sábado, 1 de novembro de 2008

O bicho da terra tão pequeno...” que somos!

(por Sofia Godinho, 12º3 ( 06-10-2008))


Camões contradiz-se, enaltecendo a Natureza humana para logo de seguida admitir a sua pequenez.
De certo modo, não poderia Camões ter feito de outra forma, porque somos de facto tão grandes e tão pequenos.
Do ponto de vista de Camões a grandeza e a pequenez do Homem resultam também do contexto histórico da época, visto que saímos de uma idade média obscura com a ideia de que está tudo descoberto e feito por Deus. Entramos no Renascimento e à medida que se perspectiva o cosmos, o conhecimento torna-se numa primeira análise, a grandeza do Homem, mas na grandeza do cosmos o Homem é pequeno.
No entanto, a meu ver, Camões vai ainda mais longe, pois a maior grandeza da espécie humana reside na capacidade de autoconhecimento e de autoavaliação que cada ser humano pode desenvolver sobre si próprio e da sociedade ou comunidade de que faz parte. Assim, tornamo-nos diferentes de todas as outras vidas que povoam o planeta, pois somos autoconscientes. Essa capacidade de tomarmos consciência de nós e do que nos rodeia permite-nos pelo menos desejar sempre mais e melhor. Essa sede de mais, tão característica da nossa espécie, é o que nos tem levado ao desenvolvimento. Sentimos curiosidade e desejamos sempre mais, aprendendo, inovando e criando, só assim saciamos os nossos desejos. Avaliamo-nos a nós e ao Mundo a que nos ligamos , reconhecemos as nossas faltas e, não obstante, sabemos tirar proveito das nossas qualidades, para nos aperfeiçoar. Evoluimos como pessoas, como espécie.
No entanto, toda essa grandeza é contraposta por uma pequenez infindavelmente pequena, passando o pleonasmo! Se a humanidade é grande, graças à abertura do seu pensamento, é pequena pela sua fragilidade física.
O Homem só, longe da presença de qualquer um dos seus muitos utensílios, é tão pequeno, tão insignicante e tão indefeso, quanto um grão de areia perdido numa praia, numa praia deserta, perdida num planeta pequeno, perdido num Universo estrondosamente grande.
A nossa fragilidade física condiciona-nos. Nascemos com menos defesas do que a maior parte dos seres vivos predadores, mas somos mais fortes que qualquer outro ser vivo porque soubemos aproveitar a grandeza do nosso pensamento para tirar partido de técnicas e utensílios que nos elevam. Contudo, não é só a fraqueza física do Homem que o torna pequeno e indefeso. Os vícios em que cai e o conformismo em que por vezes se enlaça bloqueiam o caminho em direcção à perfeição.
A vida está feita de tal forma, que a humanidade, no seu complexo paradoxo, tem, paralelamente à sua força e vontade para mudança, desenvolvimento e evolução, uma enorme predisposição para ser vítima do seu próprio conformismo.
Quero eu com isto dizer, que, se por um lado somos grandes por cada vez que reconhecemos o nosso “eu” e a nossa circunstância, somos também pequenos quando ao encontrar falhas, obstáculos, dificuldades, ao invés de mudarmos e apostarmos no nosso aperfeiçoamento, nos acomodamos e nos conformamos com a situação.
Dizia Fernando Pessoa, “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce.”, e esta é a maior grandeza que a humanidade tem.

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