domingo, 19 de abril de 2009

PROPOSTAS DE ITENS DE TEXTO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO- Felizmente, Há Luar!

PROPOSTAS DE ITENS DE TEXTO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO
( Item B de Prova de Exame- 100 a 120 palavras) Prof: Euclides Rosa
I.
“ A figura de Gomes Freire de Andrade, a quem “ o inseparável amigo”, Sousa Falcão se refere como um dos ” homens que obrigam todos os outros a reverem-se por dentro...”, assume-se como reserva moral e, simultaneamente, mito referencial de uma revolução que está longe de ter a dimensão insurreccional que o poder estabelecido lhe atribui”
Barata, José Oliveira, Para Compreender Felizmente Há Luar, Asa

Comente a citação transcrita, num texto expositivo-argumentativo entre 100 e 120 palavras com juízos de leitura e referências à obra, centrando-se na caracterização e modo de apresentação do herói épico, Gomes Freire de Andrade.
II.
“ A nobreza moral de Matilde aproxiama-a da trajectória de uma heroína trágica. Debatendo-se entre os mais puros e humanos sentimentos, comuns a qualquer mortal, e a sublimação heróica, que progressivamente a conduz de simples amante de Gomes Freire a corifeu de uma revolta, Matilde surge-nos como a figura mais dramaticamente elaborada de toda a peça.”
Barata, José Oliveira, Para Compreender Felizmente Há Luar, Asa

Comente a citação transcrita, num texto expositivo-argumentativo entre 100 e 120 palavras com juízos de leitura e referências à obra, referindo-se á importância de Matilde de Sousa Melo na apoteose trágica de Sttau Monteiro.
III.
“ Felizmente, há luar!: a duplicidade de intenções desta elocução e o contexto situacional em que é proferida servem, assim, mais uma vez, a estrutura dual que se procura apresentar: a frase dita pelo Poder e dita pelo anti-poder”.
Barata, José Oliveira, Para Compreender Felizmente Há Luar, Asa

Num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, refira-se à importância e simbologia do título da obra, fazendo-lhe juízos de leitura e referências concretas.

IV.
“ Foi aquela peça em que um homem voltado para o dia seguinte – O Gomes Freire – foi morto por gente da véspera.” Luís de Sttau Monteiro

Comente a afirmação do autor num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavrascom juízos de leitura e referências à obra.

V.
“ Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos? “- Matilde
Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavrascom juízos de leitura e referências à obra.


VI.
“ Olhem bem! Limpem bem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim...” – Matilde
Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, referindo-se ao carácter didáctico de Felizmente, Há Luar! .

VII.
“ O velho está sempre a ceder perante o novo e o novo sempre a destruir o velho....; A consciência, Reverência, satisfaz-se com meia dúzia de artifícios mentais; depende do seu peso, da sua influência, das vantagens ou inconvenientes que, para mim, resultem da sua morte...” Beresford

Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, caracterizando Beresford com referências á obra.
VIII.
“ Os degraus da vida são logo esquecidos por quem sobe a escada”. Vicente
Comente a afirmação da personagem num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, caracterizando Vicente com referências á obra.

IX.
Além dos elementos paradramáticos, luminotécnica, sonoplastia, há na obra elementos simbólicos que também têm de ser interpretados pelo espectador distanciado do tempo da acção dramática. Prof. Euclides

Num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, refira-se à importância de dois desses símbolos, com juízos de leitura e referências à obra.

X.
As didascálias e as notas à margem, assim como a iluminação e o som são estratégias imprescindíveis no teatro que tem de fugir à censura e que requer interpretação/ reflexão do público. Prof. Euclides

Num texto expositivo-argumentativo com uma extensão entre 100 e 120 palavras, refira-se à importância desses recursos dramáticos, com juízos de leitura e referências à obra.

Início do actoII- ( Compreensão+ Item B + exercício língua)

O segundo acto começa precisamente como o primeiro. Os actores devem ocupar no início deste acto as mesmas posições que ocupavam no primeiro, a fim de os espectadores compreenderem não se tratar esta semelhança dum acidente ocasional. ( nota à margem)

O tom é profético e a voz triste.
Está a falar sozinha. Já o estava, possivelmente, antes de surgir no palco.
Fala com amor.
Ao abrir o pano a cena está às escuras. Uma única personagem, intensamente iluminada, encontra-se à frente e ao centro do palco. É o popular que deu início ao primeiro acto.

Manuel
Que posso eu fazer? Sim, que posso eu fazer?
(Dá dois passos em direcção ao fundo do palco. Detém-se.)
Sempre que há uma esperança os tambores abafam-lhe a voz...
Sempre que alguém grita os sinos tocam a rebate...
(Pausa)
E cai-nos tudo em cima: o rei, a polícia, a fome...
(Levanta os braços ao alto)
Até Deus!
(Deixa cair os braços num gesto de desânimo)
E ficamos pior do que estávamos... Se tínhamos fome e esperanças, ficamos só com fome... Se, durante uns tempos, acreditámos em nós próprios, voltamos a não acreditar em nada...
(...)
(Para o palco)
Que mais sabem vocês da prisão do general?
Ilumina-se o fundo do palco, que se encontra repleto de gente do povo disposta exactamente como para a cena de abertura do 1º acto.
(...)

O Antigo Soldado
(visivelmente acabrunhado)
Prenderam o general... Para nós, a noite ainda ficou mais escura...

1º Popular
É por pouco tempo, amigo. Espera pelo clarão das fogueiras...
(...)

(Rita sai. Surge, a meio do palco, intensamente iluminada e sentada numa cadeira tosca, Matilde de Melo – uma mulher de meia-idade, vestida de negro e desgrenhada)

Matilde
Ensina-se-lhes que sejam valentes, para um dia virem a ser julgados por covardes!
Ensina-se-lhes que sejam justos, para viverem num mundo em que reina a injustiça!
Ensina-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia, os leve à forca!
(Levanta-se)
Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?
(Pausa)
Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos?
(Encaminha-se para uma cómoda velha que surge, iluminada, à sua esquerda)
Se o meu filho fosse vivo, havia de fazer dele um homem de bem, desses que vão ao teatro e a tudo assistem, com sorrisos alarves, fingindo nada terem a ver com o que se passa em cena!

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!



1.Enquadre este excerto na estrutura externa e interna da obra.

2. Tendo em conta a globalidade da obra, refere a importância de Manuel na economia da obra.

3. Explique as funções que a iluminação desempenha no texto.

4. Refira o que simboliza a expressão «noite escura» proferida pelo Antigo Soldado.

5. Matilde aprendeu uma lição com a condenação de Gomes Freire.
5.1. Destaque o essencial dessa lição.
5.2. Indique quem Matilde designa ironicamente por «homens de bem».

6. Identifique dois recursos expressivos presentes no texto e diga qual a sua expressividade na determinação da respectiva mensagem.

7. A partir das didascálias laterais, prova que Felizmente há Luar! está de acordo com os princípios do teatro épico.


B
Em Memorial do Convento também há uma crítica aos meios e métodos de aplicação da (in)justiça, em tudo semelhante à que é feita ao poder do regime totalitário em Felizmente, há luar!
Num texto expositivo-argumentativo entre 100 e 150 palavras, faça uma dissertação sobre o poder do regime absolutista e da inquisição, alvo de denúncia no romance de Saramago.


II
Leia o texto:

A Revolução de 25 de Abril de 1974 representa o início de uma nova era no Teatro português, estrangulado por 40 anos de obscurantismo e Censura. Nos anos imediatos à revolução foi um teatro à procura de um diálogo com o seu tempo. O realismo social estava na ordem do dia, ligado à tomada de posições políticas; mas paralelamente era também um espectáculo à procura de um público, e de um modelo de criação.
A proliferação de grupos de teatro independente característica destes anos, permite ao teatro português consolidar a sua posição no meio artístico, através de uma grande diversidade de estéticas e de públicos. Estas novas entidades congregavam, maioritariamente, jovens profissionais, alunos oriundos do novo Conservatório, actores do teatro universitário ou jovens saídos de cursos ministrados por convidados estrangeiros que então visitaram Portugal. A estas estruturas se ficaria a dever, em grande parte, a abertura de novos percursos no teatro, a afirmação de diversificados repertórios ou a procura de conceitos diferenciados de direcção e encenação.
A partir de meados dos anos 80, começam-se a esboçar noções como a de marketing cultural, gestão teatral, e «artes performativas». Assiste-se à redefinição do panorama teatral, caracterizada pela institucionalização da segunda geração de independentes, e ao aparecimento de uma novíssima geração de rebeldes, que embora muito diferentes entre si, têm em comum um teatro assente na palavra, na encenação, e na imagem e carisma do actor. A partir da década de 90 o teatro português vê alargar o seu espectro de criadores. Surgem novas estéticas, muito ligadas à multiplicação dos Festivais de Teatro, e aos contactos com companhias estrangeiras convidadas.



1. Indica se as afirmações são verdadeiras ou falsas, escrevendo na sua folha de teste a alínea seguida de V ou F.

Afirmações
a) “A Revolução de 25 de Abril de 1974...(1) tem uma referência mais lata que “Nos anos imediatos à revolução...” (2)

b)“Estas novas entidades ...” (8) recupera a referência já feita a “grupos de teatro” (6).

c) “A estas estruturas ...” (10, 11) recupera a referência a “diversidade de estéticas e de públicos...”(7,8)
d) “diversificados repertórios ou a procura de conceitos diferenciados de direcção e encenação .(12) não tem referência anterior.
e) “A partir de meados dos anos 80” (13) e “A partir da década de 90” (17) é um mecanismo de coesão interfrásico.
f) “geração de independentes ...” (15) e “geração de rebeldes (16) “ passa-se de uma modalização neutra para uma valorativa.


2. Neste item, faça corresponder a cada um dos quatro elementos da coluna A um elemento da coluna B, de modo a obter afirmações verdadeiras. Escreva na sua folha de respostas, ao lado do número da frase, a alínea correspondente.
A B
1) “mas paralelamente era também um espectáculo...” (4)
2) “que então visitaram Portugal ...”(10)
3) “A estas estruturas se ficaria a dever...” (13)
4) “começam-se a esboçar noções..” (13)

a) é uma oração subordinada relativa sem atecente.
b) é um pronome pessoal indeterminado.
c) é aparentemente uma oposição mas acaba por ser a conciliação com uma ideia nova.
d) é uma oração subordinada completiva.
e) é uma oração subordinada relativa com antecedente.
f) é um pronome pessoal complemento indirecto.

Como são os governadores? ( ficha de treino)

GRUPO I
Lê atentamente o seguinte texto:

A ingenuidade do Principal Sousa não é verdadeira. Este prelado defende-se, sempre, tentando mostrar-se alheio à política e às decisões em que intervém.

D. MIGUEL
[...] A questão que temos de resolver, Excelência, é, portanto, bem simples. Consiste apenas em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais nos convém que tenha sido o chefe da conjura.

PRINCIPAL SOUSA
Não me agrada a condenação de um inocente.

BERESFORD
Está nas suas mãos, Reverência, evitar que seja condenado um inocente...

PRINCIPAL SOUSA
Como?

BERESFORD
( Sorrindo)
Nomeando quem tenha na alma a semente do jacobinismo...
Se peca quem não acta a palavra de Deus, mais peca, com certeza, quem não aceite ou discuta a sua Autoridade... V. Reverência ainda há pouco disse que a autoridade dos reis provinha de Deus...

PRINCIPAL SOUSA
Na verdade...
BERESFORD
( Rindo-se)
Até os mercenários sabem teologia.... São eles, aliás, que mais vezes carecem dela. A consciência humana, Reverência satisfaz-se com meia dúzia de artifícios mentais.

PRINCIPAL SOUSA
Lá está V. Ex.ª brincando outra vez!
( Pausa)
Digam-me: já pensaram em alguèm?

D. MIGUEL
O problema é delicado.

BERESFORD
( Levanta-se e passeia dum lado para o outro do palco)
A minha missão consiste em reoragnizar o exército e é meu inimigo, portanto, quem me dificulte esta missão.
( A luz que incide sobre D. Miguel e o Principal Sousa começa a diminuir de intensidade até desaparecer, ficando apenas Beresford iluminado)

É também, meu inimigo quem me possa substituir na organização do exército... ou lá se vão os meus 16000$00. Dizem que eu sou um grande sargento e um mau oficial, que sei organizar o exército, mas que não sei comandar em campanha.
Basta que surja um oficial com um passado brilhante para me destronar...
Não devo esquecer-me de que estou rodeado de inimigos: o clero odeia-me porque não sou da sua seita; a nobreza, porque não lhe concedo privilégios; o povo, porque me identifica com a nobreza, e todos, sem excepção, porque sou estrangeiro...
O próprio D. Miguel só vê em mim uma limitação ao seu poder...
Neste país de intrigas e de traições, só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum e eu posso transformar-me nesse inimigo comum, se não tiver cuidado.
( Pausa)
Não é prudente ainda dizê-lo aos outros, mas não há dúvida de que existe um português capaz de me destronar...
( Fala agora para D. Miguel e o Principal Sousa que surgem subitamente iluminados.)
Senhores, temos de encontrar alguém que tenha prestígio no exército. Julgo que nos convém um oficial de patente elevada, com um bom passado militar. Concretamente, porém, não sei de ninguém que lhe possa indicar.

Luís Sttau Monteiro, Felimente Há Luar!


Itens fechados de Verdadeiro/ Falso ( 20 pontos)

1. Indica se cada uma das afirmações que se seguem são verdadeiras ou falsas.
( Transcreve para a tua folha de teste o número da alínea, seguido de V ou F)

1.1. Embora o Principal Sousa e Beresford sejam ambos governadores do reino, não parilham o mesmo conceito de justiça.

1.2. Beresford está perfeitamente consciente das diferentes ameaças a que está sujeito, por isso mantém-se muito cauteloso.

1.3. Beresford parece acreditar que a conquistada solidez da governação resulta mais da autoridade de um líder do que da autoridade herdada em nome de Deus.

1.4. Beresford não tem inimigos exteriores ao aparelho governativo.


Itens de resposta curta/ resposta restrita ( 75 pontos)

2. Refere a importância do excerto transcrito para o desenvolvimento da acção da peça.( 15 pontos)
3. Indica a função que a iluminação cénica desempenha no excerto transcrito.( 20 pontos)
4. Define, com base no texto, cinco traços caracterizadores do perfil psicológico de Beresford.( 15 pontos)

5. Explicita dois apspectos da crítica de carácter político presentes no texto.( 25 pontos)




Grupo II

Funcionamento da Língua
Item de resposta curta/ restrita ( 15 pontos)

Indica os actos de fala presentes nas frases que se seguem.

1.1. “Não me agrada a condenação de um inocente....”
1.2. “Digam-me: já pensaram em alguèm?”
1.3. “O problema é delicado.”

Grupo III

Item aberto de composição extensa/ ensaio ( 90 pontos)

Em Felizmente, Há Luar o passado é pretexto para falar do Presente.
Num texto organizado, explica como o dramaturgo consegue atingir este seu objectivo, referindo-te:
- à estrutura da obra,
- função da iluminação e do som,
- escassez de recursos cénicos,
- semelhanças entre o regime político retratado e o alvo criticado.

Governadores decidem-se.... ( ficha de treino)

GRUPO I
Lê atentamente o seguinte texto:

Abre os braços no gesto dramático de quem faz uma revelação importante e inesperada.
Começam a ouvir-se tambores ao longe, muito em surdina.


BERESFORD

Já que temos ocasião de crucificar alguém, que escolhamos a quem valha a pena crucificar.... Pensou em alguém, Excelência?
D. MIGUEL
( Passeando agitadamente à frente do palco)
Sou um homem de gabinete. Não tenho as qualidades necessárias para falar ao povo....
( Começa a apagar-se a luz que incide sobre Beresford e o Principal Sousa.)
Repugna-me a acção, estaria politicamente liquidado se tivesse de discutir as minhas ordens...
Não sou, e nunca serei, popular. Quem o for, é meu inimigo pessoal.
( Pausa)
No estado em que se encontra o Reino, basta o aparecimento de alguém capaz de falar ao povo para inutilizar o trabalho de toda a minha vida.... E há quem seja capaz de o fazer...
( Entram Corvo e Vicente, respectivamente pela esquerda e pela direita do palco)
VICENTE
Excelências, todos falam num só homem...
CORVO
Um só nome anda na boca de toda a gente.
( Surge Morais Sarmento, que avança do fundo do palco)
MORAIS SARMENTO
Senhores Governadores: onde quer que se conspire, só um nome vem à baila.
CORVO
O nome do general Gomes Freire d’ Andrade!
( Acende-se a luz que ilumina Beresford e o Principal Sousa)
D. MIGUEL
Senhores Governadores: aí tendes o chefe da revolta. Notai que lhe não falta nada: é lúcido, é inteligente, é idolatrado pelo povo, é um soldado brilhante, é grão-mestre da Maçonaria e é, senhores, um estrangeirado...
BERESFORD
Trata-se de um inimigo natural desta Regência.
PRINCIPAL SOUSA
Foi Deus que nos indicou o seu nome.

D. MIGUEL
( Sorrindo)
Deus e eu, senhores! Deus e eu...
CORVO
Mas, senhores, nada prova que o general seja o chefe da conjura.
Tudo o que se diz pode não passar de um boato...
D. MIGUEL
Cale-se! Onde está a sua dedicação a el-rei, capitão?

Luís Sttau Monteiro, Felimente Há Luar!



Itens fechados de Verdadeiro/ Falso ( 25 pontos)

1. Indica se cada uma das afirmações que se seguem são verdadeiras ou falsas.
( Transcreve para a tua folha de teste o número da alínea, seguido de V ou F)

1.1.Na réplica inicial de Beresford, o personagem refere-se à oportunidade de sacrificarem alguém, não importa quem seja, para que se cumpra um banal ritual de crucificação.

1.2.D. Miguel reconhece que a sua autoridade poderá estar ameaçada se houver quem influencie o povo.

1.3. Vicente, Corvo e Morais Sarmento hesitam na revelação da identidade do líder da conspiração.

1.4. Beresford considera o general Gomes Freire d’ Andrade um “inimigo natural(da) Regência” porque, tal como os governadores, também ele é ávido de poder.

1.5. Para D. Miguel a simples suspeita de conspiração é suficiente para castigar quem se oponha aos interesses do rei.


Itens de resposta curta/ resposta restrita (75 pontos)

2. Refere a importância do excerto transcrito para o desenvolvimento da acção da peça. ( 15 pontos)

3. As didascálias compreendidas entre o início do excerto e “ Senhores Governadores: aí tendes o chefe da revolta” permitem-nos sentir uma progressão da tensão dramática da cena.
Apresenta três elementos cénicos que contribuem para a aumentar. (20 pontos)

4. Apresenta, fundamentando-te no texto, três traços caracterizadores de D. Miguel. (15 pontos)

5. Explicita o regime político que é alvo de crítica, indicando as convicções em que se sustenta. (25 pontos)




Grupo II

Funcionamento da Língua
Item de resposta curta/ restrita ( 15 pontos)

1. Indica os actos de fala presentes nas frases que se seguem.

“Repugna-me a acção, estaria politicamente liquidado...”
“Trata-se de um inimigo natural desta Regência.”
“Cale-se! Onde está a sua dedicação a el-rei, capitão?


Grupo III

Item aberto de composição extensa/ ensaio ( 85 pontos)

O Título da peça assume sentidos diferentes consoante o ponto de vista das duas personagens que o proferem.
Num texto organizado com o mínimo de 20 linhas, refere-te à ambiguidade do título, indicando:
- as personagens que o proferem,
- a situação que as leva a proferi-lo,
- a simbologia do fogo e do luar na perspectiva de cada uma dessas personagens.
Escola Secundária Rainha D. Leonor
Português  12º Ano
Professor: Manuel Euclides Rosa
Ano Lectivo 2008/2009

Teste de verificação de leitura de Felizmente há luar Luís Sttau Monteiro

....................................
1. Selecciona a opção mais adequada ao completamento das afirmações:

1. O texto dramático Felizmente há Luar! tem como fontes:
a) Gomes Freire de Teófilo de Braga e Conspiração de 1817 de Raul Brandão.
b) Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett.
c) À espera de Godot de Samuel Beckett

2. Felizmente há Luar! inspira-se na estrutura e nos objectivos:
a) da epopeia clássica greco-latina.
b) do teatro experimental.
c) do teatro épico de Bertold Brecht.

3. Felizmente há Luar! divide-se em:
a) dois actos, com três cenas cada.
b) dois actos, sem indicação de cenas.
c) três actos com número variável de cenas.

4. O acto mais emotivo, com a apoteose trágica, o climax, é:
a) o primeiro.
b) o segundo.
c) o terceiro.

5. O texto inicia-se, tendo como pano de fundo:
a) A rua como espaço social.
b) O gabinete dos governadores do reino.
c) O forte de S. Julião da Barra.

6. As personagens seleccionadas pelo dramaturgo são:
a) representativas de vários grupos sociais.
b) todas aquelas que representam o poder.
c) em grande número por representarem todas as classes sociais.

7. As personagens pertencentes ao povo assumem:
a) atitudes de revolta contra a situação em que a classe vive.
b) comportamentos próximos aos de seres amestrados e amedrontados.
c) a coragem e a determinação como valores a preservar e a defender.

8. Segundo as indicações do dramaturgo, Manuel é:
a) um revoltado que grita contra qualquer forma de opressão.
b) um homem capaz de se juntar a Gomes Freire.
c) o popular mais consciente de todos.

9. Vicente, outra das personagens em destaque, revela:
a) ser um oportunista provoador que faz jogo duplo.
b) aos governadores o nome dos populares envolvidos na conjura.
c) o seu conformismo face à sua condição social.

10. A personagem Matilde de Melo demonstra:
a) as mesmas atitudes ao longo da sua intervenção.
b) a gradativa tomada de consciência da gravidade da situação.
c) acreditar, até ao fim, na salvação de Gomes Freire.

11. A primeira intervenção de Manuel aponta para:
a) a situação política que se vivia em Portugal.
b) a inconsciência da personagem face ao ambiente político.
c) a preocupação por Rita ainda estar a dormir.

12. O s om dos tambores que se faz ouvir desperta:
a) no antigo soldado aânsia de voltar à guerra.
b) em todos os populares a vontade de dançar ao seu ritmo.
c) em todos os presentes o desejo de fugir.

13. A primeira referência a Gomes Freire surge:
a) pela boca do Antigo Soldadoe sob a forma de elogio.
b) na voz de Manuel, que o exalta com entusiasmo.
c) na primeira réplica de Vicente, que denigre a imagem do General. 14. A longa intervenção de Vicente traduz:
a) o seu conformismo com a situação de miséria em que vive.
b) um perfeito conhecimento da realidade socio-política reinante.
c) o ódio que sente pelo general Gomes Freire.

2. Assinala verdadeiro V ou Falso F as afirmações que se seguem:

1. Felizmente há Luar! (1961), peça de esteia de Sttau Monteiro, tem como cenário o ambiente literário do século XIX.

2. A peça tem como ponto de partida a conspiração de 1817, encabeçada por gomes Freire De Andrade, que pretendia afastar o rei D. João VI e que se assume favorável à presença inglesa.

3. O crescendo trágico, representado pelas diversas tentativas de obter o perdão, acabará em climax com a execução de Gomes Freire e dos restantes presos.

4. O principal Sousa caracteriza-se como poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, sarcástico.

5. A afirmação de Vicente não se coaduna com o comportamento que assume ao longo da peça: «- Só acredito em duas coisas: no dinheiro e na força. O general não tem uma nem outra».

6. O marechal Beresford teme essencialmente perder os privilégios de que gozava e, realçando a gravidade do momento, procura impelir os outros à acção.

7. Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde são de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania dos governantes.

8. São elementos simbólicos a fogueira, o luar e a saia verde que Matilde veste para o último adeus ao marido.

9. Manuel assiste à execução do General e diz estar de luto por ele próprio.
10. António de Sousa Falcão é um dos governadores que representa o poder eclesiástico.
11. A peça tem indicações para representação, didascálias, e notas à margem fundamentais para um teatro de escassos recursos cénicos.

12. A sonoplastia e a luminotécnica não têm qualquer intencionalidade simbólica.

13. A execução do General e de outros conjurados intensifica a luta contra a opressão do regime absolutista e a vitória da revolução liberal.

14. A peça não tem quaisquer ingrediente da tragédia clássica.

15. Apesar da pathos, da hybris, da anagnóris, do climax, a obra não visa depertar a piedade e o herói é-o pela dimensão de mártir.

«Felizmente Há Luar!»- Estrutura, aspectos simbólicos

A. ESTRUTURA INTERNA (Acção)
Esta peça não se trata de uma obra que respeite a forma clássica nem obedeça à regra das três unidades (lugar, tempo e acção). A apresentação dos acontecimentos processa-se pela ordem natural e linear em que ocorrem, facilitando assim a sua compreensão.

ACTO I – Processo de incriminação; prisão dos incriminados:

Desenvolvimento da acção:
(Gomes Freire de Andrade encontra-se na sua casa “para os lados do Rato donde não há qualquer referência que tenha saído”.)

O primeiro núcleo de personagens do povo – de que fazem parte Manuel, Rita, Antigo Soldado e vários outros populares sem nome – vêem no general o seu herói, o único homem capaz de os libertar da opressão, da miséria e do terror em que vivem. (Manuel: “Se ele quisesse...”) O que significa que depositam nele as expectativas e esperanças no sentido de ser ele quem poderá libertá-los da tirania da regência e da exploração dos ingleses de que são alvo. Gomes Freire = herói

O segundo núcleo de personagens do povo – Vicente e os dois polícias – vão contribuir, através da denúncia, da traição e da força das armas, para a prisão de Gomes Freire de Andrade e para a sua ulterior execução. Gomes Freire = objecto de denúncia

Vicente num 1º momento: Vicente tem um papel de provocador, tentando denegrir junto do povo a imagem de Gomes Freire: “cá vou discutindo o general de manhã à tarde e à noite... Para esta cambada o Freire é Deus”, o que revela que Vicente despreza o povo (classe de que é, aliás, oriundo) ao mesmo tempo que desrespeita o general.

Vicente num 2º momento: Vicente tem um papel de denunciante ao aludir ao general como presumível chefe da conjura.

Vicente num 3º momento: Vicente é incumbido, por D. Miguel, de vigiar a casa de Freire de Andrade, o que ele cumpre de forma eficiente: “entram mais de dez pessoas na casa que fui incumbido de vigiar”

Núcleo dos Governadores  D. Miguel e Principal Sousa mostram-se preocupados com as mudanças que a Revolução Francesa tem vindo a introduzir no espírito de um número crescente de portugueses. Beresford está preocupado com a conspiração de que tanto se fala em Lisboa, mostra a necessidade de actuar sem demora e com dureza. Gomes Freire = perigo para o poder instituído

Morais Sarmento e Andrade Corvo  os oficiais, companheiros de Gomes Freire, que, por vantagens económicas aceitam denunciá-lo. Gomes Freire = objecto de denúncia
ACTO II – Processo de ilibação dos incriminados, punição dos incriminados

Desenvolvimento da acção:

A acção centra-se na deambulação de Matilde.
. suplica a Beresford que liberte o marido, apercebendo-se da conveniência política da prisão do seu marido;
. intimida o povo à acção no sentido de lutar contra a opressão e pela libertação do marido;
. exige ao povo que se solidarize com ela;
. dirige-se a D. Miguel e sente o ultraje deste, primo do marido;
. dirige-se ao Principal Sousa a quem acusa de hipócrita e prepotente;
. sente o reconforto e a compreensão de Frei Diogo que acabara de confessar o general preso em S. Julião da Barra;
. chega à serra de Santo António acompanhada de Sousa Falcão onde a fogueira queima o corpo de Gomes Freire;
. reconhece, na parte final, que a morte do General não foi gratuita e nota-se nela um sinal de esperança e de optimismo.

B. TEMPO

Tempo da acção: Aparentemente, no mesmo dia em que os populares conversam sobre Gomes Freire, Vicente é incumbido por D. Miguel de o vigiar. Também nesse mesmo dia, os Governadores recebem os oficiais delatores. Posteriormente, Vicente traz a informação de que «Ontem à noite entraram mais de dez pessoas em casa de…(Gomes Freire)». Não sabemos, contudo, o tempo que decorre entre a situação inicial e este “ontem”, ou seja, há quantos dias dura a vigilância à casa de Gomes Freire. É impossível determinar o tempo que decorre desde a denúncia até declarem Gomes Freire chefe da conjura e consequente prisão e condenação à morte.
No Acto II, Matilde desabafa: «Há quatro dias que não me deito…» e Sousa Falcão anuncia que os presos vão a caminho da execução. É-nos assim transmitida a ideia de que, entre a prisão dos conjurados e a sua execução, decorreram apenas quatro dias. O objectivo será evidenciar a arbitrariedade do Poder: quatro dias para recolher provas e proceder a um julgamento isento é um período de tempo ridículo.
Ficamos com a impressão de que tudo se passa num período curtíssimo de tempo. Esta concentração de tempo é escandalosa, evidenciando que o Poder não esperava senão um pretexto para eliminar um adversário que tinha prestígio suficiente para pôr em risco o poder instituído.

Tempo histórico: “Esta praga lhe rogo eu, Matilde de Melo, mulher de Gomes Freire de Andrade, hoje 18 de Outubro de 1817”

B. ESPAÇO

O espaço e o tempo de duração de “história” aparecem muito difusos. São as didascálicas e as falas das personagens que facultam algumas referências ao espaço.

Espaço físico

A acção decorre em Lisboa em três espaços principais:
. a sede da regência (zona da Baixa);
. a casa do general (zona do Rato);
. a serra de Santo António, lugar de onde é visível o forte de S. Julião da Barra.

Há porém referência a outros lugares:
. ao Campo de Sant’Ana;
. a uma rua de um bairro da zona ribeirinha;
. à porta da Sé onde os populares mendigam.

Espaço físico / Espaço psicológico

.além das didascálias e das falas das personagens, o autor usa a iluminação para marcar a mudança de espaço e os estados emocionais das personagens, num…
…Jogo de luz / sombra:
. mudança de espaço
. criar um ambiente de desalento, de sonho…
. código complementar do valor simbólico das palavras proferidas.

Espaço social (vestuários, adereços, etc…)


C. UNIDADE DA PEÇA

A unidade da peça é dada pela figura de Gomes Freire, pretenso chefe de uma conspiração contra o poder instituído em Portugal. Como anuncia o próprio autor no quadro de apresentação das personagens, Gomes Freire embora nunca apareça em cena, está sempre presente.
No início da peça, o General é tema de conversa entre os Populares e é posto sob vigilância por ordem de D. Miguel. No decurso do Acto I, os regentes do reino, sem o explicarem, mostram-se ansiosos por ter algum indício que lhes permita acusar Gomes Freire de chefe da conjura. O acto termina com a ordem de prisão de Gomes Freire, acusado de chefe dos conspiradores, ainda que não haja provas de que o seja.
Todo o Acto II se centra em torno da luta de Matilde, companheira do general, pela defesa da sua vida. Luta sem êxito, já que a obra acaba com a execução de Gomes Freire.

D. O TÍTULO

D. Miguel comenta «É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar…» quando a execução dos conjurados vai começar. Espera que assim, apesar da noite, todos tenham oportunidade de ver bem o que acontece a quem ousa desafiar as forças do poder. (Poder)
As últimas palavras da peça pertencem a Matilde que, depois da execução, diz para o povo: «Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que elas nos ensina! / Até a noite foi feita para que vísseis até ao fim… / Felizmente  Felizmente há luar!» (nem “quase grito”). A intenção é a de que todos vejam bem ao que estão sujeitos quando se opõem ao poder. Mas enquanto D. Miguel pretende manter, através do terror, o poder opressivo e incontestável, Matilde pretende que as consciências se agitem e, vencendo o medo, lutem pela liberdade. (Anti-Poder)


E. DIDASCÁLIAS

As didascálias (ou indicações cénicas) são texto secundário que serve de suporte ao texto dramático (fala de personagens).
As didascálias que encontramos entre parênteses dão-nos indicações sobre a expressão corporal da personagem, os seus sentimentos e emoções, o seu movimento em palco, a entrada e saída. Também indicam os destinatários dos actos de fala, o tom de voz, as mudanças de luz, o som.
As didascálias laterais acompanham as palavras das personagens e ajudam à sua caracterização, esclarecendo a forma com é falam, revelando as intenções do que está a ser dito, para que as palavras sejam bem interpretadas (sobretudo pelo leitor).


F. ELEMENTOS SIMBÓLICOS

Os tambores  É ao som dos tambores em fanfarra e crescendo de intensidade que a peça termina. Os tambores, que amedrontam os populares mal os ouvem à distância, e que tocam em fanfarra em momentos decisivos, como o anúncio da prisão e o fim da execução de Gomes Freire, representam a repressão; é o som simbólico da opressão aterrorizadora.

A moeda de cinco reis  Na primeira situação representa a esmola, o auxílio humilhante que os poderosos dão, com arrogância e desprezo, aos que nada têm. Por isso Manuel, numa atitude de revolta, a manda dar a Matilde, mas logo se arrepende, pois sabe que não é ela que merece este gesto de agressão. Por outro lado, Matilde ao pedir-lha está a assumir a sua culpa por não ter compreendido a real situação dos populares.
Quando Matilde atira a moeda aos pés do Principal Sousa esta passa a símbolo da traição da Igreja, o eco das moedas que Judas recebeu pela entrega de Cristo. Também o Principal Sousa traiu os valores cristãos pelo poder.

A sai verde  Oferecida a Matilde pelo seu amado, em Paris, para vestir quando voltassem a Portugal, nunca tinha sido usada, talvez porque o país nunca lhe tivesse dado motivos de esperança. É a saia que ela planeia usar quando Gomes Freire voltar para casa (atitude reveladora de que se recusa a perder a esperança). Acaba por ser a que veste no momento da execução do marido, simbolizando a esperança no futuro.

A fogueira e o clarão  a fogueira destruiu Gomes Freire e a conspiração, a hipótese de mudança. Mas foi uma destruição necessária para a purificação; para que todo o horror fosse exposto e reforçasse o desejo de lutar por um Portugal melhor. Este valor redentor e purificador do fogo converte o final de morte num final de esperança. O clarão é a luz da liberdade que se anuncia. O clarão que se extingue com a morte de Gomes Freire irá iluminar muitas consciências. A sua morte não será em vão, outros manterão viva e cada vez mais forte a chama da liberdade que iluminou o General.

O luar  Para D. Miguel, a luz do luar simboliza a opressão necessária para manter o país submisso. Para Matilde, simboliza o início do fim do obscurantismo em que o país está mergulhado. É a luz que permite “ver” um exemplo e um caminho a seguir.

«Felizmente Há Luar!», Luís de Sttau Monteiro- Síntese

«Felizmente Há Luar!», Luís de Sttau Monteiro

 A peça «Felizmente Há Luar!» é uma peça épica, inspirada na teoria marxista, apelando à reflexão do espectador / leitor, não só no quadro da representação, como também na sociedade em que se insere.


 De acordo com os princípios do “teatro épico”, definidos por Brecht, a peça pretende representar o mundo e o homem em constante evolução, de acordo com as relações sociais. Estas características afastam-se da concepção do teatro aristotélico, que pretendia despertar emoções, levando o espectador a identificar-se com o herói.


 O teatro moderno tem como preocupação fundamental levar os espectadores / leitores a pensar, a reflectir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se insere.


 Surge, assim, a técnica do distanciamento que propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador / leitor e a história contada, para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado.


 Luís de Sttau Monteiro pretende, através da distanciação, envolver o espectador / leitor no julgamento da sociedade, tomando contacto com o sofrimento dos outros. Deste modo, o espectador deve possuir um olhar crítico para melhor se aperceber de todas as formas de injustiças e opressões.

 Características da obra:
- personagens psicologicamente densas e vivas;
- comentários irónicos e mordazes;
- denúncia da hipocrisia da sociedade;
- defesa intransigente da justiça social.

 Teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição.

 A intemporalidade da peça remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição.

 Preocupação com o homem e o seu destino.

 Luta contra a miséria e a alienação.

 Denúncia da ausência de moral.

 Alerta para a necessidade de uma superação, com o surgimento de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.

 Contexto histórico (Tempo da história  século XIX): Invasões napoleónicas: em 1807, o exército francês, comandado pelo general Junot, entra em Portugal. Para evitar a rendição, D. João VI e toda a família real portuguesa fogem para o Brasil. Depois da 1ª invasão, Portugal pede a Inglaterra um oficial para reorganizar o exército (o GENERAL BERESFORD). A Corte (com todos os órgãos da administração central) instala-se no Brasil e, na metrópole, o Governo fica a cargo de uma Junta de Governadores, entre eles, D. MIGUEL FORJAZ (nobreza), PRINCIPAL SOUSA (clero) e BERESFORD (Inglaterra). Este Governo assume uma atitude demasiado autoritária e absolutista. Entretanto, um grupo de generais portugueses, defensores de um Regime Liberal, tendo como líder o GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, conspira para derrubar este Governo  Conjura de 1817. Beresford é informado da conspiração e todos os implicados são mortos.
 Tempo da escrita  século XX, década de 60: Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época em que escreve esta obra, isto é, em 1961, durante a ditadura de Salazar. Assim, o recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu-lhe também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo.

 Paralelismo histórico-metafórico

Tempo da História Tempo da escrita
Época Século XIX, 1817
Século XX, 1961
Regime Político Absolutismo Ditadura do Estado Novo (Salazar)
Sociedade Hierarquia social: classes privilegiadas e exploradoras (nobreza, clero e burguesia) e classe explorada (povo).
Fortes desigualdades sociais: classe exploradora (ricos) e classe explorada (pobres).
Povo Péssimas condições de vida: oprimido e resignado; a “miséria, o medo e a ignorância”.
Péssimas condições de vida: reprimido e explorado; miséria, medo e analfabetismo.
Conspiração MANUEL, símbolo da consciência popular, tenta participar na conspiração, liderada pelo GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, para derrubar o poder vigente.
Militantes antifascistas sublevam-se contra o regime ditatorial, mas são logo sufocados.
Denúncias VICENTE, ANDRADE CORVO e MORAIS SARMENTO são símbolos dos denunciantes hipócritas contra o GENERAL.
Muitíssimos foram os chamados “bufos”, denunciantes que ajudaram a manter o regime de Salazar.
Forças Policiais Dois polícias contribuem para sustentar o regime.
Censura. Constituídas, sobretudo, pela PIDE, eram, sem dúvida, o sustentáculo do regime.
Censura.

Classes dominantes São representadas por BERESFORD (a força inglesa), PRINCIPAL SOUSA (o clero) e D. MIGUEL FORJAZ (a nobreza).
Representadas pelas forças estrangeiras (Inglaterra), pelos monopólios e pela Igreja.
Processos Há processos de condenação sem provas.
Muitíssimos foram os processos de condenação sem provas.
Execuções Executa-se o GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, um general sem medo, mas…


Felizmente… Felizmente há luar! As execuções foram muitas, mas em 1965 executar-se-ia o General Humberto Delgado, o “General sem Medo”, mas…

Felizmente… Felizmente há luar!
 
Estimula futuras rebeliões e,
em 1834, o

LIBERALISMO triunfa. Estimula futuras rebeliões que culminarão, no 25 de Abril de 1974, com a

vitória da DEMOCRACIA.
 Personagens

- Povo (Manuel, Rita, Antigo Soldado, Populares)
- Governadores do Reino (D. Miguel Forjaz, Beresford, Principal Sousa)
- Delatores (Vicente, Morais Sarmento, Andrade Corvo)
- Dois polícias
- Matilde de Melo, António de Sousa Falcão, Frei Diogo
- General Gomes Freire de Andrade («que está sempre presente embora nunca apareça.»)

 GOMES FREIRE DE ANDRADE – figura carismática que preocupa os poderosos, que arrasta os pequenos, que acredita na justiça e luta pela liberdade (nunca aparece em cena, mas está sempre presente).

 D. MIGUEL FORJAZ – prepotente, assustado com transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio, desumano, calculista.

 PRINCIPAL SOUSA – fanático, corrompido pelo poder eclesiástico.

 GENERAL BERESFORD – poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico:
- general inglês, severo e disciplinador;
- mandou matar Gomes Freire de Andrade.

 VICENTE – demagogo, sarcástico, falso humanitarista, movido pelo interesse da recompensa material, adulador no momento oportuno, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado, capaz de recorrer à traição para ser promovido socialmente.

 MANUEL – “o mais consciente dos populares”, andrajosamente vestido: assume algum protagonismo por dar início aos dois actos:
- denuncia a opressão a que o povo tem estado sujeito e a incapacidade de conseguir a libertação e de sair da miséria em que se encontra

 MATILDE – a mulher de Gomes Freire, “a companheira de todas as horas”, corajosa:
- exprime romanticamente o amor; reage violentamente perante o ódio e as injustiças, afirma o valor da sinceridade,
- desmascara o interesse, a hipocrisia;
- ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre.

 SOUSA FALCÃO – “o inseparável amigo” de Gomes Freire, sofre junto de Matilde perante a condenação do general, assume as mesmas ideias de justiça e de liberdade, mas não teve a coragem do amigo.

 Estrutura da peça / Acção (Peça em dois actos):

Acto I – processo de incriminação; prisão dos incriminados.

. apresentação das situações;
. informações trazidas pelos espiões;
. reunião dos três espiões;
. revelação do nome do chefe dos conjurados...

(mudança de acto = mudança do acontecimento / situação)

Acto II – processo de ilibação dos incriminados; punição dos incriminados.

. a acção centra-se na deambulação de Matilde, cujo estatuto social (nascimento e casamento) lhe permite ter acesso às figuras do poder;
. Matilde considera-se vítima inconformada de uma injustiça;
. expansão da subjectividade de Matilde (inicialmente lírica e depois dramática);
. ritmo modulado pela fala de Matilde, que culmina na acusação ao poder instituído.

Funcionalidade da estrutura dual:

. repetição do quadro inicial (mesma personagem; mesmas interrogações; mesmas indicações de encenação dadas pelo autor);
. a mesma dicotomia Poder / Anti-Poder;
. a mesma disparidade das forças em conflito (que conduz à apoteose trágica final).