domingo, 30 de março de 2008

A Outra Asa do Grifo

Afonso de Albuquerque

De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quere o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.

“Mal com os homens por amor del-rei, e mal com el-rei por amor dos homens” é uma famosa frase dita por Afonso de Albuquerque pouco tempo antes de morrer e que traduz o ideal que norteou toda a sua .
Este poema foi primeiramente editado na revista “Mundo Português” no dia 26 de Setembro de 1928.
Na estrutura interna de Mensagem o poema é o terceiro (a outra asa do grifo) do quinto grupo “ O Timbre” da primeira parte O Brasão.
Simboliza o poder da força, a concretização do sonho.
Se tivermos em conta o simbolismo dos três poemas do Timbre teremos algo como visão (D. Henrique), o poder da vontade (D. João, o segundo) e o poder da força, que se já conhecemos do primeiro verso do poema “ O Infante”, “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce.”
O autor começa por captar um momento da vida do herói, dando uma imagem deste de pé sobre as suas conquistas no primeiro verso.
Do segundo verso ao oitavo são dados os seus sentimentos que têm como causa os feitos heróicos e as suas consequenciais.
Pessoa vai para alem da imagem do herói forte e determinado, e mostra-o como um ser cansado de ver a injustiça que há no mundo e o que o destino (sorte) lhe reserva. A injustiça que o autor se refere é à ingratidão dos outros pelos seus feitos. O seu sucesso não desperta admiração nos outros, mas sim inveja.
Há um desprezo pela vida material por parte do herói. Este já está tão cansado do poder e das conquistas que já não pensa em nada, já foram realizados todos os seus desejos materiais. O seu poder já é tão grande que ultrapassa o seu desejo.
O seu desejo de glória trouxera mais do que vitórias e poder, trouxera também as invejas dos outros e da corte “Que o querer tanto/ calcara mais do que o submisso mundo”.
Nos últimos dois versos Pessoa fala sobre as conquistas, referindo-se a três impérios.
O número três representa simbolicamente a perfeição, pelo que a conquista destes três impérios é a utopia do herói. Estes três impérios podem ser o Material, o Espiritual, e o Cultural, podem também ser o império Português, o Árabe e o Hindu, e ainda, mais especificamente se nos tivermos a referir a Afonso de Albuquerque, podem ser Goa, Malaca e Ormuz, as três cidades fortes que conquistou.
Pessoa mais uma vez chama sorte ao destino ao contrário dos poemas dos das quinas em que o azar é uma constante.
Foi o destino que “deu”, que permitiu a realização dos feitos de Afonso de Albuquerque, mas como nada é de graça, ele presenciou um futuro negro, e uma vida repleta de azar.
Quanto à análise formal do poema, é constituído por uma décima composta por cinco versos decassílabos e cinco hexassílabos alternados.
A rima é emparelhada, sendo o esquema rimático aabbccddee.



Nuno Viegas Moreira nº23 12º2

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