.
g) o enunciador estabelece uma conexão temporal.

GRUPO III

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e do que é do dia-a-dia.


Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama


Desde o século XVI que descobrimos o sentido da diáspora/ viagem para a descoberta dos outros e sobretudo do que somos.

Produza um texto expositivo-argumentativo entre 250 e 300 palavras onde se posicione sobre a importância da diáspora/ viagem, recorrendo a argumentos fundamentados em dois exemplos significativos.

teste FElizmente há Luar! ( treino)

ESCOLA SECUNDÁRIA RAINHA DONA LEONOR
POR TUG UÊ S
T E S T E S UM A T I V O (treino)
Ano Lectivo: 2008/2009 Pof: Euclides Rosa


Lê com atenção o seguinte excerto de Felizmente Há Luar!:

Padre
(Lendo um papel)
Ordem dos principais da Patriarcal de Lisboa para acções de graças pela descoberta da
conjuração Nos Primarii Presbiteri, Et Diaconi Sanctae Lisbonensis Ecclesiae Principales Sede Patriarchali Vacante. Tendo chegado ao nosso conhecimento, com indubitável certeza, que
houve insensatos tão temerários e atrevidos que ousaram formar o louco e detestável projecto de estabelecer um governo revolucionário e conhecendo que todo o bem nos vem de Deus, sejam quais forem os meios de que para isso se sirva, claro fica que a Ele devemos dirigir as nossas acções de graças. E por isso havemos por bem ordenar:
(Entram mais populares que se colocam entre Matilde de Melo e Beresford, escondendo este último)
Que no dia domingo, em todas as paróquias deste Patriarcado e igrejas dos Conventos Regulares, se cante, ou reze donde se não pode cantar, depois da hora de Noa, a missa votiva de Nossa Senhora, pró Gratiorum Actione, ajuntando-lhe, no fim, o hino Te Deum Laudamus com o
Santíssimo Sacramento exposto; dizendo-se, igualmente, neste dia, em todas as missas, a oração pro Gratiorum Actione.

MATILDE
Mas eles ainda não foram julgados! Que espécie de Deus é o vosso que condena antes de ouvir? Que gente sois, senhores, que Reino é este em que tive a triste sorte de nascer? Sr. Marechal: quanto vale, para vós, a vida dum homem?
(O padre, sempre seguido do sacristão tocando uma campainha, afasta-se e sai pela
esquerda, enquanto os populares se sentam em círculo no chão e começam a comer.
Beresford responde, já de fora do palco.)

BERESFORD
De que homem, minha senhora?

MATILDE
De qualquer homem.
BERESFORD
Depende do seu peso, da sua influência, das vantagens ou dos inconvenientes que, para mim, resultem da sua morte.
MATILDE
E nada mais?
BERESFORD
Não há mais nada a considerar, minha senhora.
Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!, Areal Ed.

GRUPO I
A
1. Situa o excerto na globalidade da obra a que pertence.
1.1. Refere os aspectos relativos ao poder aqui denunciados.
2. Indica de que forma o discurso do padre é revelador de ideias que adulteram a essência do
espírito cristão.
3. Explica a reacção de Matilde ao anúncio proferido pelo padre.
3.1. Comenta o tipo de pontuação presente no discurso de Matilde.
3.2. Partindo deste excerto, caracteriza Matilde.
4. Indica os traços do carácter de Beresford a partir da sua resposta a Matilde.
5. Explica a função das didascálias presentes neste excerto.
B
Na sátira que Sttau Monteiro em Felizmente há luar! faz ao regime absolutista e paralelamente ao Estado- Novo não escapa uma crítica mordaz à igreja e ao clero que adulteram os valores morais religiosos para sustentar o poder.
Num texto expositivo entre 100 e 120 palavras comente a citação acima apresentada, fundamentando-se em juízos de leitura e referências concretas á obra.
«Memorial do Convento», José Saramago




Cap Plano narrativo: Construção do CONVENTO
Quadros da época Plano narrativo:BALTASAr e BLIMUNDA
Plano narrativo:Construção e voo da PASSAROLA

1 Promessa do rei.
O casamento real.
2 Antigas pretensões de um convento franciscano.
Milagres de franciscanos.
3 Entrudo, Quaresma, a procissão da penitência.
Sonho da rainha.

4 Apresentação de Baltasar, percurso e chegada a Lisboa.

5 Rainha grávida de 5 meses.
Auto-de-fé. Encontro e “casamento”.
6 Importação de cereais.
Episódio da frota do bacalhau. Perguntas de Baltasar sobre o mistério de Blimunda. Bartolomeu apresentado como «o Voador».
Conta a sua história.
Início da colaboração de Baltasar; ida a S. Sebastião da Pedreira.

7 Nascimento da infanta, baptizado e festejos. Assaltos franceses aos navios nacionais.
Chegada da nau de Macau.
Conflitos no Brasil.
Assistem aos festejos.

8 Blimunda revela nova gravidez da rainha.
Nascimento do infante.
Escolha do local para edificação do convento. Crueldade do infante D. Francisco.
Saque francês no Rio de Janeiro.
Episódio da frota inglesa.
História do frade ladrão.
Elevação do inquisidor a cardeal.
Blimunda revela a Baltasar o seu segredo; demonstra poder visionário.
Assistem aos festejos.

9 Ensaio do sermão (ref.ª a Vieira).
Referências às pregações em Salvaterra de Magos e na festa dos desponsórios de S. José.
D. João V e as freiras.
Insubordinação das freiras de Sta Mónica.
2º auto-de-fé.
Paz com França.
Tourada.
Mudança para S. Sebastião da Pedreira: a nova casa; o quotidiano a dois; o baptismo de Blimunda, a Sete-Luas; partida para Mafra; apresentação de Blimunda ao Sete-Sóis.Trabalho braçal de Baltasar; ajuda de Blimunda.
Visões de Blimunda, do interior da passarola.
Explicações sobre o éter.
Anúncio da partida de Bartolomeu para a Holanda.
Partida de Bartolomeu.

10 Venda de terras para a construção do convento (pai de Baltasar).
Informação sobre as alterações ao projecto inicial. Funeral do infante.
Gravidez da rainha, do futuro rei D. José.
Visitas da rainha às igrejas; tristeza e orações.
Doença do rei.
Manobras do infante D. Francisco.
Fim dos sonhos de D. Maria Ana. Sonho de Baltasar: a sementeira de penas.
Reflexão do narrador, comparação com o casamento real.

11 Escavações dos caboucos; multidão de trabalhadores vista por Bartolomeu.
Barracas, vistas pelos 3. Regresso de Bartolomeu, 3 anos depois: ensinamentos trazidos da Holanda.
Anúncio da partida para Coimbra, com passagem por Mafra.
Bartolomeu visita a casa dos Sete-Sóis.
Sonho comum.
Explicação do significado de éter: as vontades.
Blimunda vê Bartolomeu por dentro.
A trindade firmada.

12 Contratação de Álvaro Diogo.
Lançamento da 1ª pedra: marcação; construção e reconstrução da igreja de madeira,; a bênção da cruz; a procissão; a participação do rei. Nova revelação de Blimunda: visão de uma nuvem fechada na hóstia.
Viagem para Lisboa: o amor comparado à celebração de uma missa. Carta de Bartolomeu.
Na cerimónia, Blimunda recolhe vontades.
Chegada a S. Sebastião da Pedreira.

13 Procissão do Corpo de Deus; participação do rei (monólogo interior) Os dois assistem, abraçados. Recomeço dos trabalhos.
Chegada de Bartolomeu, agora “de Gusmão”, nova partida para Coimbra e outras visitas periódicas.
Complementaridade do trabalho.

14 Lição de cravo
Regresso definitivo de Bartolomeu, doutorado em cânones.
Conversa entre Bartolomeu e Scarlatti: o músico visita a abegoaria, pela 1ª vez.

15 Epidemia em Lisboa.
Milagre da madre Teresa. Baltasar acompanha Blimunda na recolha das vontades.
Doença de Blimunda, sofrimento de Baltasar. Scarlatti toca cravo na abegoaria.
Blimunda recolhe vontades.
Música de Scarlatti ajuda a curar Blimunda.
O casal procura Bartolomeu para lhe comunicar a cura de Blimunda e a finalização da passarola.

16 Do ar, os voadores avistam as obras.
Procissão, pelo surgimento do Espírito Santo. O funcionamento da Justiça.
Naufrágio, morte do infante D. Miguel e sobrevivência de D. Francisco.
Fim da demanda com o duque de Aveiro. Padre confessa conversão ao judaísmo e a dia o voo.
Fuga, 1º voo da passarola.
Manifestações de loucura de Bartolomeu, tentativa de incêndio da passarola.
Desaparecimento de Bartolomeu.

17 Baltasar começa a trabalhar no convento (iniciado há 7 anos).
A Ilha da Madeira.
O trabalho das várias profissões. Notícia de terramoto e tempestade em Lisboa. Blimunda acompanha Baltasar. Baltasar vai ao Monte Junto.
Visita de Scarlatti.
Notícia da morte de Bartolomeu.

18 As importações realizadas.
Missa na capela de madeira.
Histórias individuais de trabalhadores, entre os quais Baltasar.
Obra vista do ar.
Transporte da pedra de Pêro Pinheiro. D. João V medita sobre as suas riquezas. Um domingo em família.
O efeito apaziguador de Blimunda sobre Baltasar.

19 Sonho de Baltasar.
Recordações de Baltasar.

20 O quotidiano dos trabalhadores, a promiscuidade, a doença.
Visita dos padres dos hospícios.Viagem idílica até ao Monte Junto.
Noite de amor na passarola.
Harmonia entre Baltasar, Blimunda e a Natureza.
Morte do pai de Baltasar.
Idas regulares de Baltasar ao Monte Junto.
Trabalho do casal na conservação da máquina.

21 Conversa do rei com o arquitecto Ludovice.
Decisão de aumentar as dimensões do convento.
Falso recado de Baltasar.
Falsa carta de Baltasar ao rei.
Marcação da data de sagração do convento.
Recolha de homens por todo o reino, o cortejo dos degredados.
D. João V lega aos filhos a basílica de brincar.

22 D. Maria Bárbara vê um grupo de homens acorrentados e recorda que nunca viu o convento. Anúncio do casamento dos infantes.
Viagem até à fronteira.
Troca das princesas.
Scarlatti toca cravo.

23 Cortejo das estátuas.
Baltasar conduz uma das juntas de bois.
Encontro do cortejo dos noviços com o das estátuas.
Preparativos para a sagração.
Anúncio da morte de Álvaro Diogo, na construção do convento.
Balanço de 13 anos da obra.
Cortejo dos 30 noviços. Referência a junção dos nomes Baltasar/Blimunda.
Juventude de Baltasar, aos olhos de Blimunda.
Os dois vêem as estátuas ao luar.
Amam-se pela última vez. Referência a junção dos nomes Baltasar/Blimunda/Bartolomeu.
Baltasar voa na passarola.

24 Chegada do rei para a sagração.
Blimunda cruza-se com as gentes que vão assistir à sagração.
Chegada do patriarca de Lisboa e de outros ilustres.
A sagração (22.10.1730)
Noite de espera de Blimunda.
Ida ao Monte Junto, morte do frade.
Regresso a Mafra.

25 Procura de Blimunda.
Reencontro.



Personagens

D. João V, o rei Primeira imagem: construindo uma basílica de S. Pedro em miniatura; a sua ida ao quarto da rainha; vítima de logro (acredita num milagre anunciado); os seus problemas de saúde  pretexto para o narrador o reduzir à simples condição de mortal, em contraste com as suas megalomanias: o desejo de construir em Portugal uma basílica igual à de S. Pedro (Vaticano); decisão de aumentar o convento, ignorando os custos que o diálogo com o guarda-livros lhe vem lembrar; marcação da data da sagração, apressada pelo temor de que a morte o levasse, impedindo-o da glória de estar presente na inauguração da sua obra.
O seu fervor religioso incompatível com as ligações ilícitas com freiras ( malicioso monólogo interior na procissão do Corpo de Deus) e com a meditação sobre a sua riqueza (associa a salvação da alma ao conforto da terra e do corpo).
D. Maria Ana, a rainha Uma mulher vítima e cúmplice de uma época que a reduz à função de fornecedora de herdeiros, satisfazendo na oração e nos sonhos o vazio da sua vida, verbalizado, na conversa imaginária com o seu cunhado, quando afirma que os homens são todos maus, e na lição de submissão dada à sua filha, recomendando-lhe que nunca questione a obediência a el-rei e aos dogmas religiosos e sociais.  personagem alvo da sátira do narrador.

Infante D. Francisco (irmão do rei)


Infanta D. Maria Bárbara (filha do rei) A loucura impune de D. Francisco (exercita nos marinheiros a pontaria com a espingarda) é ilustrativa da crueldade de um tempo que tudo admite aos poderosos. A intriga e disputa pela coroa (sonhando a morte do irmão).

A infanta, causadora inocente de tantos males, é uma figura tratada com maior benevolência: aos nove anos toca (mal) cravo para a corte; “boa rapariga”, de “cara bexigosa e de lua-cheia”, é levada para casar com um desconhecido, durante um percurso penoso, vê homens acorrentados, facto que a deixa pensativa.

A alta nobreza e o alto clero Em tempos de poder absoluto, a nobreza exibe o servilismo de quem se encontra na órbita do rei.
O luxo desmedido (clero e nobreza) sobressai em todas as suas intervenções.

O herói colectivo Povo  o herói anónimo e colectivo que o narrador quer imortalizar.
Homens a escavar os alicerces do convento, a transportar as pedras, a erguer as paredes.
Alguns emergem, ganhando rostos e nomes: os familiares de Baltasar  o cunhado, vítima daquela construção; Francisco Marques  morre esmagado no transporte da pedra de Pêro Pinheiro.
O povo: as suas chagas, físicas e morais, os crimes e as brigas. O povo sofredor, vítima de um tempo de feroz repressão; o povo ignorante e fanático que assiste, deliciado, ao espectáculo dos autos-de-fé.

Baltasar Sete-Sóis Figura central do romance: participante articulador dos 3 planos narrativos. Sua morte = fim da narrativa.
Metáfora da mudança, da evolução do ser humano, no sentido da sua plena realização.
Número 7 (renovação e totalidade) presente na sua existência (28 anos 7x4 decorrem desde a sua chegada até que Blimunda o reencontre, na sua 7ª passagem por Lisboa (no mesmo lugar em que se conheceram).
Simbologia do Sol, cujo ciclo representa a alternância vida-morte-ressurreição.
Chega a Lisboa mutilado, pedinte, mandado embora de um exército que já não podia servir. Arriscou-se a viver um amor pleno, à margem das normas sociais e religiosas, transgressor. A aproximação a Bartolomeu fá-lo acreditar, sonhar, fazer. Com o voo da passarola atinge a consciência libertadora do valor do ser humano e do seu querer. Como operário na construção do convento, atinge uma consciência de dimensão mais social.
A sua morte encerra um ciclo, mas a sua vontade é recolhida por Blimunda e, assim, um novo ciclo se anuncia.

Blimunda Sete-Luas Ser de excepção, mágico e sibilino, o seu estranho nome surge, pela primeira vez, dito pela mãe, uma condenada pela Inquisição, o que a coloca logo numa situação marginal.
É por inspiração materna que se liga a Baltasar, seduzido desde o primeiro momento, tendo um papel decisivo na definição da relação entre os dois, não submetida a outras normas que não as do amor, numa espécie de retorno a um tempo mítico, no qual estava ausente a noção de pecado.
Sete-Luas (apelido atribuído pelo padre Bartolomeu, num ritual misto de baptismo e casamento): associado à simbologia do 7 e da Lua, complementar do Sol, com o qual partilha o valor da renovação. Lua, símbolo do mundo do sonho e do inconsciente, do feminino.
Mulher: mágica (capaz de ver “o interior”, de recolher vontades indispensáveis à realização do voo); sábia (capaz de questionar, aconselhar, compreender, de surpreender os outros); mulher do povo (executa as tarefas sempre atribuídas à mulher).
Dos membros da trindade terrena (Baltasar-Blimunda-Bartolomeu) é a única sobrevivente, guardando dentro de si a vontade que recolhe de Baltasar.

Bartolomeu Lourenço (de Gusmão)«o Voador» Figura conhecida do século XVIII português (nascido no Brasil): homem de vasta cultura, padre e doutor em leis, orador exímio, protegido pelo rei, cientista e visionário, atormentado por dúvidas religiosas e perseguido pela Inquisição, por suspeitas de judaísmo e bruxaria. Representante do Iluminismo nascente.
Personagem lendária, representativa do sonho libertário do ser humano, de se transcender, de ultrapassar os limites. Junta o seu saber ao trabalho manual de Baltasar e à magia de Blimunda (coadjuvados pela arte musical de Scarlatti), com eles irmanado pelo querer e pelo afecto, concretizou o desejo de voar.
Sob ameaça latente desde o seu aparecimento, dado o envolvimento suspeito com a filha de uma condenada do santo Ofício, é a fuga à Inquisição que determina a realização do voo da passarola. Mas a ousadia foi punida: morreu louco em Toledo.

Domenico Scarlatti Músico italiano, estivera ao serviço do embaixador de Portugal em Roma, veio de Londres para exercer funções de mestre de capela e professor da Casa Real.
A música, a mais aérea das artes, vem integrar a realização da passarola, acrescentando-lhe a componente estética. A música do seu cravo mistura-se com os sons do malho e da forja; ajuda na recuperação de Blimunda.
Assiste à descolagem da passarola e depois destrói o seu cravo.
É ele que anuncia a morte de Bartolomeu.
Ouvimos a sua música, pela última vez, na cerimónia da troca das princesas.
Espaço Social

Quadros Personagens / classes sociais envolvidas Temas e / ou aspectos visados
Entrudo; Quaresma;
procissão da penitência Todas as classes: clero, nobreza, povo A religião como pretexto para a prática de excessos
Sensualidade / misticismo

Histórias de milagres e de crimes Clero e povo
O frade ladrão Superstição e crendice, superficialidade
Libertinagem

Autos-de-fé Todas as classes Repressão religiosa e política
Fanatismo

Baptizados e funerais régios Rei e rainha / nobreza e clero (povo assistindo) Luxo e ostentação, vida e morte como espectáculo
Elevação a cardeal do inquisidor D. Nuno da Cunha Clero e nobreza (povo assistindo) Luxo e ostentação
Vida conventual Frades e freiras
Nobreza
Desrespeito pelas normas religiosas, libertinagem
Tourada Todas as classes
O sangue e a morte com espectáculo
Procissão do Corpo de Deus Todas as classes / D. João V Luxo e ostentação, sobreposição do profano ao sagrado
Libertinagem do rei

Cortejo de casamento Casal real, infantes / nobreza, clero, (povo assistindo) Casamento na realeza, a vida das mulheres
Luxo e ostentação desmedidos
Contrate com a miséria do povo
O estado deplorável dos caminhos


Espaço simbólico

Espaços Simbologia
Casa de Lisboa A lareira, fogo, calor e alimento, a luz da candeia, a esteira no chão, o despojamento, um espaço mantido vivo quando habitado, sacralizado por nele ter tido lugar o ritual do casamento.

S. Sebastião da Pedreira Paredes de pano, a arca com os parcos haveres, a esteira, um espaço reduzido ao essencial, que garantia a intimidade dos dois, também o recolhimento de Blimunda, «que às vezes até a mais aventureira apetece».

Palheiro O amor vivido em plenitude, envolvendo «almas, corpos e vontades», espaço primitivo e natural, de harmonia e fusão de todos os elementos, expressa através da sensação do cheiro; a ancestralidade realçada pela referência do narrador ao gesto de Blimunda, que «dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo»; espaço sacralizado, quando o narrador compara o amor à celebração de uma missa, afirmando que, se comparação houvesse, «a missa perderia».

A Passarola O ovo simbólico da génese do mundo, da totalidade e perfeição, de renovação da natureza, casa-ovo construída por ambos, na qual realizaram o voo sonhado.

A Natureza Espaço idílico, de integração, fusão de todos os seres e elementos, «sente na pele o suspiro do ar como outra pele…».

A barraca da burra Onde a cama era «a antiga e larga manjedoura… confortável como um leito real», que não pode deixar de associar-se ao berço da tradição cristã e, noutra dimensão, de ser posta em contraste com o luxuoso leito real de D. Maria Ana, lugar de desamor, minado por percevejos; este espaço, isolado e protector da intimidade, é o da última noite de amor.

O olhar «Olharem-se era a casa de ambos», a casa entendida em toda a sua dimensão simbólica, de protecção do ser, da interioridade, da preservação do amor e da vida.

domingo, 19 de abril de 2009

PROPOSTAS DE ITENS DE TEXTO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO- Felizmente, Há Luar!

PROPOSTAS DE ITENS DE TEXTO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO
( Item B de Prova de Exame- 100 a 120 palavras) Prof: Euclides Rosa
I.
“ A figura de Gomes Freire de Andrade, a quem “ o inseparável amigo”, Sousa Falcão se refere como um dos ” homens que obrigam todos os outros a reverem-se por dentro...”, assume-se como reserva moral e, simultaneamente, mito referencial de uma revolução que está longe de ter a dimensão insurreccional que o poder estabelecido lhe atribui”
Barata, José Oliveira, Para Compreender Felizmente Há Luar, Asa

Comente a citação transcrita, num texto expositivo-argumentativo entre 100 e 120 palavras com juízos de leitura e referências à obra, centrando-se na caracterização e modo de apresentação do herói épico, Gomes Freire de Andrade.
II.
“ A nobreza moral de Matilde aproxiama-a da trajectória de uma heroína trágica. Debatendo-se entre os mais puros e humanos sentimentos, comuns a qualquer mortal, e a sublimação heróica, que progressivamente a conduz de simples amante de Gomes Freire a corifeu de uma revolta, Matilde surge-nos como a figura mais dramaticamente elaborada de toda a peça.”
Barata, José Oliveira, Para Compreender Felizmente Há Luar, Asa

Comente a citação transcrita, num texto expositivo-argumentativo entre 100 e 120 palavras com juízos de leitura e referências à obra, referindo-se á importância de Matilde de Sousa Melo na apoteose trágica de Sttau Monteiro.
III.
“ Felizmente, há luar!: a duplicidade de intenções desta elocução e o contexto situacional em que é proferida servem, assim, mais uma vez, a estrutura dual que se procura apresentar: a frase dita pelo Poder e dita pelo anti-poder”.
Barata, José Oliveira, Para Compreender Felizmente Há Luar, Asa

Num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, refira-se à importância e simbologia do título da obra, fazendo-lhe juízos de leitura e referências concretas.

IV.
“ Foi aquela peça em que um homem voltado para o dia seguinte – O Gomes Freire – foi morto por gente da véspera.” Luís de Sttau Monteiro

Comente a afirmação do autor num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavrascom juízos de leitura e referências à obra.

V.
“ Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos? “- Matilde
Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavrascom juízos de leitura e referências à obra.


VI.
“ Olhem bem! Limpem bem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim...” – Matilde
Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, referindo-se ao carácter didáctico de Felizmente, Há Luar! .

VII.
“ O velho está sempre a ceder perante o novo e o novo sempre a destruir o velho....; A consciência, Reverência, satisfaz-se com meia dúzia de artifícios mentais; depende do seu peso, da sua influência, das vantagens ou inconvenientes que, para mim, resultem da sua morte...” Beresford

Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, caracterizando Beresford com referências á obra.
VIII.
“ Os degraus da vida são logo esquecidos por quem sobe a escada”. Vicente
Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, caracterizando Vicente com referências á obra.

IX.
Além dos elementos paradramáticos, luminotécnica, sonoplastia, há na obra elementos simbólicos que também têm de ser interpretados pelo espectador distanciado do tempo da acção dramática. Prof. Euclides

Num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, refira-se à importância de dois desses símbolos, com juízos de leitura e referências à obra.

X.
As didascálias e as notas à margem, assim como a iluminação e o som são estratégias imprescindíveis no teatro que tem de fugir à censura e que requer interpretação/ reflexão do público. Prof. Euclides

Num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, refira-se à importância desses recursos dramáticos, com juízos de leitura e referências à obra.

Início do actoII- ( Compreensão+ Item B + exercício língua)

O segundo acto começa precisamente como o primeiro. Os actores devem ocupar no início deste acto as mesmas posições que ocupavam no primeiro, a fim de os espectadores compreenderem não se tratar esta semelhança dum acidente ocasional. ( nota à margem)

O tom é profético e a voz triste.
Está a falar sozinha. Já o estava, possivelmente, antes de surgir no palco.
Fala com amor.
Ao abrir o pano a cena está às escuras. Uma única personagem, intensamente iluminada, encontra-se à frente e ao centro do palco. É o popular que deu início ao primeiro acto.

Manuel
Que posso eu fazer? Sim, que posso eu fazer?
(Dá dois passos em direcção ao fundo do palco. Detém-se.)
Sempre que há uma esperança os tambores abafam-lhe a voz...
Sempre que alguém grita os sinos tocam a rebate...
(Pausa)
E cai-nos tudo em cima: o rei, a polícia, a fome...
(Levanta os braços ao alto)
Até Deus!
(Deixa cair os braços num gesto de desânimo)
E ficamos pior do que estávamos... Se tínhamos fome e esperanças, ficamos só com fome... Se, durante uns tempos, acreditámos em nós próprios, voltamos a não acreditar em nada...
(...)
(Para o palco)
Que mais sabem vocês da prisão do general?
Ilumina-se o fundo do palco, que se encontra repleto de gente do povo disposta exactamente como para a cena de abertura do 1º acto.
(...)

O Antigo Soldado
(visivelmente acabrunhado)
Prenderam o general... Para nós, a noite ainda ficou mais escura...

1º Popular
É por pouco tempo, amigo. Espera pelo clarão das fogueiras...
(...)

(Rita sai. Surge, a meio do palco, intensamente iluminada e sentada numa cadeira tosca, Matilde de Melo – uma mulher de meia-idade, vestida de negro e desgrenhada)

Matilde
Ensina-se-lhes que sejam valentes, para um dia virem a ser julgados por covardes!
Ensina-se-lhes que sejam justos, para viverem num mundo em que reina a injustiça!
Ensina-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia, os leve à forca!
(Levanta-se)
Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?
(Pausa)
Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos?
(Encaminha-se para uma cómoda velha que surge, iluminada, à sua esquerda)
Se o meu filho fosse vivo, havia de fazer dele um homem de bem, desses que vão ao teatro e a tudo assistem, com sorrisos alarves, fingindo nada terem a ver com o que se passa em cena!

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!



1.Enquadre este excerto na estrutura externa e interna da obra.

2. Tendo em conta a globalidade da obra, refere a importância de Manuel na economia da obra.

3. Explique as funções que a iluminação desempenha no texto.

4. Refira o que simboliza a expressão «noite escura» proferida pelo Antigo Soldado.

5. Matilde aprendeu uma lição com a condenação de Gomes Freire.
5.1. Destaque o essencial dessa lição.
5.2. Indique quem Matilde designa ironicamente por «homens de bem».

6. Identifique dois recursos expressivos presentes no texto e diga qual a sua expressividade na determinação da respectiva mensagem.

7. A partir das didascálias laterais, prova que Felizmente há Luar! está de acordo com os princípios do teatro épico.


B
Em Memorial do Convento também há uma crítica aos meios e métodos de aplicação da (in)justiça, em tudo semelhante à que é feita ao poder do regime totalitário em Felizmente, há luar!
Num texto expositivo-argumentativo entre 100 e 150 palavras, faça uma dissertação sobre o poder do regime absolutista e da inquisição, alvo de denúncia no romance de Saramago.


II
Leia o texto:

A Revolução de 25 de Abril de 1974 representa o início de uma nova era no Teatro português, estrangulado por 40 anos de obscurantismo e Censura. Nos anos imediatos à revolução foi um teatro à procura de um diálogo com o seu tempo. O realismo social estava na ordem do dia, ligado à tomada de posições políticas; mas paralelamente era também um espectáculo à procura de um público, e de um modelo de criação.
A proliferação de grupos de teatro independente característica destes anos, permite ao teatro português consolidar a sua posição no meio artístico, através de uma grande diversidade de estéticas e de públicos. Estas novas entidades congregavam, maioritariamente, jovens profissionais, alunos oriundos do novo Conservatório, actores do teatro universitário ou jovens saídos de cursos ministrados por convidados estrangeiros que então visitaram Portugal. A estas estruturas se ficaria a dever, em grande parte, a abertura de novos percursos no teatro, a afirmação de diversificados repertórios ou a procura de conceitos diferenciados de direcção e encenação.
A partir de meados dos anos 80, começam-se a esboçar noções como a de marketing cultural, gestão teatral, e «artes performativas». Assiste-se à redefinição do panorama teatral, caracterizada pela institucionalização da segunda geração de independentes, e ao aparecimento de uma novíssima geração de rebeldes, que embora muito diferentes entre si, têm em comum um teatro assente na palavra, na encenação, e na imagem e carisma do actor. A partir da década de 90 o teatro português vê alargar o seu espectro de criadores. Surgem novas estéticas, muito ligadas à multiplicação dos Festivais de Teatro, e aos contactos com companhias estrangeiras convidadas.



1. Indica se as afirmações são verdadeiras ou falsas, escrevendo na sua folha de teste a alínea seguida de V ou F.

Afirmações
a) “A Revolução de 25 de Abril de 1974...(1) tem uma referência mais lata que “Nos anos imediatos à revolução...” (2)

b)“Estas novas entidades ...” (8) recupera a referência já feita a “grupos de teatro” (6).

c) “A estas estruturas ...” (10, 11) recupera a referência a “diversidade de estéticas e de públicos...”(7,8)
d) “diversificados repertórios ou a procura de conceitos diferenciados de direcção e encenação .(12) não tem referência anterior.
e) “A partir de meados dos anos 80” (13) e “A partir da década de 90” (17) é um mecanismo de coesão interfrásico.
f) “geração de independentes ...” (15) e “geração de rebeldes (16) “ passa-se de uma modalização neutra para uma valorativa.


2. Neste item, faça corresponder a cada um dos quatro elementos da coluna A um elemento da coluna B, de modo a obter afirmações verdadeiras. Escreva na sua folha de respostas, ao lado do número da frase, a alínea correspondente.
A B
1) “mas paralelamente era também um espectáculo...” (4)
2) “que então visitaram Portugal ...”(10)
3) “A estas estruturas se ficaria a dever...” (13)
4) “começam-se a esboçar noções..” (13)

a) é uma oração subordinada relativa sem atecente.
b) é um pronome pessoal indeterminado.
c) é aparentemente uma oposição mas acaba por ser a conciliação com uma ideia nova.
d) é uma oração subordinada completiva.
e) é uma oração subordinada relativa com antecedente.
f) é um pronome pessoal complemento indirecto.

Como são os governadores? ( ficha de treino)

GRUPO I
Lê atentamente o seguinte texto:

A ingenuidade do Principal Sousa não é verdadeira. Este prelado defende-se, sempre, tentando mostrar-se alheio à política e às decisões em que intervém.

D. MIGUEL
[...] A questão que temos de resolver, Excelência, é, portanto, bem simples. Consiste apenas em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais nos convém que tenha sido o chefe da conjura.

PRINCIPAL SOUSA
Não me agrada a condenação de um inocente.

BERESFORD
Está nas suas mãos, Reverência, evitar que seja condenado um inocente...

PRINCIPAL SOUSA
Como?

BERESFORD
( Sorrindo)
Nomeando quem tenha na alma a semente do jacobinismo...
Se peca quem não acta a palavra de Deus, mais peca, com certeza, quem não aceite ou discuta a sua Autoridade... V. Reverência ainda há pouco disse que a autoridade dos reis provinha de Deus...

PRINCIPAL SOUSA
Na verdade...
BERESFORD
( Rindo-se)
Até os mercenários sabem teologia.... São eles, aliás, que mais vezes carecem dela. A consciência humana, Reverência satisfaz-se com meia dúzia de artifícios mentais.

PRINCIPAL SOUSA
Lá está V. Ex.ª brincando outra vez!
( Pausa)
Digam-me: já pensaram em alguèm?

D. MIGUEL
O problema é delicado.

BERESFORD
( Levanta-se e passeia dum lado para o outro do palco)
A minha missão consiste em reoragnizar o exército e é meu inimigo, portanto, quem me dificulte esta missão.
( A luz que incide sobre D. Miguel e o Principal Sousa começa a diminuir de intensidade até desaparecer, ficando apenas Beresford iluminado)

É também, meu inimigo quem me possa substituir na organização do exército... ou lá se vão os meus 16000$00. Dizem que eu sou um grande sargento e um mau oficial, que sei organizar o exército, mas que não sei comandar em campanha.
Basta que surja um oficial com um passado brilhante para me destronar...
Não devo esquecer-me de que estou rodeado de inimigos: o clero odeia-me porque não sou da sua seita; a nobreza, porque não lhe concedo privilégios; o povo, porque me identifica com a nobreza, e todos, sem excepção, porque sou estrangeiro...
O próprio D. Miguel só vê em mim uma limitação ao seu poder...
Neste país de intrigas e de traições, só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum e eu posso transformar-me nesse inimigo comum, se não tiver cuidado.
( Pausa)
Não é prudente ainda dizê-lo aos outros, mas não há dúvida de que existe um português capaz de me destronar...
( Fala agora para D. Miguel e o Principal Sousa que surgem subitamente iluminados.)
Senhores, temos de encontrar alguém que tenha prestígio no exército. Julgo que nos convém um oficial de patente elevada, com um bom passado militar. Concretamente, porém, não sei de ninguém que lhe possa indicar.

Luís Sttau Monteiro, Felimente Há Luar!


Itens fechados de Verdadeiro/ Falso ( 20 pontos)

1. Indica se cada uma das afirmações que se seguem são verdadeiras ou falsas.
( Transcreve para a tua folha de teste o número da alínea, seguido de V ou F)

1.1. Embora o Principal Sousa e Beresford sejam ambos governadores do reino, não parilham o mesmo conceito de justiça.

1.2. Beresford está perfeitamente consciente das diferentes ameaças a que está sujeito, por isso mantém-se muito cauteloso.

1.3. Beresford parece acreditar que a conquistada solidez da governação resulta mais da autoridade de um líder do que da autoridade herdada em nome de Deus.

1.4. Beresford não tem inimigos exteriores ao aparelho governativo.


Itens de resposta curta/ resposta restrita ( 75 pontos)

2. Refere a importância do excerto transcrito para o desenvolvimento da acção da peça.( 15 pontos)
3. Indica a função que a iluminação cénica desempenha no excerto transcrito.( 20 pontos)
4. Define, com base no texto, cinco traços caracterizadores do perfil psicológico de Beresford.( 15 pontos)

5. Explicita dois apspectos da crítica de carácter político presentes no texto.( 25 pontos)




Grupo II

Funcionamento da Língua
Item de resposta curta/ restrita ( 15 pontos)

Indica os actos de fala presentes nas frases que se seguem.

1.1. “Não me agrada a condenação de um inocente....”
1.2. “Digam-me: já pensaram em alguèm?”
1.3. “O problema é delicado.”

Grupo III

Item aberto de composição extensa/ ensaio ( 90 pontos)

Em Felizmente, Há Luar o passado é pretexto para falar do Presente.
Num texto organizado, explica como o dramaturgo consegue atingir este seu objectivo, referindo-te:
- à estrutura da obra,
- função da iluminação e do som,
- escassez de recursos cénicos,
- semelhanças entre o regime político retratado e o alvo criticado.

Governadores decidem-se.... ( ficha de treino)

GRUPO I
Lê atentamente o seguinte texto:

Abre os braços no gesto dramático de quem faz uma revelação importante e inesperada.
Começam a ouvir-se tambores ao longe, muito em surdina.


BERESFORD

Já que temos ocasião de crucificar alguém, que escolhamos a quem valha a pena crucificar.... Pensou em alguém, Excelência?
D. MIGUEL
( Passeando agitadamente à frente do palco)
Sou um homem de gabinete. Não tenho as qualidades necessárias para falar ao povo....
( Começa a apagar-se a luz que incide sobre Beresford e o Principal Sousa.)
Repugna-me a acção, estaria politicamente liquidado se tivesse de discutir as minhas ordens...
Não sou, e nunca serei, popular. Quem o for, é meu inimigo pessoal.
( Pausa)
No estado em que se encontra o Reino, basta o aparecimento de alguém capaz de falar ao povo para inutilizar o trabalho de toda a minha vida.... E há quem seja capaz de o fazer...
( Entram Corvo e Vicente, respectivamente pela esquerda e pela direita do palco)
VICENTE
Excelências, todos falam num só homem...
CORVO
Um só nome anda na boca de toda a gente.
( Surge Morais Sarmento, que avança do fundo do palco)
MORAIS SARMENTO
Senhores Governadores: onde quer que se conspire, só um nome vem à baila.
CORVO
O nome do general Gomes Freire d’ Andrade!
( Acende-se a luz que ilumina Beresford e o Principal Sousa)
D. MIGUEL
Senhores Governadores: aí tendes o chefe da revolta. Notai que lhe não falta nada: é lúcido, é inteligente, é idolatrado pelo povo, é um soldado brilhante, é grão-mestre da Maçonaria e é, senhores, um estrangeirado...
BERESFORD
Trata-se de um inimigo natural desta Regência.
PRINCIPAL SOUSA
Foi Deus que nos indicou o seu nome.

D. MIGUEL
( Sorrindo)
Deus e eu, senhores! Deus e eu...
CORVO
Mas, senhores, nada prova que o general seja o chefe da conjura.
Tudo o que se diz pode não passar de um boato...
D. MIGUEL
Cale-se! Onde está a sua dedicação a el-rei, capitão?

Luís Sttau Monteiro, Felimente Há Luar!



Itens fechados de Verdadeiro/ Falso ( 25 pontos)

1. Indica se cada uma das afirmações que se seguem são verdadeiras ou falsas.
( Transcreve para a tua folha de teste o número da alínea, seguido de V ou F)

1.1.Na réplica inicial de Beresford, o personagem refere-se à oportunidade de sacrificarem alguém, não importa quem seja, para que se cumpra um banal ritual de crucificação.

1.2.D. Miguel reconhece que a sua autoridade poderá estar ameaçada se houver quem influencie o povo.

1.3. Vicente, Corvo e Morais Sarmento hesitam na revelação da identidade do líder da conspiração.

1.4. Beresford considera o general Gomes Freire d’ Andrade um “inimigo natural(da) Regência” porque, tal como os governadores, também ele é ávido de poder.

1.5. Para D. Miguel a simples suspeita de conspiração é suficiente para castigar quem se oponha aos interesses do rei.


Itens de resposta curta/ resposta restrita (75 pontos)

2. Refere a importância do excerto transcrito para o desenvolvimento da acção da peça. ( 15 pontos)

3. As didascálias compreendidas entre o início do excerto e “ Senhores Governadores: aí tendes o chefe da revolta” permitem-nos sentir uma progressão da tensão dramática da cena.
Apresenta três elementos cénicos que contribuem para a aumentar. (20 pontos)

4. Apresenta, fundamentando-te no texto, três traços caracterizadores de D. Miguel. (15 pontos)

5. Explicita o regime político que é alvo de crítica, indicando as convicções em que se sustenta. (25 pontos)




Grupo II

Funcionamento da Língua
Item de resposta curta/ restrita ( 15 pontos)

1. Indica os actos de fala presentes nas frases que se seguem.

“Repugna-me a acção, estaria politicamente liquidado...”
“Trata-se de um inimigo natural desta Regência.”
“Cale-se! Onde está a sua dedicação a el-rei, capitão?


Grupo III

Item aberto de composição extensa/ ensaio ( 85 pontos)

O Título da peça assume sentidos diferentes consoante o ponto de vista das duas personagens que o proferem.
Num texto organizado com o mínimo de 20 linhas, refere-te à ambiguidade do título, indicando:
- as personagens que o proferem,
- a situação que as leva a proferi-lo,
- a simbologia do fogo e do luar na perspectiva de cada uma dessas personagens.
Escola Secundária Rainha D. Leonor
Português  12º Ano
Professor: Manuel Euclides Rosa
Ano Lectivo 2008/2009

Teste de verificação de leitura de Felizmente há luar Luís Sttau Monteiro

....................................
1. Selecciona a opção mais adequada ao completamento das afirmações:

1. O texto dramático Felizmente há Luar! tem como fontes:
a) Gomes Freire de Teófilo de Braga e Conspiração de 1817 de Raul Brandão.
b) Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett.
c) À espera de Godot de Samuel Beckett

2. Felizmente há Luar! inspira-se na estrutura e nos objectivos:
a) da epopeia clássica greco-latina.
b) do teatro experimental.
c) do teatro épico de Bertold Brecht.

3. Felizmente há Luar! divide-se em:
a) dois actos, com três cenas cada.
b) dois actos, sem indicação de cenas.
c) três actos com número variável de cenas.

4. O acto mais emotivo, com a apoteose trágica, o climax, é:
a) o primeiro.
b) o segundo.
c) o terceiro.

5. O texto inicia-se, tendo como pano de fundo:
a) A rua como espaço social.
b) O gabinete dos governadores do reino.
c) O forte de S. Julião da Barra.

6. As personagens seleccionadas pelo dramaturgo são:
a) representativas de vários grupos sociais.
b) todas aquelas que representam o poder.
c) em grande número por representarem todas as classes sociais.

7. As personagens pertencentes ao povo assumem:
a) atitudes de revolta contra a situação em que a classe vive.
b) comportamentos próximos aos de seres amestrados e amedrontados.
c) a coragem e a determinação como valores a preservar e a defender.

8. Segundo as indicações do dramaturgo, Manuel é:
a) um revoltado que grita contra qualquer forma de opressão.
b) um homem capaz de se juntar a Gomes Freire.
c) o popular mais consciente de todos.

9. Vicente, outra das personagens em destaque, revela:
a) ser um oportunista provoador que faz jogo duplo.
b) aos governadores o nome dos populares envolvidos na conjura.
c) o seu conformismo face à sua condição social.

10. A personagem Matilde de Melo demonstra:
a) as mesmas atitudes ao longo da sua intervenção.
b) a gradativa tomada de consciência da gravidade da situação.
c) acreditar, até ao fim, na salvação de Gomes Freire.

11. A primeira intervenção de Manuel aponta para:
a) a situação política que se vivia em Portugal.
b) a inconsciência da personagem face ao ambiente político.
c) a preocupação por Rita ainda estar a dormir.

12. O s om dos tambores que se faz ouvir desperta:
a) no antigo soldado aânsia de voltar à guerra.
b) em todos os populares a vontade de dançar ao seu ritmo.
c) em todos os presentes o desejo de fugir.

13. A primeira referência a Gomes Freire surge:
a) pela boca do Antigo Soldadoe sob a forma de elogio.
b) na voz de Manuel, que o exalta com entusiasmo.
c) na primeira réplica de Vicente, que denigre a imagem do General. 14. A longa intervenção de Vicente traduz:
a) o seu conformismo com a situação de miséria em que vive.
b) um perfeito conhecimento da realidade socio-política reinante.
c) o ódio que sente pelo general Gomes Freire.

2. Assinala verdadeiro V ou Falso F as afirmações que se seguem:

1. Felizmente há Luar! (1961), peça de esteia de Sttau Monteiro, tem como cenário o ambiente literário do século XIX.

2. A peça tem como ponto de partida a conspiração de 1817, encabeçada por gomes Freire De Andrade, que pretendia afastar o rei D. João VI e que se assume favorável à presença inglesa.

3. O crescendo trágico, representado pelas diversas tentativas de obter o perdão, acabará em climax com a execução de Gomes Freire e dos restantes presos.

4. O principal Sousa caracteriza-se como poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, sarcástico.

5. A afirmação de Vicente não se coaduna com o comportamento que assume ao longo da peça: «- Só acredito em duas coisas: no dinheiro e na força. O general não tem uma nem outra».

6. O marechal Beresford teme essencialmente perder os privilégios de que gozava e, realçando a gravidade do momento, procura impelir os outros à acção.

7. Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania dos governantes.

8. São elementos simbólicos a fogueira, o luar e a saia verde que Matilde veste para o último adeus ao marido.

9. Manuel assiste à execução do General e diz estar de luto por ele próprio.
10. António de Sousa Falcão é um dos governadores que representa o poder eclesiástico.
11. A peça tem indicações para representação, didascálias, e notas à margem fundamentais para um teatro de escassos recursos cénicos.

12. A sonoplastia e a luminotécnica não têm qualquer intencionalidade simbólica.

13. A execução do General e de outros conjurados intensifica a luta contra a opressão do regime absolutista e a vitória da revolução liberal.

14. A peça não tem quaisquer ingrediente da tragédia clássica.

15. Apesar da pathos, da hybris, da anagnóris, do climax, a obra não visa depertar a piedade e o herói é-o pela dimensão de mártir.

«Felizmente Há Luar!»- Estrutura, aspectos simbólicos

A. ESTRUTURA INTERNA (Acção)
Esta peça não se trata de uma obra que respeite a forma clássica nem obedeça à regra das três unidades (lugar, tempo e acção). A apresentação dos acontecimentos processa-se pela ordem natural e linear em que ocorrem, facilitando assim a sua compreensão.

ACTO I – Processo de incriminação; prisão dos incriminados:

Desenvolvimento da acção:
(Gomes Freire de Andrade encontra-se na sua casa “para os lados do Rato donde não há qualquer referência que tenha saído”.)

O primeiro núcleo de personagens do povo – de que fazem parte Manuel, Rita, Antigo Soldado e vários outros populares sem nome – vêem no general o seu herói, o único homem capaz de os libertar da opressão, da miséria e do terror em que vivem. (Manuel: “Se ele quisesse...”) O que significa que depositam nele as expectativas e esperanças no sentido de ser ele quem poderá libertá-los da tirania da regência e da exploração dos ingleses de que são alvo. Gomes Freire = herói

O segundo núcleo de personagens do povo – Vicente e os dois polícias – vão contribuir, através da denúncia, da traição e da força das armas, para a prisão de Gomes Freire de Andrade e para a sua ulterior execução. Gomes Freire = objecto de denúncia

Vicente num 1º momento: Vicente tem um papel de provocador, tentando denegrir junto do povo a imagem de Gomes Freire: “cá vou discutindo o general de manhã à tarde e à noite... Para esta cambada o Freire é Deus”, o que revela que Vicente despreza o povo (classe de que é, aliás, oriundo) ao mesmo tempo que desrespeita o general.

Vicente num 2º momento: Vicente tem um papel de denunciante ao aludir ao general como presumível chefe da conjura.

Vicente num 3º momento: Vicente é incumbido, por D. Miguel, de vigiar a casa de Freire de Andrade, o que ele cumpre de forma eficiente: “entram mais de dez pessoas na casa que fui incumbido de vigiar”

Núcleo dos Governadores  D. Miguel e Principal Sousa mostram-se preocupados com as mudanças que a Revolução Francesa tem vindo a introduzir no espírito de um número crescente de portugueses. Beresford está preocupado com a conspiração de que tanto se fala em Lisboa, mostra a necessidade de actuar sem demora e com dureza. Gomes Freire = perigo para o poder instituído

Morais Sarmento e Andrade Corvo  os oficiais, companheiros de Gomes Freire, que, por vantagens económicas aceitam denunciá-lo. Gomes Freire = objecto de denúncia
ACTO II – Processo de ilibação dos incriminados, punição dos incriminados

Desenvolvimento da acção:

A acção centra-se na deambulação de Matilde.
. suplica a Beresford que liberte o marido, apercebendo-se da conveniência política da prisão do seu marido;
. intimida o povo à acção no sentido de lutar contra a opressão e pela libertação do marido;
. exige ao povo que se solidarize com ela;
. dirige-se a D. Miguel e sente o ultraje deste, primo do marido;
. dirige-se ao Principal Sousa a quem acusa de hipócrita e prepotente;
. sente o reconforto e a compreensão de Frei Diogo que acabara de confessar o general preso em S. Julião da Barra;
. chega à serra de Santo António acompanhada de Sousa Falcão onde a fogueira queima o corpo de Gomes Freire;
. reconhece, na parte final, que a morte do General não foi gratuita e nota-se nela um sinal de esperança e de optimismo.

B. TEMPO

Tempo da acção: Aparentemente, no mesmo dia em que os populares conversam sobre Gomes Freire, Vicente é incumbido por D. Miguel de o vigiar. Também nesse mesmo dia, os Governadores recebem os oficiais delatores. Posteriormente, Vicente traz a informação de que «Ontem à noite entraram mais de dez pessoas em casa de…(Gomes Freire)». Não sabemos, contudo, o tempo que decorre entre a situação inicial e este “ontem”, ou seja, há quantos dias dura a vigilância à casa de Gomes Freire. É impossível determinar o tempo que decorre desde a denúncia até declarem Gomes Freire chefe da conjura e consequente prisão e condenação à morte.
No Acto II, Matilde desabafa: «Há quatro dias que não me deito…» e Sousa Falcão anuncia que os presos vão a caminho da execução. É-nos assim transmitida a ideia de que, entre a prisão dos conjurados e a sua execução, decorreram apenas quatro dias. O objectivo será evidenciar a arbitrariedade do Poder: quatro dias para recolher provas e proceder a um julgamento isento é um período de tempo ridículo.
Ficamos com a impressão de que tudo se passa num período curtíssimo de tempo. Esta concentração de tempo é escandalosa, evidenciando que o Poder não esperava senão um pretexto para eliminar um adversário que tinha prestígio suficiente para pôr em risco o poder instituído.

Tempo histórico: “Esta praga lhe rogo eu, Matilde de Melo, mulher de Gomes Freire de Andrade, hoje 18 de Outubro de 1817”

B. ESPAÇO

O espaço e o tempo de duração de “história” aparecem muito difusos. São as didascálicas e as falas das personagens que facultam algumas referências ao espaço.

Espaço físico

A acção decorre em Lisboa em três espaços principais:
. a sede da regência (zona da Baixa);
. a casa do general (zona do Rato);
. a serra de Santo António, lugar de onde é visível o forte de S. Julião da Barra.

Há porém referência a outros lugares:
. ao Campo de Sant’Ana;
. a uma rua de um bairro da zona ribeirinha;
. à porta da Sé onde os populares mendigam.

Espaço físico / Espaço psicológico

.além das didascálias e das falas das personagens, o autor usa a iluminação para marcar a mudança de espaço e os estados emocionais das personagens, num…
…Jogo de luz / sombra:
. mudança de espaço
. criar um ambiente de desalento, de sonho…
. código complementar do valor simbólico das palavras proferidas.

Espaço social (vestuários, adereços, etc…)


C. UNIDADE DA PEÇA

A unidade da peça é dada pela figura de Gomes Freire, pretenso chefe de uma conspiração contra o poder instituído em Portugal. Como anuncia o próprio autor no quadro de apresentação das personagens, Gomes Freire embora nunca apareça em cena, está sempre presente.
No início da peça, o General é tema de conversa entre os Populares e é posto sob vigilância por ordem de D. Miguel. No decurso do Acto I, os regentes do reino, sem o explicarem, mostram-se ansiosos por ter algum indício que lhes permita acusar Gomes Freire de chefe da conjura. O acto termina com a ordem de prisão de Gomes Freire, acusado de chefe dos conspiradores, ainda que não haja provas de que o seja.
Todo o Acto II se centra em torno da luta de Matilde, companheira do general, pela defesa da sua vida. Luta sem êxito, já que a obra acaba com a execução de Gomes Freire.

D. O TÍTULO

D. Miguel comenta «É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar…» quando a execução dos conjurados vai começar. Espera que assim, apesar da noite, todos tenham oportunidade de ver bem o que acontece a quem ousa desafiar as forças do poder. (Poder)
As últimas palavras da peça pertencem a Matilde que, depois da execução, diz para o povo: «Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que elas nos ensina! / Até a noite foi feita para que vísseis até ao fim… / Felizmente  Felizmente há luar!» (nem “quase grito”). A intenção é a de que todos vejam bem ao que estão sujeitos quando se opõem ao poder. Mas enquanto D. Miguel pretende manter, através do terror, o poder opressivo e incontestável, Matilde pretende que as consciências se agitem e, vencendo o medo, lutem pela liberdade. (Anti-Poder)


E. DIDASCÁLIAS

As didascálias (ou indicações cénicas) são texto secundário que serve de suporte ao texto dramático (fala de personagens).
As didascálias que encontramos entre parênteses dão-nos indicações sobre a expressão corporal da personagem, os seus sentimentos e emoções, o seu movimento em palco, a entrada e saída. Também indicam os destinatários dos actos de fala, o tom de voz, as mudanças de luz, o som.
As didascálias laterais acompanham as palavras das personagens e ajudam à sua caracterização, esclarecendo a forma com é falam, revelando as intenções do que está a ser dito, para que as palavras sejam bem interpretadas (sobretudo pelo leitor).


F. ELEMENTOS SIMBÓLICOS

Os tambores  É ao som dos tambores em fanfarra e crescendo de intensidade que a peça termina. Os tambores, que amedrontam os populares mal os ouvem à distância, e que tocam em fanfarra em momentos decisivos, como o anúncio da prisão e o fim da execução de Gomes Freire, representam a repressão; é o som simbólico da opressão aterrorizadora.

A moeda de cinco reis  Na primeira situação representa a esmola, o auxílio humilhante que os poderosos dão, com arrogância e desprezo, aos que nada têm. Por isso Manuel, numa atitude de revolta, a manda dar a Matilde, mas logo se arrepende, pois sabe que não é ela que merece este gesto de agressão. Por outro lado, Matilde ao pedir-lha está a assumir a sua culpa por não ter compreendido a real situação dos populares.
Quando Matilde atira a moeda aos pés do Principal Sousa esta passa a símbolo da traição da Igreja, o eco das moedas que Judas recebeu pela entrega de Cristo. Também o Principal Sousa traiu os valores cristãos pelo poder.

A sai verde  Oferecida a Matilde pelo seu amado, em Paris, para vestir quando voltassem a Portugal, nunca tinha sido usada, talvez porque o país nunca lhe tivesse dado motivos de esperança. É a saia que ela planeia usar quando Gomes Freire voltar para casa (atitude reveladora de que se recusa a perder a esperança). Acaba por ser a que veste no momento da execução do marido, simbolizando a esperança no futuro.

A fogueira e o clarão  a fogueira destruiu Gomes Freire e a conspiração, a hipótese de mudança. Mas foi uma destruição necessária para a purificação; para que todo o horror fosse exposto e reforçasse o desejo de lutar por um Portugal melhor. Este valor redentor e purificador do fogo converte o final de morte num final de esperança. O clarão é a luz da liberdade que se anuncia. O clarão que se extingue com a morte de Gomes Freire irá iluminar muitas consciências. A sua morte não será em vão, outros manterão viva e cada vez mais forte a chama da liberdade que iluminou o General.

O luar  Para D. Miguel, a luz do luar simboliza a opressão necessária para manter o país submisso. Para Matilde, simboliza o início do fim do obscurantismo em que o país está mergulhado. É a luz que permite “ver” um exemplo e um caminho a seguir.

«Felizmente Há Luar!», Luís de Sttau Monteiro- Síntese

«Felizmente Há Luar!», Luís de Sttau Monteiro

 A peça «Felizmente Há Luar!» é uma peça épica, inspirada na teoria marxista, apelando à reflexão do espectador / leitor, não só no quadro da representação, como também na sociedade em que se insere.


 De acordo com os princípios do “teatro épico”, definidos por Brecht, a peça pretende representar o mundo e o homem em constante evolução, de acordo com as relações sociais. Estas características afastam-se da concepção do teatro aristotélico, que pretendia despertar emoções, levando o espectador a identificar-se com o herói.


 O teatro moderno tem como preocupação fundamental levar os espectadores / leitores a pensar, a reflectir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se insere.


 Surge, assim, a técnica do distanciamento que propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador / leitor e a história contada, para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado.


 Luís de Sttau Monteiro pretende, através da distanciação, envolver o espectador / leitor no julgamento da sociedade, tomando contacto com o sofrimento dos outros. Deste modo, o espectador deve possuir um olhar crítico para melhor se aperceber de todas as formas de injustiças e opressões.

 Características da obra:
- personagens psicologicamente densas e vivas;
- comentários irónicos e mordazes;
- denúncia da hipocrisia da sociedade;
- defesa intransigente da justiça social.

 Teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição.

 A intemporalidade da peça remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição.

 Preocupação com o homem e o seu destino.

 Luta contra a miséria e a alienação.

 Denúncia da ausência de moral.

 Alerta para a necessidade de uma superação, com o surgimento de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.

 Contexto histórico (Tempo da história  século XIX): Invasões napoleónicas: em 1807, o exército francês, comandado pelo general Junot, entra em Portugal. Para evitar a rendição, D. João VI e toda a família real portuguesa fogem para o Brasil. Depois da 1ª invasão, Portugal pede a Inglaterra um oficial para reorganizar o exército (o GENERAL BERESFORD). A Corte (com todos os órgãos da administração central) instala-se no Brasil e, na metrópole, o Governo fica a cargo de uma Junta de Governadores, entre eles, D. MIGUEL FORJAZ (nobreza), PRINCIPAL SOUSA (clero) e BERESFORD (Inglaterra). Este Governo assume uma atitude demasiado autoritária e absolutista. Entretanto, um grupo de generais portugueses, defensores de um Regime Liberal, tendo como líder o GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, conspira para derrubar este Governo  Conjura de 1817. Beresford é informado da conspiração e todos os implicados são mortos.
 Tempo da escrita  século XX, década de 60: Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época em que escreve esta obra, isto é, em 1961, durante a ditadura de Salazar. Assim, o recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu-lhe também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo.

 Paralelismo histórico-metafórico

Tempo da História Tempo da escrita
Época Século XIX, 1817
Século XX, 1961
Regime Político Absolutismo Ditadura do Estado Novo (Salazar)
Sociedade Hierarquia social: classes privilegiadas e exploradoras (nobreza, clero e burguesia) e classe explorada (povo).
Fortes desigualdades sociais: classe exploradora (ricos) e classe explorada (pobres).
Povo Péssimas condições de vida: oprimido e resignado; a “miséria, o medo e a ignorância”.
Péssimas condições de vida: reprimido e explorado; miséria, medo e analfabetismo.
Conspiração MANUEL, símbolo da consciência popular, tenta participar na conspiração, liderada pelo GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, para derrubar o poder vigente.
Militantes antifascistas sublevam-se contra o regime ditatorial, mas são logo sufocados.
Denúncias VICENTE, ANDRADE CORVO e MORAIS SARMENTO são símbolos dos denunciantes hipócritas contra o GENERAL.
Muitíssimos foram os chamados “bufos”, denunciantes que ajudaram a manter o regime de Salazar.
Forças Policiais Dois polícias contribuem para sustentar o regime.
Censura. Constituídas, sobretudo, pela PIDE, eram, sem dúvida, o sustentáculo do regime.
Censura.

Classes dominantes São representadas por BERESFORD (a força inglesa), PRINCIPAL SOUSA (o clero) e D. MIGUEL FORJAZ (a nobreza).
Representadas pelas forças estrangeiras (Inglaterra), pelos monopólios e pela Igreja.
Processos Há processos de condenação sem provas.
Muitíssimos foram os processos de condenação sem provas.
Execuções Executa-se o GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, um general sem medo, mas…


Felizmente… Felizmente há luar! As execuções foram muitas, mas em 1965 executar-se-ia o General Humberto Delgado, o “General sem Medo”, mas…

Felizmente… Felizmente há luar!
 
Estimula futuras rebeliões e,
em 1834, o

LIBERALISMO triunfa. Estimula futuras rebeliões que culminarão, no 25 de Abril de 1974, com a

vitória da DEMOCRACIA.
 Personagens

- Povo (Manuel, Rita, Antigo Soldado, Populares)
- Governadores do Reino (D. Miguel Forjaz, Beresford, Principal Sousa)
- Delatores (Vicente, Morais Sarmento, Andrade Corvo)
- Dois polícias
- Matilde de Melo, António de Sousa Falcão, Frei Diogo
- General Gomes Freire de Andrade («que está sempre presente embora nunca apareça.»)

 GOMES FREIRE DE ANDRADE – figura carismática que preocupa os poderosos, que arrasta os pequenos, que acredita na justiça e luta pela liberdade (nunca aparece em cena, mas está sempre presente).

 D. MIGUEL FORJAZ – prepotente, assustado com transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio, desumano, calculista.

 PRINCIPAL SOUSA – fanático, corrompido pelo poder eclesiástico.

 GENERAL BERESFORD – poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico:
- general inglês, severo e disciplinador;
- mandou matar Gomes Freire de Andrade.

 VICENTE – demagogo, sarcástico, falso humanitarista, movido pelo interesse da recompensa material, adulador no momento oportuno, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado, capaz de recorrer à traição para ser promovido socialmente.

 MANUEL – “o mais consciente dos populares”, andrajosamente vestido: assume algum protagonismo por dar início aos dois actos:
- denuncia a opressão a que o povo tem estado sujeito e a incapacidade de conseguir a libertação e de sair da miséria em que se encontra

 MATILDE – a mulher de Gomes Freire, “a companheira de todas as horas”, corajosa:
- exprime romanticamente o amor; reage violentamente perante o ódio e as injustiças, afirma o valor da sinceridade,
- desmascara o interesse, a hipocrisia;
- ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre.

 SOUSA FALCÃO – “o inseparável amigo” de Gomes Freire, sofre junto de Matilde perante a condenação do general, assume as mesmas ideias de justiça e de liberdade, mas não teve a coragem do amigo.

 Estrutura da peça / Acção (Peça em dois actos):

Acto I – processo de incriminação; prisão dos incriminados.

. apresentação das situações;
. informações trazidas pelos espiões;
. reunião dos três espiões;
. revelação do nome do chefe dos conjurados...

(mudança de acto = mudança do acontecimento / situação)

Acto II – processo de ilibação dos incriminados; punição dos incriminados.

. a acção centra-se na deambulação de Matilde, cujo estatuto social (nascimento e casamento) lhe permite ter acesso às figuras do poder;
. Matilde considera-se vítima inconformada de uma injustiça;
. expansão da subjectividade de Matilde (inicialmente lírica e depois dramática);
. ritmo modulado pela fala de Matilde, que culmina na acusação ao poder instituído.

Funcionalidade da estrutura dual:

. repetição do quadro inicial (mesma personagem; mesmas interrogações; mesmas indicações de encenação dadas pelo autor);
. a mesma dicotomia Poder / Anti-Poder;
. a mesma disparidade das forças em conflito (que conduz à apoteose trágica final).

Felizmente há luar Luís de Sttau Monteiro- geral

I. INFLUÊNCIAS


Teatro Épico – B. Brecht (influências marxista) - «O teatro não pode impor emoções aos espectadores (como o “drama aristotélico”), deve fazer com que eles pensem.»


- Narrativo:
. O espectador não é apenas uma testemunha da acção, há que despertar-lhe a actividae e exigir-lhe decisões.

- Mundividências:
. O espectador é posto peralte qualquer tipo de situação.

- Argumento:
. As sensações são elevadas ao nível do conhecimento;
. O espectador está defronte, analisa;
. O homem é objecto de uma análise;
. O homem é susceptível de ser modificado e de modoficar;
. Tensão crescente, ao longo da acção;
. O homem como realidade em processo;
. O ser social determina o pensamento.



II. ESTRUTURA / ACÇÃO

1. Peça em dois actos:

Acto I – processo de incriminação; prisão dos incriminados.

. apresentação das situações;
. informações trazidas pelos espiões;
. reunião dos três espiões;
. revelação do nome do chefe dos conjurados...

... o General Gomes Freire de Andrade (personagem ausente, mas sempre presente)...
... um herói para Manuel, Rita; Antigo Soldado e populares;
... objecto de denúncia para Vicente, Morais Sarmento e Andrade Corvo;
... incómodo para os Governadores do Reino (D. Miguel, Beresford e Pricipal Sousa).

(mudança de acto = mudança do acontecimento / situação)
Acto II – processo de ilibação dos incriminados; punição dos incriminados.

. a acção centra-se na deambulação de Matilde, cujo estatuto social (nascimento e casamento) lhe permite ter acesso às figuras do poder;
. Matilde considera-se vítima inconformada de uma injustiça;
. expansão da subjectividade de Matilde (inicialmente lírica e depois dramática);
. ritmo modulado pela fala de Matilde, que culmina na acusação ao poder instituído.


2. Funcionalidade da estrutura dual:

. repetição do quadro inicial (mesma personagem; mesmas interrogações; mesmas indicações de encenação dadas pelo autor);
. a mesma dicotomia Poder / Anti-Poder;
. a mesma disparidade das forças em conflito (que conduz à apoteose trágica final).


III. PERSONAGENS

O Povo (Manuel, Rita, Antigo Soldado, populares)
Os delactores (Vicente, Morais Sarmento, Andrade Corvo)
Dois polícias
Os Governadores do Reino (D. Miguel Forjaz, Beresford, Principal Sousa)
Matide de Melo / António de Sousa Falcão
Frei Diogo

Tom e sentido da fala das personagens

Manuel – desencanto, compaixão e perplexidade (linguagem com desviod lexicais e com aforismos).
Vicente – inteligência perversa, ódio e desprezo (subtileza dos raciocínios).
D. Miguel – calculista cínico e maquiavélico.
Beresford – pragmatismo tranquilo, sereno e assumido (recurso a uma linguagem técnico-militar).
Principal Sousa – distante, paternalismo falso e beato (recurso a uma terminologia de sentido teológico).
Frei Diogo – inocência, sensibilidade e compreensão da dor.
Sousa Falcão – desiludido e com sentimento de culpa.
Corvo e Sarmento – cobardia, traição, subserviência, venalidade e vilania.
Matilde – amor, paixão, desencanto, confissão, desespero, veemência e acusação (recurso a uma argumentação inteligente, a uma filosofia sagaz e a um tom ingénuo a falar da sua vida privada).


IV. TEMPO

. Paralelismo histórico-metafórico:
- Tempo da acção (séc.XIX – 1817) – Regime Absolutista
- Tempo da escrita (séc.XX – 1920) – Regime Salazarista (fascismo)
. O avanço da acção (passagem do tempo) é dado através da fala das personagens.

V. ESPAÇO

1. Espaço Físico / Espaço Psicológico – não há indicações cénicas com referências a diferentes espaços; a mudança de espaço é marcada por:
. técnica da iluminação;
. didascálias;
. falas das personagens;
. jogo de luz / sombra (para mudança de espaço; para criar ambientes de desalento, de sonho; um código complementar do valor simbólico das palavras proferidas).

2. Espaço Social – vestuário; adereços...

VI. SIMBOLISMO

. saia verde de Matilde (felicidade e esperança)
. o título: «Felizmente há luar!», dito por D. Miguel (efeito dissuasor das execuções); dito po Matilde (esperança).
. Luz (vida)  Noite (morte)
. Lua – luar (transformação, renovação,crescimento)
. Fogueira – “clarão” (esperança)

VII. NOVA CONCEPÇÃO DE TEATRO
. Uma “apoteose trágica” – glorificação de um momento exemplar da luta pela liberdade.


VIII. INTENCIONALIDADE DA PEÇA
. Recorrendo à caracterização e linguagem das personagens, às notas à margem do texto e aos elementos de luz e de som, o autor prentende fazer com que o leitor/espectador, pela análise crítica da sociedade do século XIX, reflicta sobre a situação política e social do século XX (1961):
- denúncia de situações escandalosamente injustas e repressoras.

. «Felizmente – felizmente há luar!» (última fala de Matilde, antes de cair o pano):
- 1817 – a esperança de se alterar um regime Absolutista, injusto e violento (1834 – triunfo do Liberalismo)
- 1962 – esperança de se alterar um regime Fascista, injusto e violento (25 de Abril de 1974 – triunfo da Democracia).

Felizmente há luar! – Luís de Sttau Monteiro- teatro épico

Felizmente há luar! – Luís de Sttau Monteiro

Influências do teatro épico (de Brecht) : o teatro não pode impor emoções ao espectador ( “drama” aristotélico), deve fazer com que ele pense.

 é narrativo  o espectador é uma testemunha que tem de agir:
o texto desperta-lhe a actividade e exige-lhe decisões.
 possui mundividência  o espectador é posto perante qualquer coisa.

 estruturação do argumento:

as sensações são elevadas ao nível do conhecimento

o espectador está defronte, analisa

o homem é objecto de uma análise

o homem é susceptível de ser modificado e de modificar

o decurso da acção provoca tensão

o homem como uma realidade em processo

o ser social determina o pensamento

 O espectador diz…
… no TEATRO DRAMÁTICO … no TEATRO ÉPICO
 Sim, eu já senti isso.
 Eu sou assim.
 O sofrimento deste homem comove-me, pois é irremediável.
 É uma coisa natural.

 Será sempre assim.
 Isto é que é arte! Tudo ali é evidente.
 Choro com os que choram e rio com os que riem.  Isto é que eu nunca pensaria.
 Não é assim que se deve fazer.
 O sofrimento deste homem comove-me porque seria remediável.
 Que coisa extraordinária, quase inacreditável!
 Isto tem que acabar.
 Isto é que é arte! Nada ali é evidente.
 Rio de quem chora e choro com os que riem.

Intenção do autor:
(na caracterização das personagens; nas notas à margem do texto; nos elementos da luz e do som; pela linguagem)

 Fazer com que o leitor/espectador, pela análise crítica da sociedade do início do século XIX (1817), reflicta sobre a situação política e social do século XX (1961).
 Denunciar situações escandalosamente injustas e repressoras.

Ricardo Reis- Uns com os olhos postos no passado

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto1
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

1 Hausto = sorvo, aspiração (neste contexto, metáfora de valor temporal)

Linhas de leitura

1. Explicite as diferentes perspectivas de encarar a vida, confrontadas na ode.

2. Refira o tempo que o sujeito poético valoriza, justificando a sua resposta com referências textuais.

3. Indique os dois pressupostos apontados que justificam a filosofia de vida aconselhada.

4. Identifique e explique a expressividade do recurso estilístico presente no final do poema: «Colhe / O dia, porque és ele.»

5. Atente na afirmação:
Cada escravo transporta consigo a chave para a sua liberdade e felicidade.
Num texto com um mínimo de 80 e um máximo de 120 palavras,fazendo apelo à sua experiência de leitura, explique em que medida a frase acima transcrita se aplica à filosofia de vida defendida por Ricardo Reis.

Dois Poemas de Ricardo Reis

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia


Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas…
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif’rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre. Meus irmãos, em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese.
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

Que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, ávida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece…
O jogo de xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo de xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

*************************


Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá. Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra Que serás quando fores
Na noite a ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mas as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

Ricardo Reis

Ricardo Reis
Um epicurista triste.


Filosofia de vida:

A sabedoria de…
Filosofia de vida que segue e … deixar passar a vida…
… serenamente, … … sem a viver.
Carpe diem (de Horácio)
 Epicurismo
 Estoicismo

Viver o momento presente, o dia de hoje, pois o passado não volta e o futuro é a morte
 Ausência de perturbação: evitando a dor ao dominar (pela razão) os instintos, atingindo a ataraxia (indiferença total, alheamento)
 Aceitação do Destino (Morte), sem protestar: desistir da luta e viver a ilusão da felicidade

«e que o seu perfume suavize o momento» «Mais vale saber passar silenciosamente / E sem desassossegos grandes.»
«Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio1.» «Abdica e sê rei de ti próprio»
aconselha:
a única filosofia de vida que anula a angústia perante a inevitabilidade da morte

1 Rio  Símbolo da Vida: a passagem irreversível do tempo (da nascente à foz).

ESTOICISMO
Estoicismo é a filosofia fundada por Zenão, na primeira parte do séc. III a.C., Atenas
 Crença na conclusão de um ciclo (através do fogo), que seria substituído por outro (a repetição cíclica era indefinida).
 Deus é a alma do mundo e cada um de nós contém parte do fogo divino.
 A vida individual deve estar de acordo com as leis da Natureza (a virtude significa viver de acordo com as leis cósmicas).
 Devemos desprezar as paixões, porque conduzem ao sofrimento.

EPICURISMO

O epicurismo foi fundado por Epicuro (n. 341-270 a.C., Ática).
 Filosofia que se destinava a dar tranquilidade às pessoas.
 Defesa do prazer como um bem, mas de um prazer moderado; virtude significa prudência na busca do prazer.
 Devem procurar-se os prazeres tranquilos e não as alegrias violentas.
 Abolição de riqueza e da honra, porque roubam o descanso a quem poderia estar feliz.
 Recusa do amor, porque implica sofrimento - a amizade é o melhor prazer social.
 Crença de que os deuses não interferem nas coisas humanas e de que a alma morre com o corpo.

Álvaro Campos- Fase Futurista- Senascionista

Álvaro de Campos- Futurista

Contextualização da Fase Futurista no percurso poético do heterónimo:
Segundo Jacinto Prado Coelho, e é de consenso quase geral, a poesia d Campos deenvolve-se em três fases:
- a do Opiário (ilustrado com um poema sob esse título, datado ficticiamente de Março de 1914;
- a do Futurismo Whitmaniano ( documentado na Ode Triunfal (Abril de 1914), Dois excertos de Odes (30 de Junho de 1914), Ode Marítima( Publicada no nº 2 de Orpheu em 1915), Saudação a Walt Whitman ( 11 de Junho de 1915), Passagem das Horas (22 de Maio de 1916);
- a fase pessoal, também conhecida por intimista, onde se verifica o retorno a Pessoa Ortónimo, pelo refúgio na infância, como forma de resolver o tédio, e a abulia.

A segunda fase do Futurismo Whitmaniano:
Campos recebe influências do Futurismo de Marinetti e do Sensacionismo De Walt Whitman.

Manifesto Futurista de Marinetti (11 de Março de 1912):

• Deve destruir-se o eu na literatura, isto é, deve abolir-se toda a psicologia (...) substituindo-a pela matéria (...) com os seus impulsos directivos, a sua força de compressão, de dilatação, de coesão e de desagregação, a sua composição molecular ou as suas turbinas de electrões (...) O calor de um pedaço de ferro ou de madeira, é muito mais apaixonante, para nós, que o sorriso ou as lágrimas de uma mulher. Queremos na literatura a vida do motor, novo animal instintivo do qual conheceremos o instinto geral, depois de conhecermos os instintos das diversas forças que o compõem (...) É necessário sentir o peso e o odor dos objectos, coisa que nunca se fez na literatura, ouvindo os motores e reproduzindo os seus especialíssimos discursos inumanos.

• (...) Há necessidade de orquestrar as imagens, dispondo-as segundo um máximo de desordem;


• (...) Deve haver uma gradação de analogia cada vez mais vasta, estabelecendo relações tanto mais profundas e sólidas, quanto mais distantes. A analogia nada mais é do que o amor profundo que liga as coisas distantes, aparentemente diversas e hostis. Quando, na minha Battaglia di Tripoli, comparei uma trincheira hirta de baionetas a uma orquestra, uma metralhadora a uma mulher fatal, introduzi, intuitivamente, uma grande parte do Universo num breve episódio de batalha africana. As imagens não são flores para semear e colher com parcimónia, como dizia Voltaire. Elas constituem o próprio sangue da poesia. A poesia deve ser sequência ininterrupta de imagens novas, sem o que será pura anemia (...) É necessário, portanto, abolir na língua o que ela contenha de imagens estereotipadas, de metáforas desbotadas; isto é, quase tudo.
• Necessidade de libertação da sintaxe, dispondo os substantivos ao acaso, de forma espontânea;
• Deve usar-se o verbo no infinitivo, para que se adapte elasticamente ao substantivo e não se sobreponha ao eu do escritor que observa ou imagina (...);
• Deve abolir-se o adjectivo, para que o substantivo nu conserve o seu valor essencial (...);
• Deve abolir-se o advérbio (...) para evitar que ele dê à frase uma fastidiosa unidade de tom;
• Todo o substantivo deve ter o seu duplo, isto é, o substantivo deve ser seguido, sem conjunção, do substantivo a que está ligado por analogia (...);

O Futurismo em Portugal foi um escândalo sociológico. Os jovens futuristas ( Pessoa, Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, entre outros, foram apelidados de “ malucos”, “loucos” mas era isso que eles próprios queriam, “ dar uma bofetada no gosto do público(famoso poema de maiakovski), rompendo definitivamente com hábitos culturais esclerosados e retrógrados.

“ Um automóvel é mais belo que a Vitória de Samotrácia
Elogio da civilização industrial e da técnica
Ruptura com o subjectivismo da lírica tradicional
Atitude escandalosa: transgressão da moral estabelecida

Sensacionismo Whitmaniano:
• A única realidade na vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.
• Não há Filosofia, Ética ou Estética, mesmo na arte, onde existem apenas sensações.
• Pujança da sensação intelectual, emocional e física

Vivência em excesso das sensações (“Sentir tudo de todas as maneiras” – afastamento de Caeiro)
Sadismo e masoquismo
Cantor lúcido do mundo moderno

Do sensacionismo (de Walt Whitman), Campos adoptou, para além do verso livre, um estilo esfuziante, torrencial, espraiado em longos versos de duas ou três linhas, anafórico, exclamativo, interjectivo, monótono pela simplicidade dos processos, pela reiteração de apóstrofes e enumerações, mas vivificado pela fantasia verbal duradoura e inesgotável.


ODE TRIUNFAL(excerto)


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com o que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!


Ode marítima(excerto)

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.

(...)
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
(...)
Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa.
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...
(...)
E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas,
Galdropes, escotilhas, caldeiras, colectores, válvulas;
Caí, por mim dentro em montão, em monte,
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão!
Sede vós o tesouro da minha avareza febril,
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação,
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética,
Fornecei-me metáforas imagens, literatura,
Porque em real verdade, a sério, literalmente,
Minhas sensações são um barco de quilha prò ar,
Minha imaginação uma âncora meio submersa,
Minha ânsia um remo partido,
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!




Saudação a Walt Whitman


Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro, Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica.
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,


Passagem das Horas

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.
(...)
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...







Dois Excertos de Odes

(...)
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
(...)
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
...................................................................................

Síntese

celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna
- apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina
- exalta o progresso técnico, a velocidade e a força
- procura da chave do ser e da inteligência do mundo torna-se desesperante
- canta a civilização industrial
- recusa as verdades definitivas
- estilisticamente: introduz na linguagem poética a terminologia do mundo mecânico citadino e cosmopolita
- intelectualização das sensações
- a sensação é tudo
- procura a totalização das sensações: sente a complexidade e a dinâmica da vida moderna e, por isso, procura sentir a violência e a força de todas as sensações – “sentir tudo de todas as maneiras”
- cativo dos sentidos, procura dar largas às possibilidades sensoriais ou tenta reprimir, por temor, a manifestação de um lado feminino
- tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir
- exprime a energia ou a força que se manifesta na vida