«Felizmente Há Luar!», Luís de Sttau Monteiro
A peça «Felizmente Há Luar!» é uma peça épica, inspirada na teoria marxista, apelando à reflexão do espectador / leitor, não só no quadro da representação, como também na sociedade em que se insere.
De acordo com os princípios do “teatro épico”, definidos por Brecht, a peça pretende representar o mundo e o homem em constante evolução, de acordo com as relações sociais. Estas características afastam-se da concepção do teatro aristotélico, que pretendia despertar emoções, levando o espectador a identificar-se com o herói.
O teatro moderno tem como preocupação fundamental levar os espectadores / leitores a pensar, a reflectir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se insere.
Surge, assim, a técnica do distanciamento que propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador / leitor e a história contada, para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado.
Luís de Sttau Monteiro pretende, através da distanciação, envolver o espectador / leitor no julgamento da sociedade, tomando contacto com o sofrimento dos outros. Deste modo, o espectador deve possuir um olhar crítico para melhor se aperceber de todas as formas de injustiças e opressões.
Características da obra:
- personagens psicologicamente densas e vivas;
- comentários irónicos e mordazes;
- denúncia da hipocrisia da sociedade;
- defesa intransigente da justiça social.
Teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição.
A intemporalidade da peça remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição.
Preocupação com o homem e o seu destino.
Luta contra a miséria e a alienação.
Denúncia da ausência de moral.
Alerta para a necessidade de uma superação, com o surgimento de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.
Contexto histórico (Tempo da história século XIX): Invasões napoleónicas: em 1807, o exército francês, comandado pelo general Junot, entra em Portugal. Para evitar a rendição, D. João VI e toda a família real portuguesa fogem para o Brasil. Depois da 1ª invasão, Portugal pede a Inglaterra um oficial para reorganizar o exército (o GENERAL BERESFORD). A Corte (com todos os órgãos da administração central) instala-se no Brasil e, na metrópole, o Governo fica a cargo de uma Junta de Governadores, entre eles, D. MIGUEL FORJAZ (nobreza), PRINCIPAL SOUSA (clero) e BERESFORD (Inglaterra). Este Governo assume uma atitude demasiado autoritária e absolutista. Entretanto, um grupo de generais portugueses, defensores de um Regime Liberal, tendo como líder o GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, conspira para derrubar este Governo Conjura de 1817. Beresford é informado da conspiração e todos os implicados são mortos.
Tempo da escrita século XX, década de 60: Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época em que escreve esta obra, isto é, em 1961, durante a ditadura de Salazar. Assim, o recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu-lhe também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo.
Paralelismo histórico-metafórico
Tempo da História Tempo da escrita
Época Século XIX, 1817
Século XX, 1961
Regime Político Absolutismo Ditadura do Estado Novo (Salazar)
Sociedade Hierarquia social: classes privilegiadas e exploradoras (nobreza, clero e burguesia) e classe explorada (povo).
Fortes desigualdades sociais: classe exploradora (ricos) e classe explorada (pobres).
Povo Péssimas condições de vida: oprimido e resignado; a “miséria, o medo e a ignorância”.
Péssimas condições de vida: reprimido e explorado; miséria, medo e analfabetismo.
Conspiração MANUEL, símbolo da consciência popular, tenta participar na conspiração, liderada pelo GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, para derrubar o poder vigente.
Militantes antifascistas sublevam-se contra o regime ditatorial, mas são logo sufocados.
Denúncias VICENTE, ANDRADE CORVO e MORAIS SARMENTO são símbolos dos denunciantes hipócritas contra o GENERAL.
Muitíssimos foram os chamados “bufos”, denunciantes que ajudaram a manter o regime de Salazar.
Forças Policiais Dois polícias contribuem para sustentar o regime.
Censura. Constituídas, sobretudo, pela PIDE, eram, sem dúvida, o sustentáculo do regime.
Censura.
Classes dominantes São representadas por BERESFORD (a força inglesa), PRINCIPAL SOUSA (o clero) e D. MIGUEL FORJAZ (a nobreza).
Representadas pelas forças estrangeiras (Inglaterra), pelos monopólios e pela Igreja.
Processos Há processos de condenação sem provas.
Muitíssimos foram os processos de condenação sem provas.
Execuções Executa-se o GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE, um general sem medo, mas…
Felizmente… Felizmente há luar! As execuções foram muitas, mas em 1965 executar-se-ia o General Humberto Delgado, o “General sem Medo”, mas…
Felizmente… Felizmente há luar!
Estimula futuras rebeliões e,
em 1834, o
LIBERALISMO triunfa. Estimula futuras rebeliões que culminarão, no 25 de Abril de 1974, com a
vitória da DEMOCRACIA.
Personagens
- Povo (Manuel, Rita, Antigo Soldado, Populares)
- Governadores do Reino (D. Miguel Forjaz, Beresford, Principal Sousa)
- Delatores (Vicente, Morais Sarmento, Andrade Corvo)
- Dois polícias
- Matilde de Melo, António de Sousa Falcão, Frei Diogo
- General Gomes Freire de Andrade («que está sempre presente embora nunca apareça.»)
GOMES FREIRE DE ANDRADE – figura carismática que preocupa os poderosos, que arrasta os pequenos, que acredita na justiça e luta pela liberdade (nunca aparece em cena, mas está sempre presente).
D. MIGUEL FORJAZ – prepotente, assustado com transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio, desumano, calculista.
PRINCIPAL SOUSA – fanático, corrompido pelo poder eclesiástico.
GENERAL BERESFORD – poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico:
- general inglês, severo e disciplinador;
- mandou matar Gomes Freire de Andrade.
VICENTE – demagogo, sarcástico, falso humanitarista, movido pelo interesse da recompensa material, adulador no momento oportuno, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado, capaz de recorrer à traição para ser promovido socialmente.
MANUEL – “o mais consciente dos populares”, andrajosamente vestido: assume algum protagonismo por dar início aos dois actos:
- denuncia a opressão a que o povo tem estado sujeito e a incapacidade de conseguir a libertação e de sair da miséria em que se encontra
MATILDE – a mulher de Gomes Freire, “a companheira de todas as horas”, corajosa:
- exprime romanticamente o amor; reage violentamente perante o ódio e as injustiças, afirma o valor da sinceridade,
- desmascara o interesse, a hipocrisia;
- ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre.
SOUSA FALCÃO – “o inseparável amigo” de Gomes Freire, sofre junto de Matilde perante a condenação do general, assume as mesmas ideias de justiça e de liberdade, mas não teve a coragem do amigo.
Estrutura da peça / Acção (Peça em dois actos):
Acto I – processo de incriminação; prisão dos incriminados.
. apresentação das situações;
. informações trazidas pelos espiões;
. reunião dos três espiões;
. revelação do nome do chefe dos conjurados...
(mudança de acto = mudança do acontecimento / situação)
Acto II – processo de ilibação dos incriminados; punição dos incriminados.
. a acção centra-se na deambulação de Matilde, cujo estatuto social (nascimento e casamento) lhe permite ter acesso às figuras do poder;
. Matilde considera-se vítima inconformada de uma injustiça;
. expansão da subjectividade de Matilde (inicialmente lírica e depois dramática);
. ritmo modulado pela fala de Matilde, que culmina na acusação ao poder instituído.
Funcionalidade da estrutura dual:
. repetição do quadro inicial (mesma personagem; mesmas interrogações; mesmas indicações de encenação dadas pelo autor);
. a mesma dicotomia Poder / Anti-Poder;
. a mesma disparidade das forças em conflito (que conduz à apoteose trágica final).
domingo, 19 de abril de 2009
Felizmente há luar Luís de Sttau Monteiro- geral
I. INFLUÊNCIAS
Teatro Épico – B. Brecht (influências marxista) - «O teatro não pode impor emoções aos espectadores (como o “drama aristotélico”), deve fazer com que eles pensem.»
- Narrativo:
. O espectador não é apenas uma testemunha da acção, há que despertar-lhe a actividae e exigir-lhe decisões.
- Mundividências:
. O espectador é posto peralte qualquer tipo de situação.
- Argumento:
. As sensações são elevadas ao nível do conhecimento;
. O espectador está defronte, analisa;
. O homem é objecto de uma análise;
. O homem é susceptível de ser modificado e de modoficar;
. Tensão crescente, ao longo da acção;
. O homem como realidade em processo;
. O ser social determina o pensamento.
II. ESTRUTURA / ACÇÃO
1. Peça em dois actos:
Acto I – processo de incriminação; prisão dos incriminados.
. apresentação das situações;
. informações trazidas pelos espiões;
. reunião dos três espiões;
. revelação do nome do chefe dos conjurados...
... o General Gomes Freire de Andrade (personagem ausente, mas sempre presente)...
... um herói para Manuel, Rita; Antigo Soldado e populares;
... objecto de denúncia para Vicente, Morais Sarmento e Andrade Corvo;
... incómodo para os Governadores do Reino (D. Miguel, Beresford e Pricipal Sousa).
(mudança de acto = mudança do acontecimento / situação)
Acto II – processo de ilibação dos incriminados; punição dos incriminados.
. a acção centra-se na deambulação de Matilde, cujo estatuto social (nascimento e casamento) lhe permite ter acesso às figuras do poder;
. Matilde considera-se vítima inconformada de uma injustiça;
. expansão da subjectividade de Matilde (inicialmente lírica e depois dramática);
. ritmo modulado pela fala de Matilde, que culmina na acusação ao poder instituído.
2. Funcionalidade da estrutura dual:
. repetição do quadro inicial (mesma personagem; mesmas interrogações; mesmas indicações de encenação dadas pelo autor);
. a mesma dicotomia Poder / Anti-Poder;
. a mesma disparidade das forças em conflito (que conduz à apoteose trágica final).
III. PERSONAGENS
O Povo (Manuel, Rita, Antigo Soldado, populares)
Os delactores (Vicente, Morais Sarmento, Andrade Corvo)
Dois polícias
Os Governadores do Reino (D. Miguel Forjaz, Beresford, Principal Sousa)
Matide de Melo / António de Sousa Falcão
Frei Diogo
Tom e sentido da fala das personagens
Manuel – desencanto, compaixão e perplexidade (linguagem com desviod lexicais e com aforismos).
Vicente – inteligência perversa, ódio e desprezo (subtileza dos raciocínios).
D. Miguel – calculista cínico e maquiavélico.
Beresford – pragmatismo tranquilo, sereno e assumido (recurso a uma linguagem técnico-militar).
Principal Sousa – distante, paternalismo falso e beato (recurso a uma terminologia de sentido teológico).
Frei Diogo – inocência, sensibilidade e compreensão da dor.
Sousa Falcão – desiludido e com sentimento de culpa.
Corvo e Sarmento – cobardia, traição, subserviência, venalidade e vilania.
Matilde – amor, paixão, desencanto, confissão, desespero, veemência e acusação (recurso a uma argumentação inteligente, a uma filosofia sagaz e a um tom ingénuo a falar da sua vida privada).
IV. TEMPO
. Paralelismo histórico-metafórico:
- Tempo da acção (séc.XIX – 1817) – Regime Absolutista
- Tempo da escrita (séc.XX – 1920) – Regime Salazarista (fascismo)
. O avanço da acção (passagem do tempo) é dado através da fala das personagens.
V. ESPAÇO
1. Espaço Físico / Espaço Psicológico – não há indicações cénicas com referências a diferentes espaços; a mudança de espaço é marcada por:
. técnica da iluminação;
. didascálias;
. falas das personagens;
. jogo de luz / sombra (para mudança de espaço; para criar ambientes de desalento, de sonho; um código complementar do valor simbólico das palavras proferidas).
2. Espaço Social – vestuário; adereços...
VI. SIMBOLISMO
. saia verde de Matilde (felicidade e esperança)
. o título: «Felizmente há luar!», dito por D. Miguel (efeito dissuasor das execuções); dito po Matilde (esperança).
. Luz (vida) Noite (morte)
. Lua – luar (transformação, renovação,crescimento)
. Fogueira – “clarão” (esperança)
VII. NOVA CONCEPÇÃO DE TEATRO
. Uma “apoteose trágica” – glorificação de um momento exemplar da luta pela liberdade.
VIII. INTENCIONALIDADE DA PEÇA
. Recorrendo à caracterização e linguagem das personagens, às notas à margem do texto e aos elementos de luz e de som, o autor prentende fazer com que o leitor/espectador, pela análise crítica da sociedade do século XIX, reflicta sobre a situação política e social do século XX (1961):
- denúncia de situações escandalosamente injustas e repressoras.
. «Felizmente – felizmente há luar!» (última fala de Matilde, antes de cair o pano):
- 1817 – a esperança de se alterar um regime Absolutista, injusto e violento (1834 – triunfo do Liberalismo)
- 1962 – esperança de se alterar um regime Fascista, injusto e violento (25 de Abril de 1974 – triunfo da Democracia).
Teatro Épico – B. Brecht (influências marxista) - «O teatro não pode impor emoções aos espectadores (como o “drama aristotélico”), deve fazer com que eles pensem.»
- Narrativo:
. O espectador não é apenas uma testemunha da acção, há que despertar-lhe a actividae e exigir-lhe decisões.
- Mundividências:
. O espectador é posto peralte qualquer tipo de situação.
- Argumento:
. As sensações são elevadas ao nível do conhecimento;
. O espectador está defronte, analisa;
. O homem é objecto de uma análise;
. O homem é susceptível de ser modificado e de modoficar;
. Tensão crescente, ao longo da acção;
. O homem como realidade em processo;
. O ser social determina o pensamento.
II. ESTRUTURA / ACÇÃO
1. Peça em dois actos:
Acto I – processo de incriminação; prisão dos incriminados.
. apresentação das situações;
. informações trazidas pelos espiões;
. reunião dos três espiões;
. revelação do nome do chefe dos conjurados...
... o General Gomes Freire de Andrade (personagem ausente, mas sempre presente)...
... um herói para Manuel, Rita; Antigo Soldado e populares;
... objecto de denúncia para Vicente, Morais Sarmento e Andrade Corvo;
... incómodo para os Governadores do Reino (D. Miguel, Beresford e Pricipal Sousa).
(mudança de acto = mudança do acontecimento / situação)
Acto II – processo de ilibação dos incriminados; punição dos incriminados.
. a acção centra-se na deambulação de Matilde, cujo estatuto social (nascimento e casamento) lhe permite ter acesso às figuras do poder;
. Matilde considera-se vítima inconformada de uma injustiça;
. expansão da subjectividade de Matilde (inicialmente lírica e depois dramática);
. ritmo modulado pela fala de Matilde, que culmina na acusação ao poder instituído.
2. Funcionalidade da estrutura dual:
. repetição do quadro inicial (mesma personagem; mesmas interrogações; mesmas indicações de encenação dadas pelo autor);
. a mesma dicotomia Poder / Anti-Poder;
. a mesma disparidade das forças em conflito (que conduz à apoteose trágica final).
III. PERSONAGENS
O Povo (Manuel, Rita, Antigo Soldado, populares)
Os delactores (Vicente, Morais Sarmento, Andrade Corvo)
Dois polícias
Os Governadores do Reino (D. Miguel Forjaz, Beresford, Principal Sousa)
Matide de Melo / António de Sousa Falcão
Frei Diogo
Tom e sentido da fala das personagens
Manuel – desencanto, compaixão e perplexidade (linguagem com desviod lexicais e com aforismos).
Vicente – inteligência perversa, ódio e desprezo (subtileza dos raciocínios).
D. Miguel – calculista cínico e maquiavélico.
Beresford – pragmatismo tranquilo, sereno e assumido (recurso a uma linguagem técnico-militar).
Principal Sousa – distante, paternalismo falso e beato (recurso a uma terminologia de sentido teológico).
Frei Diogo – inocência, sensibilidade e compreensão da dor.
Sousa Falcão – desiludido e com sentimento de culpa.
Corvo e Sarmento – cobardia, traição, subserviência, venalidade e vilania.
Matilde – amor, paixão, desencanto, confissão, desespero, veemência e acusação (recurso a uma argumentação inteligente, a uma filosofia sagaz e a um tom ingénuo a falar da sua vida privada).
IV. TEMPO
. Paralelismo histórico-metafórico:
- Tempo da acção (séc.XIX – 1817) – Regime Absolutista
- Tempo da escrita (séc.XX – 1920) – Regime Salazarista (fascismo)
. O avanço da acção (passagem do tempo) é dado através da fala das personagens.
V. ESPAÇO
1. Espaço Físico / Espaço Psicológico – não há indicações cénicas com referências a diferentes espaços; a mudança de espaço é marcada por:
. técnica da iluminação;
. didascálias;
. falas das personagens;
. jogo de luz / sombra (para mudança de espaço; para criar ambientes de desalento, de sonho; um código complementar do valor simbólico das palavras proferidas).
2. Espaço Social – vestuário; adereços...
VI. SIMBOLISMO
. saia verde de Matilde (felicidade e esperança)
. o título: «Felizmente há luar!», dito por D. Miguel (efeito dissuasor das execuções); dito po Matilde (esperança).
. Luz (vida) Noite (morte)
. Lua – luar (transformação, renovação,crescimento)
. Fogueira – “clarão” (esperança)
VII. NOVA CONCEPÇÃO DE TEATRO
. Uma “apoteose trágica” – glorificação de um momento exemplar da luta pela liberdade.
VIII. INTENCIONALIDADE DA PEÇA
. Recorrendo à caracterização e linguagem das personagens, às notas à margem do texto e aos elementos de luz e de som, o autor prentende fazer com que o leitor/espectador, pela análise crítica da sociedade do século XIX, reflicta sobre a situação política e social do século XX (1961):
- denúncia de situações escandalosamente injustas e repressoras.
. «Felizmente – felizmente há luar!» (última fala de Matilde, antes de cair o pano):
- 1817 – a esperança de se alterar um regime Absolutista, injusto e violento (1834 – triunfo do Liberalismo)
- 1962 – esperança de se alterar um regime Fascista, injusto e violento (25 de Abril de 1974 – triunfo da Democracia).
Felizmente há luar! – Luís de Sttau Monteiro- teatro épico
Felizmente há luar! – Luís de Sttau Monteiro
Influências do teatro épico (de Brecht) : o teatro não pode impor emoções ao espectador ( “drama” aristotélico), deve fazer com que ele pense.
é narrativo o espectador é uma testemunha que tem de agir:
o texto desperta-lhe a actividade e exige-lhe decisões.
possui mundividência o espectador é posto perante qualquer coisa.
estruturação do argumento:
as sensações são elevadas ao nível do conhecimento
o espectador está defronte, analisa
o homem é objecto de uma análise
o homem é susceptível de ser modificado e de modificar
o decurso da acção provoca tensão
o homem como uma realidade em processo
o ser social determina o pensamento
O espectador diz…
… no TEATRO DRAMÁTICO … no TEATRO ÉPICO
Sim, eu já senti isso.
Eu sou assim.
O sofrimento deste homem comove-me, pois é irremediável.
É uma coisa natural.
Será sempre assim.
Isto é que é arte! Tudo ali é evidente.
Choro com os que choram e rio com os que riem. Isto é que eu nunca pensaria.
Não é assim que se deve fazer.
O sofrimento deste homem comove-me porque seria remediável.
Que coisa extraordinária, quase inacreditável!
Isto tem que acabar.
Isto é que é arte! Nada ali é evidente.
Rio de quem chora e choro com os que riem.
Intenção do autor:
(na caracterização das personagens; nas notas à margem do texto; nos elementos da luz e do som; pela linguagem)
Fazer com que o leitor/espectador, pela análise crítica da sociedade do início do século XIX (1817), reflicta sobre a situação política e social do século XX (1961).
Denunciar situações escandalosamente injustas e repressoras.
Influências do teatro épico (de Brecht) : o teatro não pode impor emoções ao espectador ( “drama” aristotélico), deve fazer com que ele pense.
é narrativo o espectador é uma testemunha que tem de agir:
o texto desperta-lhe a actividade e exige-lhe decisões.
possui mundividência o espectador é posto perante qualquer coisa.
estruturação do argumento:
as sensações são elevadas ao nível do conhecimento
o espectador está defronte, analisa
o homem é objecto de uma análise
o homem é susceptível de ser modificado e de modificar
o decurso da acção provoca tensão
o homem como uma realidade em processo
o ser social determina o pensamento
O espectador diz…
… no TEATRO DRAMÁTICO … no TEATRO ÉPICO
Sim, eu já senti isso.
Eu sou assim.
O sofrimento deste homem comove-me, pois é irremediável.
É uma coisa natural.
Será sempre assim.
Isto é que é arte! Tudo ali é evidente.
Choro com os que choram e rio com os que riem. Isto é que eu nunca pensaria.
Não é assim que se deve fazer.
O sofrimento deste homem comove-me porque seria remediável.
Que coisa extraordinária, quase inacreditável!
Isto tem que acabar.
Isto é que é arte! Nada ali é evidente.
Rio de quem chora e choro com os que riem.
Intenção do autor:
(na caracterização das personagens; nas notas à margem do texto; nos elementos da luz e do som; pela linguagem)
Fazer com que o leitor/espectador, pela análise crítica da sociedade do início do século XIX (1817), reflicta sobre a situação política e social do século XX (1961).
Denunciar situações escandalosamente injustas e repressoras.
Ricardo Reis- Uns com os olhos postos no passado
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto1
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
1 Hausto = sorvo, aspiração (neste contexto, metáfora de valor temporal)
Linhas de leitura
1. Explicite as diferentes perspectivas de encarar a vida, confrontadas na ode.
2. Refira o tempo que o sujeito poético valoriza, justificando a sua resposta com referências textuais.
3. Indique os dois pressupostos apontados que justificam a filosofia de vida aconselhada.
4. Identifique e explique a expressividade do recurso estilístico presente no final do poema: «Colhe / O dia, porque és ele.»
5. Atente na afirmação:
Cada escravo transporta consigo a chave para a sua liberdade e felicidade.
Num texto com um mínimo de 80 e um máximo de 120 palavras,fazendo apelo à sua experiência de leitura, explique em que medida a frase acima transcrita se aplica à filosofia de vida defendida por Ricardo Reis.
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto1
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
1 Hausto = sorvo, aspiração (neste contexto, metáfora de valor temporal)
Linhas de leitura
1. Explicite as diferentes perspectivas de encarar a vida, confrontadas na ode.
2. Refira o tempo que o sujeito poético valoriza, justificando a sua resposta com referências textuais.
3. Indique os dois pressupostos apontados que justificam a filosofia de vida aconselhada.
4. Identifique e explique a expressividade do recurso estilístico presente no final do poema: «Colhe / O dia, porque és ele.»
5. Atente na afirmação:
Cada escravo transporta consigo a chave para a sua liberdade e felicidade.
Num texto com um mínimo de 80 e um máximo de 120 palavras,fazendo apelo à sua experiência de leitura, explique em que medida a frase acima transcrita se aplica à filosofia de vida defendida por Ricardo Reis.
Dois Poemas de Ricardo Reis
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas…
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif’rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre. Meus irmãos, em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese.
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
Que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, ávida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece…
O jogo de xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo de xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
*************************
Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá. Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra Que serás quando fores
Na noite a ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mas as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.
À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.
Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas…
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.
Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif’rentes.
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre. Meus irmãos, em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.
Tudo que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese.
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
Que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, ávida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece…
O jogo de xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois é nada.
Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo de xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.
*************************
Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá. Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra Que serás quando fores
Na noite a ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mas as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
Ricardo Reis
Ricardo Reis
Um epicurista triste.
Filosofia de vida:
A sabedoria de…
Filosofia de vida que segue e … deixar passar a vida…
… serenamente, … … sem a viver.
Carpe diem (de Horácio)
Epicurismo
Estoicismo
Viver o momento presente, o dia de hoje, pois o passado não volta e o futuro é a morte
Ausência de perturbação: evitando a dor ao dominar (pela razão) os instintos, atingindo a ataraxia (indiferença total, alheamento)
Aceitação do Destino (Morte), sem protestar: desistir da luta e viver a ilusão da felicidade
«e que o seu perfume suavize o momento» «Mais vale saber passar silenciosamente / E sem desassossegos grandes.»
«Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio1.» «Abdica e sê rei de ti próprio»
aconselha:
a única filosofia de vida que anula a angústia perante a inevitabilidade da morte
1 Rio Símbolo da Vida: a passagem irreversível do tempo (da nascente à foz).
ESTOICISMO
Estoicismo é a filosofia fundada por Zenão, na primeira parte do séc. III a.C., Atenas
Crença na conclusão de um ciclo (através do fogo), que seria substituído por outro (a repetição cíclica era indefinida).
Deus é a alma do mundo e cada um de nós contém parte do fogo divino.
A vida individual deve estar de acordo com as leis da Natureza (a virtude significa viver de acordo com as leis cósmicas).
Devemos desprezar as paixões, porque conduzem ao sofrimento.
EPICURISMO
O epicurismo foi fundado por Epicuro (n. 341-270 a.C., Ática).
Filosofia que se destinava a dar tranquilidade às pessoas.
Defesa do prazer como um bem, mas de um prazer moderado; virtude significa prudência na busca do prazer.
Devem procurar-se os prazeres tranquilos e não as alegrias violentas.
Abolição de riqueza e da honra, porque roubam o descanso a quem poderia estar feliz.
Recusa do amor, porque implica sofrimento - a amizade é o melhor prazer social.
Crença de que os deuses não interferem nas coisas humanas e de que a alma morre com o corpo.
Um epicurista triste.
Filosofia de vida:
A sabedoria de…
Filosofia de vida que segue e … deixar passar a vida…
… serenamente, … … sem a viver.
Carpe diem (de Horácio)
Epicurismo
Estoicismo
Viver o momento presente, o dia de hoje, pois o passado não volta e o futuro é a morte
Ausência de perturbação: evitando a dor ao dominar (pela razão) os instintos, atingindo a ataraxia (indiferença total, alheamento)
Aceitação do Destino (Morte), sem protestar: desistir da luta e viver a ilusão da felicidade
«e que o seu perfume suavize o momento» «Mais vale saber passar silenciosamente / E sem desassossegos grandes.»
«Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio1.» «Abdica e sê rei de ti próprio»
aconselha:
a única filosofia de vida que anula a angústia perante a inevitabilidade da morte
1 Rio Símbolo da Vida: a passagem irreversível do tempo (da nascente à foz).
ESTOICISMO
Estoicismo é a filosofia fundada por Zenão, na primeira parte do séc. III a.C., Atenas
Crença na conclusão de um ciclo (através do fogo), que seria substituído por outro (a repetição cíclica era indefinida).
Deus é a alma do mundo e cada um de nós contém parte do fogo divino.
A vida individual deve estar de acordo com as leis da Natureza (a virtude significa viver de acordo com as leis cósmicas).
Devemos desprezar as paixões, porque conduzem ao sofrimento.
EPICURISMO
O epicurismo foi fundado por Epicuro (n. 341-270 a.C., Ática).
Filosofia que se destinava a dar tranquilidade às pessoas.
Defesa do prazer como um bem, mas de um prazer moderado; virtude significa prudência na busca do prazer.
Devem procurar-se os prazeres tranquilos e não as alegrias violentas.
Abolição de riqueza e da honra, porque roubam o descanso a quem poderia estar feliz.
Recusa do amor, porque implica sofrimento - a amizade é o melhor prazer social.
Crença de que os deuses não interferem nas coisas humanas e de que a alma morre com o corpo.
Álvaro Campos- Fase Futurista- Senascionista
Álvaro de Campos- Futurista
Contextualização da Fase Futurista no percurso poético do heterónimo:
Segundo Jacinto Prado Coelho, e é de consenso quase geral, a poesia d Campos deenvolve-se em três fases:
- a do Opiário (ilustrado com um poema sob esse título, datado ficticiamente de Março de 1914;
- a do Futurismo Whitmaniano ( documentado na Ode Triunfal (Abril de 1914), Dois excertos de Odes (30 de Junho de 1914), Ode Marítima( Publicada no nº 2 de Orpheu em 1915), Saudação a Walt Whitman ( 11 de Junho de 1915), Passagem das Horas (22 de Maio de 1916);
- a fase pessoal, também conhecida por intimista, onde se verifica o retorno a Pessoa Ortónimo, pelo refúgio na infância, como forma de resolver o tédio, e a abulia.
A segunda fase do Futurismo Whitmaniano:
Campos recebe influências do Futurismo de Marinetti e do Sensacionismo De Walt Whitman.
Manifesto Futurista de Marinetti (11 de Março de 1912):
• Deve destruir-se o eu na literatura, isto é, deve abolir-se toda a psicologia (...) substituindo-a pela matéria (...) com os seus impulsos directivos, a sua força de compressão, de dilatação, de coesão e de desagregação, a sua composição molecular ou as suas turbinas de electrões (...) O calor de um pedaço de ferro ou de madeira, é muito mais apaixonante, para nós, que o sorriso ou as lágrimas de uma mulher. Queremos na literatura a vida do motor, novo animal instintivo do qual conheceremos o instinto geral, depois de conhecermos os instintos das diversas forças que o compõem (...) É necessário sentir o peso e o odor dos objectos, coisa que nunca se fez na literatura, ouvindo os motores e reproduzindo os seus especialíssimos discursos inumanos.
• (...) Há necessidade de orquestrar as imagens, dispondo-as segundo um máximo de desordem;
• (...) Deve haver uma gradação de analogia cada vez mais vasta, estabelecendo relações tanto mais profundas e sólidas, quanto mais distantes. A analogia nada mais é do que o amor profundo que liga as coisas distantes, aparentemente diversas e hostis. Quando, na minha Battaglia di Tripoli, comparei uma trincheira hirta de baionetas a uma orquestra, uma metralhadora a uma mulher fatal, introduzi, intuitivamente, uma grande parte do Universo num breve episódio de batalha africana. As imagens não são flores para semear e colher com parcimónia, como dizia Voltaire. Elas constituem o próprio sangue da poesia. A poesia deve ser sequência ininterrupta de imagens novas, sem o que será pura anemia (...) É necessário, portanto, abolir na língua o que ela contenha de imagens estereotipadas, de metáforas desbotadas; isto é, quase tudo.
• Necessidade de libertação da sintaxe, dispondo os substantivos ao acaso, de forma espontânea;
• Deve usar-se o verbo no infinitivo, para que se adapte elasticamente ao substantivo e não se sobreponha ao eu do escritor que observa ou imagina (...);
• Deve abolir-se o adjectivo, para que o substantivo nu conserve o seu valor essencial (...);
• Deve abolir-se o advérbio (...) para evitar que ele dê à frase uma fastidiosa unidade de tom;
• Todo o substantivo deve ter o seu duplo, isto é, o substantivo deve ser seguido, sem conjunção, do substantivo a que está ligado por analogia (...);
O Futurismo em Portugal foi um escândalo sociológico. Os jovens futuristas ( Pessoa, Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, entre outros, foram apelidados de “ malucos”, “loucos” mas era isso que eles próprios queriam, “ dar uma bofetada no gosto do público(famoso poema de maiakovski), rompendo definitivamente com hábitos culturais esclerosados e retrógrados.
“ Um automóvel é mais belo que a Vitória de Samotrácia
Elogio da civilização industrial e da técnica
Ruptura com o subjectivismo da lírica tradicional
Atitude escandalosa: transgressão da moral estabelecida
Sensacionismo Whitmaniano:
• A única realidade na vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.
• Não há Filosofia, Ética ou Estética, mesmo na arte, onde existem apenas sensações.
• Pujança da sensação intelectual, emocional e física
Vivência em excesso das sensações (“Sentir tudo de todas as maneiras” – afastamento de Caeiro)
Sadismo e masoquismo
Cantor lúcido do mundo moderno
Do sensacionismo (de Walt Whitman), Campos adoptou, para além do verso livre, um estilo esfuziante, torrencial, espraiado em longos versos de duas ou três linhas, anafórico, exclamativo, interjectivo, monótono pela simplicidade dos processos, pela reiteração de apóstrofes e enumerações, mas vivificado pela fantasia verbal duradoura e inesgotável.
ODE TRIUNFAL(excerto)
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com o que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Ode marítima(excerto)
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
(...)
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
(...)
Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa.
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...
(...)
E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas,
Galdropes, escotilhas, caldeiras, colectores, válvulas;
Caí, por mim dentro em montão, em monte,
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão!
Sede vós o tesouro da minha avareza febril,
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação,
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética,
Fornecei-me metáforas imagens, literatura,
Porque em real verdade, a sério, literalmente,
Minhas sensações são um barco de quilha prò ar,
Minha imaginação uma âncora meio submersa,
Minha ânsia um remo partido,
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!
Saudação a Walt Whitman
Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro, Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica.
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Passagem das Horas
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.
(...)
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...
Dois Excertos de Odes
(...)
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
(...)
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
...................................................................................
Síntese
celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna
- apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina
- exalta o progresso técnico, a velocidade e a força
- procura da chave do ser e da inteligência do mundo torna-se desesperante
- canta a civilização industrial
- recusa as verdades definitivas
- estilisticamente: introduz na linguagem poética a terminologia do mundo mecânico citadino e cosmopolita
- intelectualização das sensações
- a sensação é tudo
- procura a totalização das sensações: sente a complexidade e a dinâmica da vida moderna e, por isso, procura sentir a violência e a força de todas as sensações – “sentir tudo de todas as maneiras”
- cativo dos sentidos, procura dar largas às possibilidades sensoriais ou tenta reprimir, por temor, a manifestação de um lado feminino
- tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir
- exprime a energia ou a força que se manifesta na vida
Contextualização da Fase Futurista no percurso poético do heterónimo:
Segundo Jacinto Prado Coelho, e é de consenso quase geral, a poesia d Campos deenvolve-se em três fases:
- a do Opiário (ilustrado com um poema sob esse título, datado ficticiamente de Março de 1914;
- a do Futurismo Whitmaniano ( documentado na Ode Triunfal (Abril de 1914), Dois excertos de Odes (30 de Junho de 1914), Ode Marítima( Publicada no nº 2 de Orpheu em 1915), Saudação a Walt Whitman ( 11 de Junho de 1915), Passagem das Horas (22 de Maio de 1916);
- a fase pessoal, também conhecida por intimista, onde se verifica o retorno a Pessoa Ortónimo, pelo refúgio na infância, como forma de resolver o tédio, e a abulia.
A segunda fase do Futurismo Whitmaniano:
Campos recebe influências do Futurismo de Marinetti e do Sensacionismo De Walt Whitman.
Manifesto Futurista de Marinetti (11 de Março de 1912):
• Deve destruir-se o eu na literatura, isto é, deve abolir-se toda a psicologia (...) substituindo-a pela matéria (...) com os seus impulsos directivos, a sua força de compressão, de dilatação, de coesão e de desagregação, a sua composição molecular ou as suas turbinas de electrões (...) O calor de um pedaço de ferro ou de madeira, é muito mais apaixonante, para nós, que o sorriso ou as lágrimas de uma mulher. Queremos na literatura a vida do motor, novo animal instintivo do qual conheceremos o instinto geral, depois de conhecermos os instintos das diversas forças que o compõem (...) É necessário sentir o peso e o odor dos objectos, coisa que nunca se fez na literatura, ouvindo os motores e reproduzindo os seus especialíssimos discursos inumanos.
• (...) Há necessidade de orquestrar as imagens, dispondo-as segundo um máximo de desordem;
• (...) Deve haver uma gradação de analogia cada vez mais vasta, estabelecendo relações tanto mais profundas e sólidas, quanto mais distantes. A analogia nada mais é do que o amor profundo que liga as coisas distantes, aparentemente diversas e hostis. Quando, na minha Battaglia di Tripoli, comparei uma trincheira hirta de baionetas a uma orquestra, uma metralhadora a uma mulher fatal, introduzi, intuitivamente, uma grande parte do Universo num breve episódio de batalha africana. As imagens não são flores para semear e colher com parcimónia, como dizia Voltaire. Elas constituem o próprio sangue da poesia. A poesia deve ser sequência ininterrupta de imagens novas, sem o que será pura anemia (...) É necessário, portanto, abolir na língua o que ela contenha de imagens estereotipadas, de metáforas desbotadas; isto é, quase tudo.
• Necessidade de libertação da sintaxe, dispondo os substantivos ao acaso, de forma espontânea;
• Deve usar-se o verbo no infinitivo, para que se adapte elasticamente ao substantivo e não se sobreponha ao eu do escritor que observa ou imagina (...);
• Deve abolir-se o adjectivo, para que o substantivo nu conserve o seu valor essencial (...);
• Deve abolir-se o advérbio (...) para evitar que ele dê à frase uma fastidiosa unidade de tom;
• Todo o substantivo deve ter o seu duplo, isto é, o substantivo deve ser seguido, sem conjunção, do substantivo a que está ligado por analogia (...);
O Futurismo em Portugal foi um escândalo sociológico. Os jovens futuristas ( Pessoa, Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, entre outros, foram apelidados de “ malucos”, “loucos” mas era isso que eles próprios queriam, “ dar uma bofetada no gosto do público(famoso poema de maiakovski), rompendo definitivamente com hábitos culturais esclerosados e retrógrados.
“ Um automóvel é mais belo que a Vitória de Samotrácia
Elogio da civilização industrial e da técnica
Ruptura com o subjectivismo da lírica tradicional
Atitude escandalosa: transgressão da moral estabelecida
Sensacionismo Whitmaniano:
• A única realidade na vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.
• Não há Filosofia, Ética ou Estética, mesmo na arte, onde existem apenas sensações.
• Pujança da sensação intelectual, emocional e física
Vivência em excesso das sensações (“Sentir tudo de todas as maneiras” – afastamento de Caeiro)
Sadismo e masoquismo
Cantor lúcido do mundo moderno
Do sensacionismo (de Walt Whitman), Campos adoptou, para além do verso livre, um estilo esfuziante, torrencial, espraiado em longos versos de duas ou três linhas, anafórico, exclamativo, interjectivo, monótono pela simplicidade dos processos, pela reiteração de apóstrofes e enumerações, mas vivificado pela fantasia verbal duradoura e inesgotável.
ODE TRIUNFAL(excerto)
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com o que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Ode marítima(excerto)
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
(...)
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
(...)
Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa.
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...
(...)
E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas,
Galdropes, escotilhas, caldeiras, colectores, válvulas;
Caí, por mim dentro em montão, em monte,
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão!
Sede vós o tesouro da minha avareza febril,
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação,
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética,
Fornecei-me metáforas imagens, literatura,
Porque em real verdade, a sério, literalmente,
Minhas sensações são um barco de quilha prò ar,
Minha imaginação uma âncora meio submersa,
Minha ânsia um remo partido,
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!
Saudação a Walt Whitman
Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro, Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica.
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Passagem das Horas
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.
(...)
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...
Dois Excertos de Odes
(...)
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
(...)
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
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Síntese
celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna
- apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina
- exalta o progresso técnico, a velocidade e a força
- procura da chave do ser e da inteligência do mundo torna-se desesperante
- canta a civilização industrial
- recusa as verdades definitivas
- estilisticamente: introduz na linguagem poética a terminologia do mundo mecânico citadino e cosmopolita
- intelectualização das sensações
- a sensação é tudo
- procura a totalização das sensações: sente a complexidade e a dinâmica da vida moderna e, por isso, procura sentir a violência e a força de todas as sensações – “sentir tudo de todas as maneiras”
- cativo dos sentidos, procura dar largas às possibilidades sensoriais ou tenta reprimir, por temor, a manifestação de um lado feminino
- tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir
- exprime a energia ou a força que se manifesta na vida
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