domingo, 8 de fevereiro de 2009

Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não
Eu simplesmente sinto
Com imaginação.
Não uso o coração

Tudo o que sonho ou passo ,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço.
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério é que não é.
Sentir? Sinta quem lê !

O assunto do poema "Isto", tal como o do poema "Autopsicografia" é a teoria da criação literária.Parece até que a afirmação "dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo" é uma resposta a críticas nascidas de possíveis interpretações de "Autopsicografia".
O sujeito poético responde na primeira estrofe (primeira parte lógica) que o seu fingimento não é propriamente mentira, mas uma síntese rara (como se ele fosse um predestinado) da sensação e da imaginação.
Enquanto em "Autopsicografia o poeta distinguia entre sensação (dor sentida) e fingimento (dor imaginada), aqui simplesmente sente com imaginação. O poeta parece esquecer, neste poema, o ponto de partida que em "Autopsicografia" era a sensação (coração). Mas, o que realmente acontece, é que ele realiza (no acto de criação poética) a síntese da sensação com a imaginação, sobressaindo esta, porque intelectual, operada pela razão. O poeta não usa o coração porque lhe basta a imaginação, a qual surge como concentração do sensível e do intelectual.
Note-se que este poema foi publicado em l933, na revista Presença, enquanto o poema "Autopsicografia" tinha sido publicado, na mesma revista, menos de um ano antes, em Abril de l932.
Em "Autopsicografia", Pessoa fala na 3ª pessoa, dando a entender que a teoria exposta tem aplicação universal: é um processo verificável em todo o verdadeiro poeta. No poema "Isto", o poeta fala na lª pessoa,
não há nenhuma frase de carácter axiomático, de aplicação universal. Não será porque Pessoa se apresenta aqui como o poeta intelectual por excelência?
Passemos à segunda parte do texto, a qual constitui uma confirmação do conteúdo da primeira estrofe, baseada na experiência vivida do poeta. Todas as contingências da sua vida (“Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda”) são como um terraço sobre outra coisa, e essa coisa e que é linda. Essa coisa são os dados da imaginação, são a transfiguração artística operada pela inteligência/imaginação. Note-se a expressividade da comparação "como que um terraço", a simbolizar as aparências que escondem a realidade mais bela. Mas Pessoa não separa o terraço da beleza que ele esconde: as contingências da vida são como que um terraço com tudo o que ele esconde de mais belo. Parece então sugerir, o poeta, que nele a inteligência/imaginação, num único acto de síntese, abarca ao mesmo tempo todas as esperanças, os fracassos da sua vida e as belas realidades poéticas, a essência pura da poesia criada pelo fingimento.
Enquanto na "Autopsicografia" o poeta distinguia dois momentos (o da sensação e o da imaginação), aqui tudo se processa num só momento: as realidades belas subjacentes ao terraço (aparências) são vistas por ele, automática e simultaneamente.
É evidente que paira aqui a doutrina platónica da reminiscência: olhar para as aparências (coisas deste mundo) e ver imediatamente as realidades puras de um mundo mais alto. Constata-se aqui também a grande emoção (de natureza intelectual) que o poeta punha naquilo que ele considerava o fulcro, o âmago da poesia: essa coisa é que é linda.
Na terceira parte do poema, a jeito de conclusão, "Por isso", afirma que escreve "em meio do que não está ao pé". O que está ao pé são as sensações, é o mundo das aparências, o que não está ao pé é o mundo da inteligência, o mundo das realidades puras, da imaginação que transforma, que eleva as sensações ao nível da literatura, ao nível da poesia. A arte poética nasce da abstracção do mundo sensível. Só quando o poeta é do seu enleio (do coração), é que o milagre da poesia se pode dar. "sério do que não é", o poeta considera "sério" quem como ele é capaz de se abstrair do acidental para se concentrar no mundo das essências ( no mundo intelectual). Para Fernando Pessoa é aí que está a perfeição.
O poeta fecha o poema com uma interrogação retórica e uma exclamação de sentido irónico depreciativo : “Sentir?”, note-se como esta interrogação, em conjunto com a exclamação "Sinta quem lê?" é uma resposta irónica ao "Dizem que finjo ou minto" do príncipio do poema. O poeta não sente deixa isso para os que lêem, para quem brinca com o sensível, com o mundo das aparências. Para ele super-poeta, tudo se passa no mundo da inteligência-imaginação, no mundo das ausências.
Este verso apesar de parecer o fechamento de uma circunferência iniciada no terceiro verso, deixa margem à reflexão, a um dinamismo intelectivo que fica a desenvolver-se na mente do leitor.
Apesar de todo o vocabulário ser simples, conhecido dentro dos limites da norma surgem divergências de interpretações em certos passos do poema. É que certas palavras, embora de sentidos denotativos vulgaríssimos, carregam-se no contexto, de conotações imprevistas, originando a plurissignificação e as dúvida
Assim, o verso "Dizem que finjo ou minto" tem aqui o sentido que lhe atribuem os que dizem que falta à verdade, sentido depreciativo que corresponde ao uso popular verificável por exemplo na expressão pessoa fingida". Por isso, apressa-se a negar esse sentido ao fingimento: "Eu simplesmente sinto com imaginação". O fingimento do poeta é pois o trabalho mental que tudo transfigura, por meio da imaginação. A sua emoção está nessa transfiguração imaginativa onde floresce a poesia. Quando dice que não usa o coração, quer dizer que o centro, o fulcro, da grande poesia, não está nas sensações (no coração), mas na inteligência (imaginação).
A metáfora (comparação) centrada em terraço é admiravelmente expressiva da fronteira, dificil de ultrapassar, entre o mundo sensível e o mundo intelectual. O verdadeiro poeta é o priveligiado que é capaz de ultrapassar essa fronteira, para usufruir da beleza que lá se encontra. Ao notarmos a expressividade do adjectivo “linda”, notemos também como o poeta recupera para o campo poético a banalidade significtativa da palavra coisa, fazendo-a expressiva daquilo que é indefinível, do inefável, do que fica para lá do terraço, na região onde se gera a poesia.
Fernando Pessoa, como poeta genial, escrevia bem metido nesse mundo misterioso da poesia, livre do seu “enleio”, que aponta para a prisão que é o mundo sensível. Como é natural num texto de índole teórica, predominam os substantivos e os verbos, que se encontram no presente. De destacar a importância do verbo "ser" a significar existir na expressão "sério do que não é". "O que não é" é o mundo sensível e o que é, o mundo inteligível, one se move na elaboração dos seus poemas.
São importantes os substantivos coração e enleio (a contar com mundo sensível); e imaginação, coisa a conotar com o mundo intelígivel: “terraço” conota ao mesmo tempo com os dois, dado que estabelece a separação entre ambos. Há apenas três adjectivos cuja expressividade já comentamos atrás: linda, livre, sério.
Quanto à forma do poema, é usado o verso curto de seis sílabas, num poema de fundo pesado, onde é exposta uma teoria de criação poética. Para que o discurso lógico flua mais livremente é usado o transporte ou encavalgamento. O esquema rimático é igual nas três estrofes, apresenta rimas cruzadas e emparelhadas: ABABB. Há nas rimas variedade de sons predominando nas duas primeiras estrofes os sons nasais e fechados e alternando, na última, os fechados com os abertos, sugerindo, talvez o esclarecimento final do problema focado. São igualmente de salientar os vários casos de aliteração.

Fingimento poético ( texto de autor)

Prof: Euclides Janeiro, 2008


O próprio poeta explica-nos em alguns dos seus poemas , em poucas palavras, o seu modo de expressar as ideias e de fazer poesia.
Para nós, que lemos e tentamos analisar as criações poéticas de Pessoa, cada poema e cada linha afiguram-se-nos como uma pura mentira e um fingimento. È que nós vivemos num outro mundo de referências, possuímos outro modo de pensar e de actuar, e assim somos incapazes de sentir “ simplesmente com a imaginação”. Conforme capatamos a realidade, assim reagimos com o coração, dando primazia às emoções e sentimentos que essa realidade desperta em nós. Somos incapazes de recriar outros cenários que, de uma maneira completamente diferente e inovadora, transmitam aos outros as nossas sensações.
Fernando Pessoa optou por outro estratagema, concentrando-se na sua inteligência e imaginação criadora, transporta-nos para um outro universo e coloca-nos nuito acima de nós e da nossa forma vulgar e estereotipada forma de escrever. O poeta ascendeu a um terraço donde pode divisar uma paisagem mais ampla e descobrir aspectos novos na própria paisagem que nós vemos.
O papel do artista é o de chegar mais longe, é o de fotografar para além do sensacionismo e percepcionismo imediato que temos das realidades, é, enfim, o de pintar com outras tintas vivas e sugestivas.
Tantas vezes nos debruçamos sobre poemas de Pessoa e achamos absurdos, impertinentes indecifráveis. Esquecemo-nos de que o poeta é alguém que, colocado a nossa lado, mas numa posição superior à nossa, tem uma visão contempladora de outros horizontes, de outras faces ocultas da realidade que vemos e que analisa com outros instrumentos aquilo que vê e sente, ou talvez não.... .
Se é verdade que as linguagens poéticas, metafóricas e simbólicas estruturam as obras literárias sobre a falsidade e fingimento, não é menos verdade que é disso que elas se alimentam. Talvez na nossa ideia e no nosso raciocínio, não encontremos correspondências que nos pareçam sensatas. Contudo, para desfazermos esse nevoeiro, será necessário, pelo menos, subir alguns degraus daquele terraço lindo. É difícil chegarmos ao viso do Olimpo da arte, pois que aí só há lugar para iniciados, adeptos e mestres. Se desejamos tocar mais que o cimo da copa das árvores, torna-se imperioso que sintamos outras coisas para desvendar os mistérios da arte.
Queremos contemplar a “ paisagem” distante? Para tal é preciso transformar as sensações exteriores em interiores e abstractas.

Figimento poético (teoria)

O fingimento poético

(http://www.prof2000.pt/users/jsafonso/Port/pessoa_orto.htm)


A poesia de Fernando Pessoa Ortónimo aborda temas como o cepticismo e o idealismo, a dor de pensar, a obsessão da análise da lucidez, o eu fragmentário, a melancolia, o tédio, a angústia existencial , a inquietação perante o enigma indecifrável do mundo, a nostalgia do mundo maravilhoso da infância.
O Fingimento poético é inerente a toda a composição poética do Ortónimo e surge como uma nova concepção de arte.
A poesia de Pessoa é fruto de uma despersonalização, os poemas “Autopsicobiografia” e “ Isto” pretendem transmitir uma fragilidade estrutural ,todavia, escondem uma densidade de conceitos.
O Ortónimo conclui que o poeta é um fingidor : “ finge tão completamente / que chega a pensar se é dor/ a dor que deveras sente/”, bem como um racionalizador de sentimentos.
A expressão dos sentimentos e sensações intelectualizadas são fruto de uma construção mental, a imaginação impera nesta fase de fingimento poético. A composição poética resulta de um jogo lúdico entre palavras que tentam fugir ao sentimentalismo e racionalização. “ e assim nas calhas de roda/ gira a entreter a razão / esse comboio de corda/ que é o coração”.
O pensamento e a sensibilidade são conceitos fundamentais na ortonímia, o poeta brinca intelectualmente com as emoções, levando-as ao nível da arte poética.
O poema resulta ,então ,de algo intelectualizado e pensado .
O fingimento está ,pois, em toda arte de Pessoa. O Saudosismo que se encontra na obra de Pessoa não é mais do que “vivências de estados imaginários” : “ Eu simplesmente sinto/ com a imaginação/ não uso o coração”.
Fernando Pessoa Ortónimo

A poesia de Fernando Pessoa aborda como cepticismo e o idealismo, a dor de pensar, a personalidade fragmentária, a melancolia e o tédio.
Na perspectiva do poeta, o mundo não é o que as suas percepções lhe transmitem, daí que a sua recepção perante este seja de estranheza e espanto.
O próprio enigma de existir, do “haver ser”, perturba-o de tal modo que ele próprio se considera o reflexo de alguém, de outro, que não conhece, “é a sombra”: “Eu vejo-me e estou sem mim, / Conheço-me e não sou eu”.
Pessoa tem consciência que tudo está sujeito a mudança, simbolizando o rio “a caducidade fragmentária da vida humana”, e, tal como as águas passam e não voltam, também a vida não tem retorno. O passado já não existe, o futuro está a chegar e o presente “não passa de uma divisória ideal” entre o passado e o futuro. Deste modo, o poeta não tem consciência da “sua personalidade una”, pois ela não passa de um “eu fragmentário”. O que ele foi no passado já não o é no presente, é “outro totalmente desconhecido”. Por isso, é um fingidor, que “finge tão completamente, / que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.”
Pessoa ortónimo, tal como o seu heterónimo Ricardo Reis, sofre intensamente a terrível “dor de pensar”: “Dói-me até onde penso/ E a dor é já de pensar”. Pelo facto de ser dotado de uma inteligência hipertrofiada, o poeta anseia a inconsciência, inveja as pedras, as árvores, o gato que brinca “na rua/ Como se fosse na cama”. Também no poema “Ela canta pobre ceifeira…”, Pessoa aspira à vida instintiva, desejando “poder ser tu, sendo eu! /Ter a tua alegre inconsciência, /E a consciência disso!”. Sendo assim, o ideal seria ser “consciente inconsciente”; por isso o poeta encontra-se entre a consciência e a inconsciência, entre a sinceridade e o fingimento.
No dizer de Jacinto Prado Coelho, como o pensar esfria o sentir, a alegria perfeita pertence a este mundo, só imaginada.
O “Menino de sua mãe” sente cansaço, tédio, inquietação, sedução pelo mundo fantástico da infância: “E toda aquela infância/ Que não tive me vem, /Numa onda de alegria/ Que não foi de ninguém”, adoptando, para o sugerir, reminiscências de contos de fadas, de cantigas de embalar e toadas de romanceiro: “Conta-me contos, ama… / Todos os contos são/ Esse dia e jardim e a dama/ Que eu fui nessa solidão…” a infância triste de pessoa transformou-o num ser que não é capaz de se entregar ao outro. Desconhecendo, então, a vida afectiva, renuncia a todo o amor sensível e, quando ama, fá-lo apenas em sonhos, idealizando-o.

Para uma síntese de conhecimentos

Temáticas:
profunda lucidez, inteligência intuitiva
«dor de pensar»
intelectualização do sentir / «teoria de fingimento»
obsessão da análise
solidão interior, angústia existencial, melancolia, resignação
tédio, náusea, desencontro com os outros, desamparo
inquietação perante o enigma indecifrável do mundo
fragmentação do eu, perda de identidade
procura, absurdo
ansiedade
nostalgia do bem perdido, do mundo fantástico da infância

Modernismo

Entende-se por “ Modernismo” um movimento estético, em que a literatura surge associada às artes plásticas e por ela influenciada, empreendido pela geração de Fernando Pessoa (n.1888), Sá Carneiro (n.1890) e Almada Negreiros (n.1893), sob o influxo da arte e literatura mais avançadas na Europa, ou em uníssono com elas. (...)
Foi em 1913, em Lisboa, que se constituiu o núcleo do grupo modernista. Pessoa e Sá Carneiro haviam colaborado na Águia, órgão do Saudosismo, mas iam agora realizar-se em oposição a este, desejosos como estavam de imprimir ao ambiente literário português um tom europeu, audaz e requintado, que faltava à poesia saudosista. Nesse ano de 1913, Sá Carneiro escreve o poema Dispersão e no ano seguinte Pessoa compõe o poema Paúis, escola efémera, publicado na Renascença, Pessoa e Almada travam relações graças à primeira exposição de caricaturas por este efectuada e criticada por aquele nas colunas da Águia. Em 1914, os nossos artistas, estimulados pela aragem de actualidade vinda de Paris com Sá Carneiro e Santa Rita Pintor, adepto do Futurismo, faziam o seu projecto que Luís da Silva Ramos (Luís de Montalvor) acabava de trazer do Brasil: o lançamento de uma revista luso-brasileira Orpheu. Desta revista saíram com efeito dois números (os únicos publicados em 1915), incluíam a participação de Montalvor, Pessoa, Sá – Carneiro, Almada, Cortes – Rodrigues e Raul Leal; dos brasileiros Ronaldo de Carvalho, Eduardo Guimarães e Ângelo de Lima, internado no manicómio, de Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa. Feitos, em parte, para irritar o burguês, para escandalizar, estes dois números alcançaram o fim proposto, tornando-se alvo de troça dos jornais, mas a empresa não pode prosseguir por falta de dinheiro. Em Abril de 1916, o suicídio de Sá Carneiro privou o grupo dum dos seus grandes valores. Entretanto, a geração modernista continuou a manifestar-se quer em publicações individuais, Exílio, quer noutras revistas. Publica-se o movimento “sensacionista” na Centauro (1916), textos de Montalvor “ Tentativa de ensaio sobre a decadência, Pessoa publica uma série de sonetos, Raul Leal “Portugal Futurista” em 1917, com reproduções de quadros de Santa Rita Pintor e Sousa Cardoso o “ manifesto de Marinetti” (...) foi também em 1917 que Almada organizou no teatro República, hoje São Luís, uma escandalosa sessão futurista, cujos textos aquela revista exara. Já com um modernismo serenado na Contemporânea, em 1923, Pessoa louva o helenismo de António Botto e Álvaro de Campos discorda dos juízos estéticos de Pessoa, e Athena, em 1924-25, dirigida por Pessoa e Ruy Vaz, onde saíram os “ apontamentos para uma estética não-aristotélica” de Álvaro de Campos. A Presença, aparecida em 1927, não só deu a conhecer e valorizou criticamente as obras dos homens de Orpheu, como lhes herdou o espírito.
De facto, unidos por um espírito, digamos, de geração (desejo de renovação atrevida, europeísmo, gosto do paradoxo e da blague, da verde ironia e do sarcasmo, os três modernistas realizaram-se com independência, por isso mesmo, senhores de personalidades vincadas.
Mais ainda: ao tentarmos compreender a geração, não devemos parar nos aspectos mais aparentes, mistificação, excentricidade e ironia, ou devemos procurar o sentido grave que a simulação, o próprio jogo literário que podiam ter em Portugal e no resto do mundo. O momento era de crise aguda, de dissolução de um mundo de valores – dissolução que, aliás, continua a processar-se. Os artistas reagiam ao cepticismo total pela agressão, pelo sarcasmo, pelo exercício gratuito, pela sondagem, a um tempo lúcida e inquieta, das regiões virgens e indefinidas do inconsciente, ou então pela entrega à vertigem das sensações, à grandeza inumana das máquinas, das técnicas, da vida gregária das cidades.

“ Modernismo”, in Dicionário das literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira,
Org. por Jacinto Prado Coelho,
Liv. Figueirinhas, Porto, pp.490-493 (com supressões)
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Muito em síntese, pode ver-se a poesia portuguesa dos últimos cento e cinquenta anos dividida em três largos períodos, cada um deles inaugurado por um movimento de vanguarda e constituído, depois, por fases semelhantes- paralelas ou sucessivas- de afirmação, correcção e dissolução do próprio movimento inicial. As datas inaugurais seriam precisamente 1825- o ano da publicação do poema Camões, de Garrett-, 1865- o ano da publicação das Odes Modernas, de Antero- e 1915- o ano do aparecimento do Orpheu, com Fernando Pessoa à testa do movimento modernista. Tal como Garrett fora a figura central do vanguardismo romântico de 1825 e antero o vulto polarizador do vanguardismo realista da geração de 70, Fernando Pessoa é o corifeu do vanguardismo de 1915. Entre as personalidades e os destinos destes três poetas- que não foram apenas poetas, mas também espíritos mais lúcidos e profundamente interessados pelos problemas da Cultura- , e a despeito das inegáveis diferenças que os separam, muitos são, todavia, os pontos de contacto que ante a nossa atenção ganham relevo: Garrett tinha 26 anos ao publicar o poema Camões; Antero, 23, ao editar as Odes Modernas, e Pessoa, 26, ao lançar-se na aventura do Orpheu. Dir-se-ia desde já, que há uma idade sobremodo propícia- ao redor dos 25 anos, no limiar portanto da maturidade- para se desempenhar, voluntariamente ou não, o papel de condottiere literário. Por outro lado, morrem os três à volta dos 50 anos- Garrett com 55, Antero com 49, Pessoa com 47-, sem assistir nenhum deles à completa dissolução dos vanguardismos que tinham iniciado. Dir-se-ia, agora, que o Destino desejou poupá-los a semelhante espectáculo, ou impedir que eles próprios nele participassem. Muito mais importantes, porém, do que estes dados cronológicos são determinados aspectos íntimos, que por igual os caracterizam.
Trata-se, com efeito, de três personalidades contraditórias, em cujo foro interior se debatiam antagónicas forças- as quais, por seu turno, dramaticamente, se exprimiram nas obras respectivas e nas respectivas actividades.

David Mourão Ferreira, Nos Passos de Pessoa, 1ª ed, Lisboa, Presença, 1988
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É nas artes plásticas, com Amadeu de Sousa Cardoso( hoje reconhecido como um dos importantes pioneiros da escola de Paris), com Santa- Rita Pintor ( como assinava quem foi mais um dos aventureiros das artes naquele tempo, que um artista), e com Almada Negreiros ( cuja exposição de caricaturas, em 1913, Fernando Pessoa saudou num artigo publicado na Águia), que o vanguardismo primeiro toca os Portugueses, em 1912-13, cerca de um ano antes de Pessoa e Sá- Carneiro se decidirem por um movimento autónomo. Em Abril e em Julho de 1915, são publicados dois números da revista Orpheu, que foram o lançamento digamos oficial e polémico do vanguardismo. Um terceiro número ficou em provas por dificuldades várias. Aqueles dois números produziram, nos meios intelectuais e jornalísticos, precisamente os efeitos que os promotores desejavam. Conta-se que, estando As- Carneiro já no expresso que partia para uma das suas idas a Paris, chegou Pessoa correndo com um jornal na mão, em que um ilustre psiquiatra da época, que havia sido entrevistado sobre “ os do Orpheu”, gravemente os declarava doidos!- E Sá – Carneiro, debruçado na janela do comboio em andamento, e arrebatando o jornal, exclamou: - Ah diz? Então vencemos!
Não tinham vencido. E não se pode dizer que ainda hoje a vitória deles seja completa, apesar de ambos terem entrado para o panteão selecto da grande poesia. Mas tinham realmente, com um choque que hoje nos parece menor do que terá sido, inaugurado uma época nova da poesia portuguesa, e um padrão de exigência estética e de audácia intelectual, como em poucas mutações semelhantes terá acontecido. Depois de 1915, (..) nunca mais foi possível em Portugal que um poeta se alheasse de padrões vanguardistas, sem correr o risco de ser medíocre, passadista, inculto, provinciano, de baixo nível de cultura e de gosto. O que evidentemente não significa que, depois de 1915, muitos poetas de alto mérito não tenham corrido esse risco....

Jorge de Sena, Estudos de Literatura Portuguesa- III, Lisboa, Edições 70, 1988

Biografia Fernando Pessoa

BIOGRAFIA DE FERNANDO PESSOA
(feita pelo próprio poeta)

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio nº4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório), em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. (...) Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações. O que de livros ou folhetos, considera como válidos, é o seguinte: 35 Sonnets (em inglês), 1918; English Poems I-II e English Poems III (em inglês também), 1922, e o livro Mensagem, 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria de «Poemas».

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1993, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês, na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes votaria, ainda com pena, pela República. Conservador de estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas a Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida a infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação.»

Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo destas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater sempre, e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Lisboa, 30 de Março de 1935

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Pessoa- Ortónimo à vol d'oiseau

FERNANDO PESSOA- ORTÓNIMO

POETA SAUDOSISTA do grupo da Àguia e da Renascença Portuguesa. ( O Saudosísmo metafísico de Teixeira de Pacoais)
No primeiro número da Águia, Pascoais tenta congregar todos os artistas para renovar Portugal através do sentimento e da suadade. Em Águia, Pessoa chega a escrever : « Os poetas saudosistas são os porta- bandeiras do pensamento da futura civilização europeia.»

POETA DE “ MENSAGEM”, esse livro simultaneamente histórico e esotérico e ocultista.
“ Mensagem”, sobre certo aspecto, está na linha do saudosismo e integra-se numa fase a que talvez se possa dar o nome de Nacionalista. « Sou nacionalista místico, o social não entra na arte, um poeta não precisa de ter percepção da vida social» afirma Pessoa. Este nacionalísmo místico faz com que os leitores vlgares leiam “ Mensagem” sem perceberemm dificuldades, embora toda ela seja na linguagem e nos números, uma obra hermética, de cunho esotérico, de mistério da Pátria, do Homem e do Universo.
Segundo Vieira, a figura do quinto império seria Sidónio Pais e não D. João IV. O Infante D. Henrique surge investido por Deus, na solidão de uma falésia divina, espécie de Olimpo lusitano. Segundo parece, Sagres, do latim sacru e a janena de Lagos sabem a mito.
O neo-sebastianismo de “ Mensagem” faz com que a nossa História acabe em D. Sebastião, no nevoeiro de uma incerteza que só o mestre do ocultismo poderá remover.

POETA MODERNISTA que deserta da Águia e funda Orpheu. Como sabemos este Modernismo distingue-se pelos seguintes Ismos: Paulismo: misto de saudosismo e decadentismo, Interseccionismo: Chuva Oblíqua e suas implicações cubistas, Sensacionismo: intelectualização e descasque de toda a crosta imediata e material da sensação, Absurismo, Existencialismo: segundo os quais o Homem e o Mundo são absurdos e não é possível atingir a felicidade, Hora Absurda, Opiário.

POETA DO LIRISMO POPULAR expresso nas suas quadras ao gosto popular, cheias de egotismo e em poemas como: “Sino da minha Aldeia” , “A Lavadeira do Tanque”.

POETA DA INFÂNCIA A evocação da infância é o único refúgio do poeta: “ Natal”, “ Menino da sua Mãe”, “Chuva Oblíqua”, “Lisbon Revisited” e muitos outros poemas descansam nela.

POETA DRAMÁTICO E DOS POEMAS INGLESES Os primeiros passos de Pessoa na poesia foram na língua inglesa. São 35 sonetos, inscrições epitáfios e o poema “ Antinous” ou “Antinoo”. Não esquecer “ O Fausto”, “ Na Floresta do Alheamento”, “ O Marinheiro”, a tradução de “ O Corvo” de Edgar Allan Poe, “Hino a Pã”, “ Catarina a Camões”.

POETA DAS PÁGINAS ÍNTIMAS E DE AUTO-INTERPRETAÇÃO , dois volumes onde está recolhida a sua teoria literária e muitas outras explicações acerca de projectos, de obras, críticas etc....

POETA DA ESPERANÇA-DESILUSÃO: « Tudo quanto sonhei tenho perdido antes de o ter»

POETA DA MÁGOA, DO DESESPERO, DO CANSAÇO, DO FATALISMO, DA NÁUSEA E TÉDIO, DA EFEMERIDADE DA VIDA:« Meu coração é um pórtico partido», « Cansa ser, sentir dói, pensar destrói», « Náusea! Vontade de nada! Existir por não morrer» « Dorme que a vida é nada!, Dorme que tudo é vazio!

POETA DA CONTRADIÇÃO ENTRE O PENSAR E O SENTIR: « Todos temos que vivemos/ uma vida que é vivida/ e outra vida que é pensada/ e a única vida que temos/ é essa que é dividida/ entre a verdadeira e a errada»

POETA DO PARADOXO EXISTENCIAL PROVENIENTE DO CHOQUE ENTRE A VONTADE E O PENSAMENTO: « Tudo o que faço e medito/ fica sempre a metade/ querendo quero o infinito/ fazendo nada é verdade/ Que nojo de mim me fica/ a olhar para o que faço»

POETA DA DÚVIDA SOBRE QUEM É: « Sabes que sou? Eu não sei» « Grandes mistérios habitam o limiar do meu Ser» « Não sei quantas almas tenho/ cada momento mudei/ Nunca me vi nem achei/ de tanto ser só tenho alma/ e quem tem alma não tem calma (...) Por isso vou lendo/ como páginas, meu ser/ O que segue não prevendo/ O que passou a esquecer/ noto á margem do que li/ o que julguei que senti/ Releio e digo: Fui eu?/ Deus sabe porque o escreveu.»

POETA DO OCULTISMO: Pessoa dedica-se ao estudo da astrologia, da teosofia e de outras disciplinas esotéricas. Possuía faculdades telepáticas e mediúnicas, reveladas por si a Sá Carneiro.
Relacionou-se com sociedades secretas. O seu apreço pela filosofia Rosacruz pode ver-se no poema “ No Túmulo de Christian Rosenkreuz”