ESCOLA SECUNDÁRIA RAINHA DONA LEONOR
12º Ano de escolaridade
Duração da prova: 90 minutos 4º teste
2008/2009(Fevereiro) Prof:Euclides Rosa
PROVA ESCRITA DE PORTUGUÊS
Esta prova é constituída por três grupos de resposta obrigatória.
Leia, atentamente, o poema a seguir transcrito.
XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos
A GRUPO I
1. Prove que o poema se delimita em função da alteração do sujeito gramatical de enunciação, justificando-a.
2. Explicite, servindo-se de expressões textuais, como consegue o sujeito poético conferir objectivismo a tudo o que é subjectivo.
3. Enuncie três condições apresentadas para se atingir o estado natural.
4. Explique em que medida a natureza é exemplo/ ensinamento para a vida humana.
B
Contrariamente a Caeiro que consegue a simbiose dos contrários/ binómios : “ tomo a infelicidade como felicidade”, “ todos os meus pensamentos são sensações”, Pessoa Ortónimo reconhece-se limitado e impossibilitado de o fazer.
Fazendo apelo à sua experiência de leitura, exponha, num texto de oitenta a cem palavras, como encara o Ortónimo os binómios Pensar/ Sentir, Consciência/ Inconsciência, Razão/ Coração.
GRUPO II
Leia o texto com atenção, antes de responder às questões de análise linguística do mesmo.
Após decénios em que a raça humana se desinteressou por completo do meio em que vivia, considerando este como algo alheio a si, e com uma excessiva e incorrecta confiança nas suas próprias capacidades, os problemas causados pelos seus produtos e procedimentos técnicos, e os conhecimentos crescentes das ciências fizeram com que os homens dos finais do século XX tenham regressado à natureza. Este regresso às suas próprias raízes não é, desde logo, um retorno rousseuaniano a um mundo idílico ou aos costumes do “ bom selvagem”. Trata-se de uma realidade inquestionável que, além do mais, se refere às condições de sobrevivência da espécie humana.
A crença numa capacidade permanente de regeneração da natureza e em que os seus recursos eram inesgotáveis, deu lugar a uma consciência de “crise”. O ser humano deixou de ser um passageiro privilegiado da Terra, com capacidade de mudar de nave se lhe apetecer, e voltar a ser o que era e não devia ter esquecido: mais um povoador de um mundo que ele mesmo pode destruir. Cada agressão aos restantes componentes do planeta pode ser um ataque indirecto contra si mesmo. No entanto, esta consciencialização crescente da população choca, muitas vezes com grandes interesses económicos que não querem admitir esses factos, governos que não cumprem os seus compromissos em relação a uma terra comum, pessoas despreocupadas que deitam produtos tóxicos nos mares ou queimam os bosques, por razões meramente lucrativas.
A tecnologia, como aplicação prática dos conhecimentos humanos, cujo fim é melhorar as condições de vida dos homens, não é responsável pela degradação do nosso ambiente. É o próprio ser humano, que a maneja e a dirige, que é responsável pelos danos causados ao meio ambiente.
In Ciência e Técnica, Círculo de Leitores, 1990
1. Para cada um dos seis itens que se seguem escreva, na sua folha de respostas, a letra correspondente à alternativa correcta, de acordo com o texto.
1.1. O pronome demonstrativo “ este “ ( linha 2) :
A. é uma anáfora que tem como antecedente co-referente “raça humana”(linha 1).
B. é uma anáfora que tem como antecedente co-referente “ meio”( linha 1).
C. é uma catáfora que tem como co-referente “ regresso” ( linha 5)
1.2. O pronome pessoal tónico “ si “ ( linha 2):
A. forma uma cadeia de referência juntamente com “ meio”( linha 1).
B. forma uma cadeia de referência juntamente com “ raça humana”( linha 1).
C. forma uma cadeia de referência juntamente com “ algo”( linha 2).
1.3. A sequência das expressões temporais “Após decénios”( linha 1) e “finais do século XX ” ”( linha 4) marcam:
A. a passagem de uma referência lata para uma pontual, restrita.
B. a passagem de uma referência pontual, restrita para uma lata.
C. a passagem de uma referência pontual para uma genérica.
1.4. Com a referência a Rousseau “ não é um retorno rousseuaniano a um mundo idílico ou aos costumes do “ bom selvagem” ”( linha 5-6) pretende-se:
A. sintetizar a tese que acabou de se apresentar.
B. resumir a tese que acabou de se apresentar.
C. esclarecer a tese que acabou de se apresentar.
1.5. A coesão lexical conseguida pela passagem da expressão “raça humana”(linha 1) a “espécie humana.” (linha 7-8) revela:
A. uma preocupação de rigor científico.
B. uma preocupação por diversificar o vocabulário.
C. uma preocupação estilística.
1.6. A palavra “danos” (linha 21) recupera lexicalmente:
A. “A tecnologia, como aplicação prática dos conhecimentos humanos” (linha19).
B. o sinónimo parcial “degradação” (linha 20).
C. o sinónimo parcial “degradação” (linha 20) e dois predicados verbais anteriores.
2. Escreva na sua folha de teste o número da coluna A e a alínea correspondente da coluna B, de modo a obter afirmações verdadeiras.
A
B
1. Com a expressão: “com que os homens dos finais do século XX” ( linha 4) a) introduz-se uma informação acessória e/ ou complementar, pelo que se recorre a uma oração relativa explicativa.
2. Com a expressão:”que (…) se refere às condições de sobrevivência da espécie humana.”(linha7-8) b) estabelece-se uma relação de consequência com a ideia anterior.
3. Com a expressão: “No entanto, esta consciencialização crescente da população…”
(linha 14) c) introduz-se uma informação adicional sobre o referente que é antecedente do pronome relativo.
4. Com a expressão: “É o próprio ser humano, que a maneja e a dirige, “ (linha 21) d) estabelece-se um mecanismo de coesão frásica por uma oposição com a ideia da frase anterior.
GRUPO III
Ao longo da História da humanidade, domesticamos a força da natureza, anulando barreiras espaciais e temporais, mas até quando o conseguiremos, dadas as surpresas trágicas com que nos tem surpreendido?!
Na eterna luta entre Homem e Natureza, qual dos dois sai vencido/ vencedor?
Num texto bem estruturado, com o mínimo de duzentas e um máximo de duzentas e cinquenta palavras, apresente uma reflexão sobre as ideias expressas no excerto anterior. Para fundamentar o seu ponto de vista, recorra, no mínimo, a dois argumentos, ilustrando cada um deles com um exemplo significativo.
COTAÇÕES DA PROVA
EXPLICITAÇÃO QUANTITATIVA DA COTAÇÃO
A...............................................................( 70 pontos)
1..............................................................( 9+6) 15 pontos
2..............................................................(12+8) 20pontos
3............................................................. ( 9+6) 15 pontos
4. ............................................................( 12+8) 20pontos
B..............................................................(30 pontos)
Critérios específicos de classificação
Aspectos de conteúdo...........................................18 pontos
Qualidade e coerência dos juízos de leitura formulados........ 9 pontos
Pertinência das referências feitas à obra.......................................................... 9 pontos
Aspectos de organização e correcção linguística....................................................12pontos
Estruturação do discurso*......................................7 pontos
Correcção linguística**........................................5 pontos
Grupo II
1.1 a 1.6...............................................(6x5p)............30 pontos
1.7. ..................................................(4x5p).............20 pontos
Grupo III
Estruturação temática e discursiva (C) * ………………..…………………. 30 pontos
Correcção linguística (F)** ……………………………………………… 20 pontos
_____________
Total ..............................200 pontos
CRITÉRIOS ESPECÍFICOS DE CLASSIFICAÇÃO
E RESPECTIVOS CENÁRIOS DE RESPOSTA
Grupo I
A.
1.......................................... 15 pontos
Critérios específicos de classificação
Aspectos de conteúdo........................9 pontos
Identificação dos dois sujeitos de enunciação ( 1ª e 3ª pessoa singular através de formas verbais e pronomes pessoais)
Fundamentação/ justificação da mudança de sujeito de enunciação
Aspectos de organização ecorrecção
linguística...................................................6 pontos
Estruturação do discurso*.................................... 3 pontos
Correcção linguística**...................................... 3 pontos
Cenário de resposta
Na verdade, a composição poética exibe um sujeito de enunciação a várias vozes, já que se apresenta na primeira e terceira pessoa do singular.
Relativamente à primeira, presente nas duas primeiras estrofes, como confirmam as formas verbais “ quero”, “ tomo” e o pronome pessoal “ eu”, justifica-se por se tratar de uma perspectiva/ experiência pessoal do sujeito poético
Finalmente, na terceira estrofe o sujeito de enunciação surge na terceira pessoa do singular, “ é”, “ vai”, “ seja”, “ se”, traduzindo um sujeito indeterminado, impessoal com uma amplitude globalizante e universal, abrangendo todo e qualquer ser humano.
Critérios específicos de classificação
2...........................................................20 pontos
Aspectos de conteúdo........................................12 pontos
Transcrever marcas de objectividade e subjectividade
Explicar a fusão/ anulação do subjectivismo em realidades concretas, objectivas.
Aspectos de organização e correcção linguística..................................................8 pontos
Estruturação do discurso*................................... 4 pontos
Correcção linguística**..................................... 4 pontos
Cenário de resposta
Sendo Caeiro o poeta do real objectivo, espera-se que a sua poesia nos dê as realidades concretas da natureza que contempla: “ sol”, “ montanhas”, “erva”.
Contudo, a par dessa natureza concreta, e neste poema especificamente, apresenta-nos a forma como encara sentimentos, emoções, que, à partida, rejeita por virem do pensamento que recusa: “ Mas eu nem sempre quero ser feliz/ é preciso ser de vez em quando infeliz”.
Assim, tudo o que é subjectivo e consequentemente particular em todos os homens, nele não tem qualquer existência interior, já que a infelicidade ou a felicidade não são mais do que “ montanhas e planícies” e “rochedos e ervas”.
Em suma, todas as emoções, sentimentos, a existirem, serão realidades objectivas da natureza, pois só elas são reais.
3.......................................................... 15 pontos
Critérios específicos de classificação
Aspectos de conteúdo.........................................9 pontos
Enunciar três condições para se atingir o estado natural.
Aspectos de organização e correcção linguística.....................................................6 pontos
Estruturação do discurso*...................................... 3 pontos
Correcção linguística**........................................ 3 pontos
Cenário de resposta
É na última estrofe que mais explicitamente, o sujeito lírico apresenta as exigências que se impõem para ser natural, isto é, fazer parte integrante da natureza.
Em primeiro lugar, há que ser “ natural e calmo”, mesmo perante os supostos sentimentos antagónicos, que para ele não existem.
Consequentemente, é preciso fazer do olhar o nosso sentimento” sentir como quem olha”.
Por fim, como andar natural e espontâneo,assim deve ser o nosso pensamento” Pensar como quem anda”.
4..................................................... 20 pontos
Critérios específicos de classificação
Aspectos de conteúdo.................................. 12 pontos
Função de ensinamento/ exemplo resultante da atitude sensacionista
Aspectos de organização e correcção linguística..................................................8 pontos
Estruturação do discurso*................................... 4 pontos
Correcção linguística**..................................... 4 pontos
Cenário de resposta
Primeiramente, convém lembrar que é da filosofia de vida sensacionista em contacto, comunhão e fusão com a natureza que resulta a função pedagógica, de exemplo. Seguindo o mestre, aprenderemos a viver sem sentimentos, por vezes contrários, que prejudicam a vida plena,
É da última estrofe que se extrai o maior ensinamento, encarar as armaguras e vicissitudes da vida, incluindo a morte, como naturais e belas: “E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, /E que o poente é belo e é bela a noite que fica...”. Trata-se, no fundo, de reconhecer que, sendo cada um de nós natureza, teremos de encarar a morte com simplicidade e beleza, pois é essa a ordem natural de todas as coisas e seres“ Assim é e assim seja...”.
B
Critérios específicos de classificação
Aspectos de conteúdo..............................................18 pontos
Qualidade e coerência dos juízos de leitura formulados............ 9 pontos
Pertinência das referências feitas à obra.................................................. 9 pontos
Aspectos de organização e correcção linguística...................................................12pontos
Estruturação do discurso*.................................... 7 pontos
Correcção linguística**...................................... 5 pontos
Cenário de resposta
Dada a natureza do item e as limitações de extensão não há um cenário rígido de resposta. Considera-se totalmente completa a resposta que contemple a referência aos binómios, reconhecendo a forte intelectualização do Ortónimo, quer na sua concepção de trabalho artístico, baseado no fingimento, quer na sua autognose, conhecimento de si proprio.
Para concretização da fundamentação, considerar-se-ão válidas todas as referências a poemas estudados na aula, desde que pertinentes e oportunas.
Grupo II
1................................................( 6x5pontos= .......30 pontos
Critérios específicos de classificação
Identificação dos mecanismos de coesão interfrásica/ temporal, referencial e lexical.
Cenário de resposta
1.1...........................B
1.2...........................B
1.3...........................A
1.4...........................C
1.5...........................A
1.6...........................C
2. ........................(4x5) = ......................20 pontos
Critérios específicos de classificação
1................................................b
2................................................c
3................................................d
4................................................a
Grupo III
A produção de texto visa avaliar a expressão escrita do examinando.
Tratando-se de um item de resposta aberta extensa, no qual se requer um texto de reflexão, o
professor classificador deve observar, ao classificar o texto do examinando, o domínio das seguintes
capacidades:
– estruturação de um texto com recurso a estratégias discursivas adequadas à defesa de um
ponto de vista e reflectindo a operação prévia de uma planificação produtiva;
– elaboração de um texto coerente e coeso;
– produção de um discurso correcto nos planos lexical, morfológico, sintáctico, ortográfico e de
pontuação.
Critérios específicos de classificação
Estruturação temática e discursiva (C) * ………………..………………………….... 30 pontos
Correcção linguística (F)** ………………………………………………………… 20 pontos
Cenário de resposta
Dada a natureza deste item – de resposta aberta extensa –, não é apresentado cenário de resposta.
Factor específico de desvalorização relativo ao desvio dos limites de extensão
Sempre que o examinando não respeite os limites relativos ao número de palavras indicados na
instrução do item, deve ser descontado um (1) ponto por cada palavra (a mais ou a menos), até ao
máximo de cinco (1 x 5) pontos, depois de aplicados todos os critérios definidos para o item.
Nos casos em que, da aplicação deste factor de desvalorização, resultar uma classificação inferior a zero (0) pontos, é atribuída a essa resposta a classificação de zero (0) pontos.
Nota – Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente dos algarismos que o constituam (ex.: /2008/).
Critérios para classificação do item de ensaio/ composição/ resposta extensa
Tema /Tipologia Trata o tema e respeita a tipologia sem desvios.
Trata o tema e tipologia com ligeiros desvios que não os comprometem. Trata o tema mas afasta-se da tipologia.
Argumentação
Coerência/Pertinência da informação Argumenta com eficácia, recorrendo a exemplos concretos e com informação ampla e diversificada.
Argumenta com alguma eficácia mas apresenta exemplos redundantes ou um só exemplo com informação suficiente. Argumenta com reduzida eficácia, não apresentando exemplos e com informação insuficiente.
Estruturação discursiva
Estrutura o texto, reflectindo planificação prévia e um domínio absoluto dos mecanismos de coesão textual. Estrutura o texto com domínio irregular dos mecanismos de coesão textual, nomeadamente pela estruturação linear. Redige um texto com estruturação muito deficiente, desprovido de
mecanismos elementares de coesão textual.
Repertório lexical Tem um repertório lexical com propriedade e variedade.
Tem um repertório lexical com propriedade e variedade razoáveis.
Tem repertório lexical elementar e restrito, não raro redundante e/ou
inadequado
Registo de língua Faz uso correcto do registo de língua adequado, eventualmente com esporádicos afastamentos, justificados pela intenção comunicativa mas devidamente apresentados. Faz uso razoável do registo de língua, eventualmente com esporádicos afastamentos, injustificados pela intenção comunicativa e indevidamente apresentados.
Utiliza indiferenciadamente registos de língua, sem manifestar
consciência do registo adequado ao texto, ou um único registo inadequado.
Nível 30-25 24-15 0-14
Factores de desvalorização, no domínio da correcção linguística (F), das respostas abertas
curtas e extensas
• Por cada erro de sintaxe ou de impropriedade lexical são descontados dois (2) pontos.
• Por cada erro inequívoco de pontuação, ou por cada erro de ortografia (incluindo acentuação,
translineação e uso convencional de maiúscula) é descontado um (1) ponto.
• Por cada erro de ortografia repetido ao longo da prova (incluindo acentuação, translineação e uso convencional de maiúscula) deve proceder-se apenas a uma desvalorização.
• Os descontos por erro de utilização de letra maiúscula são efectuados até ao máximo de cinco
(5) pontos na totalidade da prova.
• Por cada erro de citação de texto (uso indevido ou não uso de aspas, ausência de indicador(es)
de corte de texto, etc.) ou de referência a uma obra (ausência de sublinhado ou não uso de aspas
no título, etc.) é descontado um ponto.
• Os descontos por erro de citação de texto ou de referência a uma obra são efectuados até ao
máximo de cinco (5) pontos na totalidade da prova.
• Os descontos por aplicação dos factores de desvalorização no domínio da organização e
correcção linguística são efectuados até ao limite das pontuações indicadas para este critério.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Matriz 4º teste 12º ano
ESCOLA SECUNDÁRIA RAINHA DONA LEONOR
Português 12º ano
Matriz do 4º teste sumativo ( Fevereiro de 2009)
Prof. Euclides Rosa
Grupo I (100 pontos)
Objectivos
1. Compreender globalmente o texto.
2. Delimitar e justificar momentos de um poema
3. Relacionar marcas de subjectivismo e objectivismo.
4. Enunciar três aspectos relevantes do texto.
5. Explicar função de ensinamento/ exemplo veiculada no poema.
Conteúdos - Fernando Pessoa- Ortónimo:
- fingimento artístico
- dor de pensar
- binómios : consciência, inconsciência, razão, coração, sentir/ pensar
- Heterónimo- Alberto Caeiro:
- Sensacionismo
- poeta da natureza sem gente
- poeta antimetafísico
- Informação textual
- Sujeitos gramaticais de enunciação: suas marcas nas formas verbais e pronomes.
- Marcas de subjectividade e objectividade
- Intenção comunicativa e poética
Tipologia de Questões
A
- 4 itens de resposta fechada/curta
B- 1 item de ensaio de extensão compreendida entre 100 e 120 palavras
( Avaliam-se também a competência de expressão escrita: estruturação discursiva e correcção linguística)
Grupo II ( 50 pontos)
Objectivos
1. Reconhecer valor de diferentes mecanismos de coesão textual, temporal, referencial, lexical
2. Identificar mecanismos de coesão interfrásica e seu respectivo valor.
Conteúdos
- Coesão
Tipologia de Questões
- seis itens escolha múltipla
- quatro itens de associação
Grupo III (50 pontos)
Objectivos
- Aplicar uma técnica e /ou modelo de escrita
- Exprimir opiniões/ críticas.
- Argumentar e exemplificar.
- Manifestar competências de expressão escrita
Conteúdos
- Texto expositivo-argumentativo, de opinião sobre tema decorrente do programa
- Competências de expressão escrita
Tipologia de Questões
- Item de resposta aberta/extensa valorizada pela estruturação temática e discursiva e pela correcção linguística)
Português 12º ano
Matriz do 4º teste sumativo ( Fevereiro de 2009)
Prof. Euclides Rosa
Grupo I (100 pontos)
Objectivos
1. Compreender globalmente o texto.
2. Delimitar e justificar momentos de um poema
3. Relacionar marcas de subjectivismo e objectivismo.
4. Enunciar três aspectos relevantes do texto.
5. Explicar função de ensinamento/ exemplo veiculada no poema.
Conteúdos - Fernando Pessoa- Ortónimo:
- fingimento artístico
- dor de pensar
- binómios : consciência, inconsciência, razão, coração, sentir/ pensar
- Heterónimo- Alberto Caeiro:
- Sensacionismo
- poeta da natureza sem gente
- poeta antimetafísico
- Informação textual
- Sujeitos gramaticais de enunciação: suas marcas nas formas verbais e pronomes.
- Marcas de subjectividade e objectividade
- Intenção comunicativa e poética
Tipologia de Questões
A
- 4 itens de resposta fechada/curta
B- 1 item de ensaio de extensão compreendida entre 100 e 120 palavras
( Avaliam-se também a competência de expressão escrita: estruturação discursiva e correcção linguística)
Grupo II ( 50 pontos)
Objectivos
1. Reconhecer valor de diferentes mecanismos de coesão textual, temporal, referencial, lexical
2. Identificar mecanismos de coesão interfrásica e seu respectivo valor.
Conteúdos
- Coesão
Tipologia de Questões
- seis itens escolha múltipla
- quatro itens de associação
Grupo III (50 pontos)
Objectivos
- Aplicar uma técnica e /ou modelo de escrita
- Exprimir opiniões/ críticas.
- Argumentar e exemplificar.
- Manifestar competências de expressão escrita
Conteúdos
- Texto expositivo-argumentativo, de opinião sobre tema decorrente do programa
- Competências de expressão escrita
Tipologia de Questões
- Item de resposta aberta/extensa valorizada pela estruturação temática e discursiva e pela correcção linguística)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto
XLIII
Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é a Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
Alberto Caeiro, « O Guardador de Rebanhos»
Numa composição cuidada, analisa o poema, tendo em conta:
- binómio voo/rasto, ver/ pensar e sua relação com o binómio presente/ passado
- relação do eu com a natureza,
- sentimento de incapacidade e limitações do sujeito poético
- divisão fundamentada do poema em partes lógicas
- reursos linguísticos relevantes
Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é a Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
Alberto Caeiro, « O Guardador de Rebanhos»
Numa composição cuidada, analisa o poema, tendo em conta:
- binómio voo/rasto, ver/ pensar e sua relação com o binómio presente/ passado
- relação do eu com a natureza,
- sentimento de incapacidade e limitações do sujeito poético
- divisão fundamentada do poema em partes lógicas
- reursos linguísticos relevantes
Li hoje duas páginas
Li hoje duas páginas
Do livro de um poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas as flores se sentissem, não eram flores,
Eram gente,E se as pedras tivessem alma,
eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era Natureza.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos,XVIII
1. A reacção à leitura do livro do poeta místico não desperta no sujeito lírico um sentimento antitético. Assim, como interpretas o verso “ E ri como quem tem chorado muito.”
2. Enumera os motivos apresentados que permitem a comparação dos poetas místicos aos filósofos.
3. Transcreve os versos que mostram uma atitude antimetafísica, a despreocupação pelo mistério oculto das coisas.
4. Retira do poema todas as orações subordinadas condicionais.
5. Indica a condição apresentada pelo sujeito poético para atingir o verdadeiro conhecimento da natureza.
6.” Falar da alma das pedras, das flores, dos rios/ é falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos” . Comenta a frase, relacionado-a com o sensacionismo objectivo e a recusa da intelectualização constantemente defendida por Caeiro.
7. Caracteriza a linguagem do poema, referindo-te às classes de palavras , tipos e formas de frases, estruturas frásicas( coordenação, subordinação), tempos e modos verbais, recursos estilísticos utilizados.
Do livro de um poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas as flores se sentissem, não eram flores,
Eram gente,E se as pedras tivessem alma,
eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era Natureza.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos,XVIII
1. A reacção à leitura do livro do poeta místico não desperta no sujeito lírico um sentimento antitético. Assim, como interpretas o verso “ E ri como quem tem chorado muito.”
2. Enumera os motivos apresentados que permitem a comparação dos poetas místicos aos filósofos.
3. Transcreve os versos que mostram uma atitude antimetafísica, a despreocupação pelo mistério oculto das coisas.
4. Retira do poema todas as orações subordinadas condicionais.
5. Indica a condição apresentada pelo sujeito poético para atingir o verdadeiro conhecimento da natureza.
6.” Falar da alma das pedras, das flores, dos rios/ é falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos” . Comenta a frase, relacionado-a com o sensacionismo objectivo e a recusa da intelectualização constantemente defendida por Caeiro.
7. Caracteriza a linguagem do poema, referindo-te às classes de palavras , tipos e formas de frases, estruturas frásicas( coordenação, subordinação), tempos e modos verbais, recursos estilísticos utilizados.
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha.
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia.
E para onde ele vai.
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro, Poemas Completos, Comp. José Aguilar, Rio de Janeiro, 1972
1. No início do poema afirma-se em sequência: “ O Tejo é mais belo.../O Tejo não é mais belo...” (v.v. 1,2)
1.1. Com base na leitura do texto, apresenta as razões desta mudança da forma afirmativa para a negativa.
2. “E navega nele ainda, (v. 5)/...a memória das naus.”(v. 7)
2.1. Comenta o valor expressivo desta afirmação.
3. “...aqueles que vêem em tudo o que lá não está...” (v. 6)
3.1. Explicita o sentido desta afirmação
4. O texto afirma-se que o “rio da minha aldeia” é mais livre e maior (v. 15).
4.1. Refere o significado desta afirmação, neste contexto.
5. Todo o poema é atravessado pela comparação entre o Tejo e “o rio da minha aldeia”.
5.1. Indica o grau em que se encontram os adjectivos que estabelecem essa comparação. Exemplifica.
6. Dos rios referidos no poema, um é nomeado com um substantivo próprio, o outro com um substantivo comum.
6.1. Justifica esta afirmação com transcrições do texto.
6.2. Relaciona essa diferente nomeação com o significado que cada um dos rios assume no poema.
7. Há um momento do texto em que o Tejo surge associado à procura de uma vida melhor.
7.1. Aponta esse momento e selecciona as palavras que melhor exprimem essa associação.
8. “Quem está ao pé dele está só ao pé dele” (v. 22)
8.1. Analisa o processo de construção do sentido presente neste verso.
9. Refere as marcas características da poesia de Alberto Caeiro presentes no poema.
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha.
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia.
E para onde ele vai.
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro, Poemas Completos, Comp. José Aguilar, Rio de Janeiro, 1972
1. No início do poema afirma-se em sequência: “ O Tejo é mais belo.../O Tejo não é mais belo...” (v.v. 1,2)
1.1. Com base na leitura do texto, apresenta as razões desta mudança da forma afirmativa para a negativa.
2. “E navega nele ainda, (v. 5)/...a memória das naus.”(v. 7)
2.1. Comenta o valor expressivo desta afirmação.
3. “...aqueles que vêem em tudo o que lá não está...” (v. 6)
3.1. Explicita o sentido desta afirmação
4. O texto afirma-se que o “rio da minha aldeia” é mais livre e maior (v. 15).
4.1. Refere o significado desta afirmação, neste contexto.
5. Todo o poema é atravessado pela comparação entre o Tejo e “o rio da minha aldeia”.
5.1. Indica o grau em que se encontram os adjectivos que estabelecem essa comparação. Exemplifica.
6. Dos rios referidos no poema, um é nomeado com um substantivo próprio, o outro com um substantivo comum.
6.1. Justifica esta afirmação com transcrições do texto.
6.2. Relaciona essa diferente nomeação com o significado que cada um dos rios assume no poema.
7. Há um momento do texto em que o Tejo surge associado à procura de uma vida melhor.
7.1. Aponta esse momento e selecciona as palavras que melhor exprimem essa associação.
8. “Quem está ao pé dele está só ao pé dele” (v. 22)
8.1. Analisa o processo de construção do sentido presente neste verso.
9. Refere as marcas características da poesia de Alberto Caeiro presentes no poema.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Caeiro, o Mestre
Alberto Caeiro “ heterónimo sem máscara”
( prof: Euclides Rosa)
Na introdução a Caeiro, Ricardo Reis afirma que os poemas de Caeiro são rigorosamente unificados por um pensamento filosófico. Nos poucos poemas analisados podemos descobrir alguns traços dessa unidade de pensamento, expressa nas seguintes aproximações metafóricas:
Primeira “ Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.”
Segunda: Pastor e guardador de rebanhos:
“ Sou um guardador de rebanhos”
Terceira: Rebanho e pensamentos:
“ O rebanho é os meus pensamentos...”
... olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho.”
Quarta: Pensamentos e sensações:
“ E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la”
A alma é pois identificada gradativamente com pastor, rebanhos, pensamentos, sensações, coisas.
Pode acaso passar no viso do monte uma diligência e saudar o pastor: “ Olá, guardador de rebanhos...” que a sua passagem nada modifica e “ a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia”. Pastor habita o Vazio e não se prende a ideias, opiniões, sentimentos...” pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas/ Na cidade a vida é mais pequena que aqui na minha casa no cimo deste outeiro./ Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o Céu/ tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar/ E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Caeiro não dá pela face oculta das coisas, vê apenas a realidade imediata e sensível. Torna-se coisa entre as coisas e vê como coisa sem esperança, desejos, beleza... A síntese da acomodação fá-lo feliz.
Caeiro, porém, não se diz categoricamente pastor: compara-se a um pastor. Por isso, ainda afloram sentimentos extra-sensações e extra-coisa: “ Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois/ Quem me dera que eu fosse o pó da estrada... Disso parece aperceber-se Caeiro, ao afirmar” Se às vezes digo que as flores sorriem/ E se eu disser que os rios cantam/ Não é que eu julgue que há sorrisos nas flores / E cantos no correr dos rios.../ É porque assim faço mais sentir aos homens falsos/ A existência verdadeiramente real das flores e dos rios./ Porque escrevo para eles me lerem, / Sacrifico-me ás vezes à sua estupidez de sentidos.../ Procuro dizer o que sinto/ sem pensar em que o sinto./ Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir./ O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado/ porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar”.
É a bem dizer, o regresso a Pessoa.
Não surpreende que lhe venha até a tentação de perguntar às coisas onde está o seu mistério, o seu lado oculto.
“O mistério das coisas? Sei lá o que é o mistério!”
“O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-se que é mistério?”
É evidente que quem se identifica com a flor, o rio, a árvore, o vento não pode nunca inquirir nada acerca de mistério algum.
“Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?”
Na verdade, sendo as coisas unicamente aquilo que parecem ser, nada há que compreender nelas. Isto é a negação absoluta da possibilidade de conhecer, de descobrir o porquê da realidade, “As coisas, segundo Caeiro, não têm significação, mas só existência.”
Por isto, os versos escritos a nenhuma ambiguidade ou conotação podem estar submetidos: são evidentes como as coisas. Como a flor não pode esconder a cor, nem árvore o fruto, assim o poeta da natureza deve ser nos seus versos. Caeiro, no dizer de Pessoa, é o místico da natureza.
Um misticismo muito diferente do praticado pelos místicos.
“Tu, místico, vês uma significação em todas as coisas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa.
Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-o e amo-o, porque ser uma coisa é não significar nada.
Ser uma coisa é não ser susceptível de interpretação.”
“Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o:
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.”
Uma tragédia, entretanto, acontece a um tal pastor singular, que nega poder conhecer qualquer realidade, com a perda do cajado.
“Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos...”
Não há pastor sem cajado ou vara para conduzir o rebanho. Ele é seu amor.
“O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado afinal.”
Que simbolismo se atribuirá ao cajado? O cajado talvez possa querer sugerir a redução a uma coisa.
“Agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.”
Perdido o cajado, perdida foi a identidade com as coisas, a visão pura da realidade imediata.
O jogo cénico e o fingimento podem cessar. A janela aberta de uma solução para a paz de espírito fecha-se. As diligências circulam pelo outeiro, mas já não saudam o pastor.
“Todos os dias acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.”
A biografia de Caeiro situa-se dentro dos limites naturais, fora de qualquer transcendência.
“Tenho só duas datas- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são iguais.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento do ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras:
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da natureza.”
Olhos azuis, infantis e atentos, Caeiro passa o tempo a ver as coisas da natureza, com a visão das coisas. Pastor contemplativo, feliz de ser pastor-flor, pastor-vento, pastor-pedra, guarda os pensamentos, isto é, a paz que vem de não pensar como as coisas. Convenhamos que é uma tarefa dificílima.
Como se explica que, ignorante da vida e das letras (apenas uma instrução primária) Caeiro tenha chegado, sem brilhantes raciocínios metafísicos e filosofias, a um grau tão elevado de penetração num mundo que, por nós habitado, modificaria totalmente os comportamentos humanos? Só por uma intuição sobre-humana como aquelas que fundam religiões... Este homem descreveu o mundo sem pensar nele e criou um conceito de universo que não contém uma interpretação.”
Onde morre o pensamento (Caeiro tenta que os pensamentos não entrem no seu redil) nascem a intuição e os sentidos.”
“Eu não tenho filosofia; tenho sentidos!” Eu nem sequer sou poeta: vejo.”
Caeiro tenta transpôr a dualidade sujeito-objecto, fundindo-os.
“Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a natureza produziu.”
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.”
Caeiro revela-se, pois, numa perspectiva sensacionista, naturalista, objectiva e anti-metafísica. Finge ver apenas a realidade imediata e sensível, sem dar pelo oculto. Torna-se coisa entre as coisas.
Este problema já noutras eras lançou polémica com os “universais”.
Para uns era impossível compreender a realidade; para outros, nada mais se podia compreender além da realidade imediata.
Talvez por isso o poeta afirme:
“Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.”
Caeiro tenta identificar o sentir e o pensar. A metafísica é para ele uma doença do pensamento.
Caeiro, segundo Pessoa, é o objectivismo total e é o mestre. Nesta linha de objectivismo absoluto, Reis apresenta Caeiro como “argonauta das sensações verdadeiras, o grande libertador que nos restituiu, cantando, o nada luminoso que somos.”
Caeiro é ainda apelidado por Pessoa de místico puro, por recusar o pensamento e a reflexão, meios de apreensão do universo. “Sou místico, mas só com o corpo, afirma Caeiro.
Este misticismo recusa a metafísica, “a doença do pensamento”. De quatro canções que o renegam assegura Caeiro que foram escritas estando ele doente.
“Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum.”
Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem...”
Mas por que me interrogo, senão porque estou doente?
E assim o mestre atinge um grau de aceitação dos acontecimentos com uma paz eterna. Vê as coisas e aceita-as sem julgar que servirá de alguma coisa o criar ilusões para se julgar feliz.
Um homem assim como que purificado ou como que deus, nem sequer pode pensar em Deus:
“Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou.”
Deste modo também o poeta, debruçado da janela ao entardecer, e “cujo olhar é nítido como o girassol”, escreve sem pensar, sem se sujeitar a regras de elaboração, tão naturalmente como tudo o que é natural e espontâneo.
“Ser poeta não é uma ambição minha,
É a minha maneira de estar sozinho.”
Escrever para o poeta pastor é tão natural como a árvore florir.
“Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.”
E ao lerem os meus versos pensem que sou qualquer coisa natural – por exemplo a árvore antiga...”
“Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina...
“Por mim escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente.”
“E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos/como um carpinteiro nas tábuas.”
Que triste não saber florir”
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
A linguagem de Caeiro, “que se quer natural como o levantar do vento”, distingue-se pelo ritmo livre, alicerçado num sistema de repetições fónicas e semânticas constantes, na espontaneidade. Linguagem próxima da prosa, (prosa poética) volta-se para o elogio do real e objectivo e tenta inviabilizar a elaboração e o trabalho pensado.
Evidentemente que Caeiro todo é contradição. Se é pastor de pensamentos, como os nega? Como, se sabe da sua existência? Não são as suas ovelhas? A própria apreciação do real é subjectiva, particular, pessoal.
Caeiro mostra a propensão de Pessoa para a fantasia e metafísica.
Não passa dum metafísico, a desejar “passar como a ave sem deixar rasto...”
Para Pessoa, Caeiro é “um Pascoais virado do avesso”, porque o poeta do Marão é o poeta da natureza metafísica.
Em Caeiro há reminiscências de Cesário Verde.
( prof: Euclides Rosa)
Na introdução a Caeiro, Ricardo Reis afirma que os poemas de Caeiro são rigorosamente unificados por um pensamento filosófico. Nos poucos poemas analisados podemos descobrir alguns traços dessa unidade de pensamento, expressa nas seguintes aproximações metafóricas:
Primeira “ Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.”
Segunda: Pastor e guardador de rebanhos:
“ Sou um guardador de rebanhos”
Terceira: Rebanho e pensamentos:
“ O rebanho é os meus pensamentos...”
... olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho.”
Quarta: Pensamentos e sensações:
“ E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la”
A alma é pois identificada gradativamente com pastor, rebanhos, pensamentos, sensações, coisas.
Pode acaso passar no viso do monte uma diligência e saudar o pastor: “ Olá, guardador de rebanhos...” que a sua passagem nada modifica e “ a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia”. Pastor habita o Vazio e não se prende a ideias, opiniões, sentimentos...” pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas/ Na cidade a vida é mais pequena que aqui na minha casa no cimo deste outeiro./ Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o Céu/ tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar/ E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Caeiro não dá pela face oculta das coisas, vê apenas a realidade imediata e sensível. Torna-se coisa entre as coisas e vê como coisa sem esperança, desejos, beleza... A síntese da acomodação fá-lo feliz.
Caeiro, porém, não se diz categoricamente pastor: compara-se a um pastor. Por isso, ainda afloram sentimentos extra-sensações e extra-coisa: “ Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois/ Quem me dera que eu fosse o pó da estrada... Disso parece aperceber-se Caeiro, ao afirmar” Se às vezes digo que as flores sorriem/ E se eu disser que os rios cantam/ Não é que eu julgue que há sorrisos nas flores / E cantos no correr dos rios.../ É porque assim faço mais sentir aos homens falsos/ A existência verdadeiramente real das flores e dos rios./ Porque escrevo para eles me lerem, / Sacrifico-me ás vezes à sua estupidez de sentidos.../ Procuro dizer o que sinto/ sem pensar em que o sinto./ Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir./ O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado/ porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar”.
É a bem dizer, o regresso a Pessoa.
Não surpreende que lhe venha até a tentação de perguntar às coisas onde está o seu mistério, o seu lado oculto.
“O mistério das coisas? Sei lá o que é o mistério!”
“O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-se que é mistério?”
É evidente que quem se identifica com a flor, o rio, a árvore, o vento não pode nunca inquirir nada acerca de mistério algum.
“Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?”
Na verdade, sendo as coisas unicamente aquilo que parecem ser, nada há que compreender nelas. Isto é a negação absoluta da possibilidade de conhecer, de descobrir o porquê da realidade, “As coisas, segundo Caeiro, não têm significação, mas só existência.”
Por isto, os versos escritos a nenhuma ambiguidade ou conotação podem estar submetidos: são evidentes como as coisas. Como a flor não pode esconder a cor, nem árvore o fruto, assim o poeta da natureza deve ser nos seus versos. Caeiro, no dizer de Pessoa, é o místico da natureza.
Um misticismo muito diferente do praticado pelos místicos.
“Tu, místico, vês uma significação em todas as coisas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa.
Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-o e amo-o, porque ser uma coisa é não significar nada.
Ser uma coisa é não ser susceptível de interpretação.”
“Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o:
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.”
Uma tragédia, entretanto, acontece a um tal pastor singular, que nega poder conhecer qualquer realidade, com a perda do cajado.
“Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos...”
Não há pastor sem cajado ou vara para conduzir o rebanho. Ele é seu amor.
“O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado afinal.”
Que simbolismo se atribuirá ao cajado? O cajado talvez possa querer sugerir a redução a uma coisa.
“Agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.”
Perdido o cajado, perdida foi a identidade com as coisas, a visão pura da realidade imediata.
O jogo cénico e o fingimento podem cessar. A janela aberta de uma solução para a paz de espírito fecha-se. As diligências circulam pelo outeiro, mas já não saudam o pastor.
“Todos os dias acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.”
A biografia de Caeiro situa-se dentro dos limites naturais, fora de qualquer transcendência.
“Tenho só duas datas- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são iguais.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento do ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras:
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da natureza.”
Olhos azuis, infantis e atentos, Caeiro passa o tempo a ver as coisas da natureza, com a visão das coisas. Pastor contemplativo, feliz de ser pastor-flor, pastor-vento, pastor-pedra, guarda os pensamentos, isto é, a paz que vem de não pensar como as coisas. Convenhamos que é uma tarefa dificílima.
Como se explica que, ignorante da vida e das letras (apenas uma instrução primária) Caeiro tenha chegado, sem brilhantes raciocínios metafísicos e filosofias, a um grau tão elevado de penetração num mundo que, por nós habitado, modificaria totalmente os comportamentos humanos? Só por uma intuição sobre-humana como aquelas que fundam religiões... Este homem descreveu o mundo sem pensar nele e criou um conceito de universo que não contém uma interpretação.”
Onde morre o pensamento (Caeiro tenta que os pensamentos não entrem no seu redil) nascem a intuição e os sentidos.”
“Eu não tenho filosofia; tenho sentidos!” Eu nem sequer sou poeta: vejo.”
Caeiro tenta transpôr a dualidade sujeito-objecto, fundindo-os.
“Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a natureza produziu.”
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.”
Caeiro revela-se, pois, numa perspectiva sensacionista, naturalista, objectiva e anti-metafísica. Finge ver apenas a realidade imediata e sensível, sem dar pelo oculto. Torna-se coisa entre as coisas.
Este problema já noutras eras lançou polémica com os “universais”.
Para uns era impossível compreender a realidade; para outros, nada mais se podia compreender além da realidade imediata.
Talvez por isso o poeta afirme:
“Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.”
Caeiro tenta identificar o sentir e o pensar. A metafísica é para ele uma doença do pensamento.
Caeiro, segundo Pessoa, é o objectivismo total e é o mestre. Nesta linha de objectivismo absoluto, Reis apresenta Caeiro como “argonauta das sensações verdadeiras, o grande libertador que nos restituiu, cantando, o nada luminoso que somos.”
Caeiro é ainda apelidado por Pessoa de místico puro, por recusar o pensamento e a reflexão, meios de apreensão do universo. “Sou místico, mas só com o corpo, afirma Caeiro.
Este misticismo recusa a metafísica, “a doença do pensamento”. De quatro canções que o renegam assegura Caeiro que foram escritas estando ele doente.
“Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum.”
Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem...”
Mas por que me interrogo, senão porque estou doente?
E assim o mestre atinge um grau de aceitação dos acontecimentos com uma paz eterna. Vê as coisas e aceita-as sem julgar que servirá de alguma coisa o criar ilusões para se julgar feliz.
Um homem assim como que purificado ou como que deus, nem sequer pode pensar em Deus:
“Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou.”
Deste modo também o poeta, debruçado da janela ao entardecer, e “cujo olhar é nítido como o girassol”, escreve sem pensar, sem se sujeitar a regras de elaboração, tão naturalmente como tudo o que é natural e espontâneo.
“Ser poeta não é uma ambição minha,
É a minha maneira de estar sozinho.”
Escrever para o poeta pastor é tão natural como a árvore florir.
“Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.”
E ao lerem os meus versos pensem que sou qualquer coisa natural – por exemplo a árvore antiga...”
“Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina...
“Por mim escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente.”
“E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos/como um carpinteiro nas tábuas.”
Que triste não saber florir”
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
A linguagem de Caeiro, “que se quer natural como o levantar do vento”, distingue-se pelo ritmo livre, alicerçado num sistema de repetições fónicas e semânticas constantes, na espontaneidade. Linguagem próxima da prosa, (prosa poética) volta-se para o elogio do real e objectivo e tenta inviabilizar a elaboração e o trabalho pensado.
Evidentemente que Caeiro todo é contradição. Se é pastor de pensamentos, como os nega? Como, se sabe da sua existência? Não são as suas ovelhas? A própria apreciação do real é subjectiva, particular, pessoal.
Caeiro mostra a propensão de Pessoa para a fantasia e metafísica.
Não passa dum metafísico, a desejar “passar como a ave sem deixar rasto...”
Para Pessoa, Caeiro é “um Pascoais virado do avesso”, porque o poeta do Marão é o poeta da natureza metafísica.
Em Caeiro há reminiscências de Cesário Verde.
Menino da sua mãe
MENINO DA SUA MÃE
( por Euclides Rosa)
Interlúdio
Quase todo o poema se desenrola, pintando-nos um quadro que, de certo modo, nos transporta pra uma situação de guerra. Para justificar tal afirmação, atente-se, por exemplo, nas palavras “ balas, farda...”
Neste quadro emerge um jovem alvo e louro, jazendo frio e cego, no campo abandonado da peleja. Observando todos os pormenores, o poeta detem-se especialmente sobre dois objectos: a cigareira e o lenço branco, carregados de particular valor afectivo. Isto revela da parte do poeta um conhecimento profundo dos factos, se bem que que não concorra para uma imparcialidade que é vaga e pouco definida ao longo do texto. São suas demonstrações algumas exclamações “ tão jovem! Que jovem era! Malhas que o império tece!, num discurso figurativo e valorativo que testemunham o envolvimento sentimental do poeta face a tal espetáculo. Por outro lado, a parte final do poema, aclara e denigre a onisciência do poeta que, através do conjuntivo desiderativo( desejo), se associa à esperança vivida em casa do “ Menino da sua mãe”.
De ponta a ponta, a linguagem poética está impregnada de subjectivismo e manifestações de opinião e sentimentos pessoais, especialmente pela adjectivação.
Foco
O quadro, porém, de características descritivas, narrativas e líricas, apresenta-nos dois planos nítidos, o exterior e o interior. O primeiro é o campo de batalha onde a morna brisa parece ser um espectador silencioso da tragédia; o segundo identifica-se com a casa da família do jovem onde se fazem súplicas pelo seu regresso. Mal sabe a pobre da mãe que o seu menino deixou de ver o sol por causa das malhas que a ambição imperialista tece!
Os verbos jazer, arrefecer, apodrecer transmitem a inutilidade da guerra, a estagnação e a quebra da continuidade da vida. Em polo oposto, os braços estendidos e o olhar contemplando o céu serão talvez indicativos da paz e do descanso eterno e de um futuro que será alimentado pela chama da sua saudade e do seu regresso.
É óbvio que a cigarreira e o lenço branco são elos de relacionação entre os dois planos.
Transmite-se uma mensagem, a inutilidade do presente. A morte interseciona a vida que é uma guerra. Todos vestimos uma farda para lutar contra os dissabores e batalhas inicialmente perdidas. A causa da inutilidade presente do menino é fruto da sede de expansionismo, da crueldade da vida. DE algum modo, à vida segura do lar opõe-se a vida insegura e arriscada da guerra. Os dissabores da avidez e cobiça estão sugeridos pelas balas, “ duas de lado a lado”, e pelo verbo trespassar. A atitude niilista não é aqui consequência duma filosofia de vida, mas duma sociedade em que a ambição monopoliza a audácia humana.
Todo o poema, embora nos pareça contar simplesmente e de um modo omnisciente a história do menino da sua mãe, mantém uma perspectiva pessoal e particular, especialmente nos lamentos exclamativos acerca da morte do menino soldado, no entanto, irá servir de alimento à imaginação e da esperança a todos aqueles que, por largo tempo, o ficam esperando, talvez possamos ver nele uma reprodução do mito sebástico.
( por Euclides Rosa)
Interlúdio
Quase todo o poema se desenrola, pintando-nos um quadro que, de certo modo, nos transporta pra uma situação de guerra. Para justificar tal afirmação, atente-se, por exemplo, nas palavras “ balas, farda...”
Neste quadro emerge um jovem alvo e louro, jazendo frio e cego, no campo abandonado da peleja. Observando todos os pormenores, o poeta detem-se especialmente sobre dois objectos: a cigareira e o lenço branco, carregados de particular valor afectivo. Isto revela da parte do poeta um conhecimento profundo dos factos, se bem que que não concorra para uma imparcialidade que é vaga e pouco definida ao longo do texto. São suas demonstrações algumas exclamações “ tão jovem! Que jovem era! Malhas que o império tece!, num discurso figurativo e valorativo que testemunham o envolvimento sentimental do poeta face a tal espetáculo. Por outro lado, a parte final do poema, aclara e denigre a onisciência do poeta que, através do conjuntivo desiderativo( desejo), se associa à esperança vivida em casa do “ Menino da sua mãe”.
De ponta a ponta, a linguagem poética está impregnada de subjectivismo e manifestações de opinião e sentimentos pessoais, especialmente pela adjectivação.
Foco
O quadro, porém, de características descritivas, narrativas e líricas, apresenta-nos dois planos nítidos, o exterior e o interior. O primeiro é o campo de batalha onde a morna brisa parece ser um espectador silencioso da tragédia; o segundo identifica-se com a casa da família do jovem onde se fazem súplicas pelo seu regresso. Mal sabe a pobre da mãe que o seu menino deixou de ver o sol por causa das malhas que a ambição imperialista tece!
Os verbos jazer, arrefecer, apodrecer transmitem a inutilidade da guerra, a estagnação e a quebra da continuidade da vida. Em polo oposto, os braços estendidos e o olhar contemplando o céu serão talvez indicativos da paz e do descanso eterno e de um futuro que será alimentado pela chama da sua saudade e do seu regresso.
É óbvio que a cigarreira e o lenço branco são elos de relacionação entre os dois planos.
Transmite-se uma mensagem, a inutilidade do presente. A morte interseciona a vida que é uma guerra. Todos vestimos uma farda para lutar contra os dissabores e batalhas inicialmente perdidas. A causa da inutilidade presente do menino é fruto da sede de expansionismo, da crueldade da vida. DE algum modo, à vida segura do lar opõe-se a vida insegura e arriscada da guerra. Os dissabores da avidez e cobiça estão sugeridos pelas balas, “ duas de lado a lado”, e pelo verbo trespassar. A atitude niilista não é aqui consequência duma filosofia de vida, mas duma sociedade em que a ambição monopoliza a audácia humana.
Todo o poema, embora nos pareça contar simplesmente e de um modo omnisciente a história do menino da sua mãe, mantém uma perspectiva pessoal e particular, especialmente nos lamentos exclamativos acerca da morte do menino soldado, no entanto, irá servir de alimento à imaginação e da esperança a todos aqueles que, por largo tempo, o ficam esperando, talvez possamos ver nele uma reprodução do mito sebástico.
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