domingo, 8 de fevereiro de 2009

Modernismo

Entende-se por “ Modernismo” um movimento estético, em que a literatura surge associada às artes plásticas e por ela influenciada, empreendido pela geração de Fernando Pessoa (n.1888), Sá Carneiro (n.1890) e Almada Negreiros (n.1893), sob o influxo da arte e literatura mais avançadas na Europa, ou em uníssono com elas. (...)
Foi em 1913, em Lisboa, que se constituiu o núcleo do grupo modernista. Pessoa e Sá Carneiro haviam colaborado na Águia, órgão do Saudosismo, mas iam agora realizar-se em oposição a este, desejosos como estavam de imprimir ao ambiente literário português um tom europeu, audaz e requintado, que faltava à poesia saudosista. Nesse ano de 1913, Sá Carneiro escreve o poema Dispersão e no ano seguinte Pessoa compõe o poema Paúis, escola efémera, publicado na Renascença, Pessoa e Almada travam relações graças à primeira exposição de caricaturas por este efectuada e criticada por aquele nas colunas da Águia. Em 1914, os nossos artistas, estimulados pela aragem de actualidade vinda de Paris com Sá Carneiro e Santa Rita Pintor, adepto do Futurismo, faziam o seu projecto que Luís da Silva Ramos (Luís de Montalvor) acabava de trazer do Brasil: o lançamento de uma revista luso-brasileira Orpheu. Desta revista saíram com efeito dois números (os únicos publicados em 1915), incluíam a participação de Montalvor, Pessoa, Sá – Carneiro, Almada, Cortes – Rodrigues e Raul Leal; dos brasileiros Ronaldo de Carvalho, Eduardo Guimarães e Ângelo de Lima, internado no manicómio, de Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa. Feitos, em parte, para irritar o burguês, para escandalizar, estes dois números alcançaram o fim proposto, tornando-se alvo de troça dos jornais, mas a empresa não pode prosseguir por falta de dinheiro. Em Abril de 1916, o suicídio de Sá Carneiro privou o grupo dum dos seus grandes valores. Entretanto, a geração modernista continuou a manifestar-se quer em publicações individuais, Exílio, quer noutras revistas. Publica-se o movimento “sensacionista” na Centauro (1916), textos de Montalvor “ Tentativa de ensaio sobre a decadência, Pessoa publica uma série de sonetos, Raul Leal “Portugal Futurista” em 1917, com reproduções de quadros de Santa Rita Pintor e Sousa Cardoso o “ manifesto de Marinetti” (...) foi também em 1917 que Almada organizou no teatro República, hoje São Luís, uma escandalosa sessão futurista, cujos textos aquela revista exara. Já com um modernismo serenado na Contemporânea, em 1923, Pessoa louva o helenismo de António Botto e Álvaro de Campos discorda dos juízos estéticos de Pessoa, e Athena, em 1924-25, dirigida por Pessoa e Ruy Vaz, onde saíram os “ apontamentos para uma estética não-aristotélica” de Álvaro de Campos. A Presença, aparecida em 1927, não só deu a conhecer e valorizou criticamente as obras dos homens de Orpheu, como lhes herdou o espírito.
De facto, unidos por um espírito, digamos, de geração (desejo de renovação atrevida, europeísmo, gosto do paradoxo e da blague, da verde ironia e do sarcasmo, os três modernistas realizaram-se com independência, por isso mesmo, senhores de personalidades vincadas.
Mais ainda: ao tentarmos compreender a geração, não devemos parar nos aspectos mais aparentes, mistificação, excentricidade e ironia, ou devemos procurar o sentido grave que a simulação, o próprio jogo literário que podiam ter em Portugal e no resto do mundo. O momento era de crise aguda, de dissolução de um mundo de valores – dissolução que, aliás, continua a processar-se. Os artistas reagiam ao cepticismo total pela agressão, pelo sarcasmo, pelo exercício gratuito, pela sondagem, a um tempo lúcida e inquieta, das regiões virgens e indefinidas do inconsciente, ou então pela entrega à vertigem das sensações, à grandeza inumana das máquinas, das técnicas, da vida gregária das cidades.

“ Modernismo”, in Dicionário das literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira,
Org. por Jacinto Prado Coelho,
Liv. Figueirinhas, Porto, pp.490-493 (com supressões)
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Muito em síntese, pode ver-se a poesia portuguesa dos últimos cento e cinquenta anos dividida em três largos períodos, cada um deles inaugurado por um movimento de vanguarda e constituído, depois, por fases semelhantes- paralelas ou sucessivas- de afirmação, correcção e dissolução do próprio movimento inicial. As datas inaugurais seriam precisamente 1825- o ano da publicação do poema Camões, de Garrett-, 1865- o ano da publicação das Odes Modernas, de Antero- e 1915- o ano do aparecimento do Orpheu, com Fernando Pessoa à testa do movimento modernista. Tal como Garrett fora a figura central do vanguardismo romântico de 1825 e antero o vulto polarizador do vanguardismo realista da geração de 70, Fernando Pessoa é o corifeu do vanguardismo de 1915. Entre as personalidades e os destinos destes três poetas- que não foram apenas poetas, mas também espíritos mais lúcidos e profundamente interessados pelos problemas da Cultura- , e a despeito das inegáveis diferenças que os separam, muitos são, todavia, os pontos de contacto que ante a nossa atenção ganham relevo: Garrett tinha 26 anos ao publicar o poema Camões; Antero, 23, ao editar as Odes Modernas, e Pessoa, 26, ao lançar-se na aventura do Orpheu. Dir-se-ia desde já, que há uma idade sobremodo propícia- ao redor dos 25 anos, no limiar portanto da maturidade- para se desempenhar, voluntariamente ou não, o papel de condottiere literário. Por outro lado, morrem os três à volta dos 50 anos- Garrett com 55, Antero com 49, Pessoa com 47-, sem assistir nenhum deles à completa dissolução dos vanguardismos que tinham iniciado. Dir-se-ia, agora, que o Destino desejou poupá-los a semelhante espectáculo, ou impedir que eles próprios nele participassem. Muito mais importantes, porém, do que estes dados cronológicos são determinados aspectos íntimos, que por igual os caracterizam.
Trata-se, com efeito, de três personalidades contraditórias, em cujo foro interior se debatiam antagónicas forças- as quais, por seu turno, dramaticamente, se exprimiram nas obras respectivas e nas respectivas actividades.

David Mourão Ferreira, Nos Passos de Pessoa, 1ª ed, Lisboa, Presença, 1988
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É nas artes plásticas, com Amadeu de Sousa Cardoso( hoje reconhecido como um dos importantes pioneiros da escola de Paris), com Santa- Rita Pintor ( como assinava quem foi mais um dos aventureiros das artes naquele tempo, que um artista), e com Almada Negreiros ( cuja exposição de caricaturas, em 1913, Fernando Pessoa saudou num artigo publicado na Águia), que o vanguardismo primeiro toca os Portugueses, em 1912-13, cerca de um ano antes de Pessoa e Sá- Carneiro se decidirem por um movimento autónomo. Em Abril e em Julho de 1915, são publicados dois números da revista Orpheu, que foram o lançamento digamos oficial e polémico do vanguardismo. Um terceiro número ficou em provas por dificuldades várias. Aqueles dois números produziram, nos meios intelectuais e jornalísticos, precisamente os efeitos que os promotores desejavam. Conta-se que, estando As- Carneiro já no expresso que partia para uma das suas idas a Paris, chegou Pessoa correndo com um jornal na mão, em que um ilustre psiquiatra da época, que havia sido entrevistado sobre “ os do Orpheu”, gravemente os declarava doidos!- E Sá – Carneiro, debruçado na janela do comboio em andamento, e arrebatando o jornal, exclamou: - Ah diz? Então vencemos!
Não tinham vencido. E não se pode dizer que ainda hoje a vitória deles seja completa, apesar de ambos terem entrado para o panteão selecto da grande poesia. Mas tinham realmente, com um choque que hoje nos parece menor do que terá sido, inaugurado uma época nova da poesia portuguesa, e um padrão de exigência estética e de audácia intelectual, como em poucas mutações semelhantes terá acontecido. Depois de 1915, (..) nunca mais foi possível em Portugal que um poeta se alheasse de padrões vanguardistas, sem correr o risco de ser medíocre, passadista, inculto, provinciano, de baixo nível de cultura e de gosto. O que evidentemente não significa que, depois de 1915, muitos poetas de alto mérito não tenham corrido esse risco....

Jorge de Sena, Estudos de Literatura Portuguesa- III, Lisboa, Edições 70, 1988

Biografia Fernando Pessoa

BIOGRAFIA DE FERNANDO PESSOA
(feita pelo próprio poeta)

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio nº4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório), em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. (...) Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações. O que de livros ou folhetos, considera como válidos, é o seguinte: 35 Sonnets (em inglês), 1918; English Poems I-II e English Poems III (em inglês também), 1922, e o livro Mensagem, 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria de «Poemas».

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1993, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês, na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes votaria, ainda com pena, pela República. Conservador de estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas a Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida a infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação.»

Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo destas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater sempre, e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Lisboa, 30 de Março de 1935

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Pessoa- Ortónimo à vol d'oiseau

FERNANDO PESSOA- ORTÓNIMO

POETA SAUDOSISTA do grupo da Àguia e da Renascença Portuguesa. ( O Saudosísmo metafísico de Teixeira de Pacoais)
No primeiro número da Águia, Pascoais tenta congregar todos os artistas para renovar Portugal através do sentimento e da suadade. Em Águia, Pessoa chega a escrever : « Os poetas saudosistas são os porta- bandeiras do pensamento da futura civilização europeia.»

POETA DE “ MENSAGEM”, esse livro simultaneamente histórico e esotérico e ocultista.
“ Mensagem”, sobre certo aspecto, está na linha do saudosismo e integra-se numa fase a que talvez se possa dar o nome de Nacionalista. « Sou nacionalista místico, o social não entra na arte, um poeta não precisa de ter percepção da vida social» afirma Pessoa. Este nacionalísmo místico faz com que os leitores vlgares leiam “ Mensagem” sem perceberemm dificuldades, embora toda ela seja na linguagem e nos números, uma obra hermética, de cunho esotérico, de mistério da Pátria, do Homem e do Universo.
Segundo Vieira, a figura do quinto império seria Sidónio Pais e não D. João IV. O Infante D. Henrique surge investido por Deus, na solidão de uma falésia divina, espécie de Olimpo lusitano. Segundo parece, Sagres, do latim sacru e a janena de Lagos sabem a mito.
O neo-sebastianismo de “ Mensagem” faz com que a nossa História acabe em D. Sebastião, no nevoeiro de uma incerteza que só o mestre do ocultismo poderá remover.

POETA MODERNISTA que deserta da Águia e funda Orpheu. Como sabemos este Modernismo distingue-se pelos seguintes Ismos: Paulismo: misto de saudosismo e decadentismo, Interseccionismo: Chuva Oblíqua e suas implicações cubistas, Sensacionismo: intelectualização e descasque de toda a crosta imediata e material da sensação, Absurismo, Existencialismo: segundo os quais o Homem e o Mundo são absurdos e não é possível atingir a felicidade, Hora Absurda, Opiário.

POETA DO LIRISMO POPULAR expresso nas suas quadras ao gosto popular, cheias de egotismo e em poemas como: “Sino da minha Aldeia” , “A Lavadeira do Tanque”.

POETA DA INFÂNCIA A evocação da infância é o único refúgio do poeta: “ Natal”, “ Menino da sua Mãe”, “Chuva Oblíqua”, “Lisbon Revisited” e muitos outros poemas descansam nela.

POETA DRAMÁTICO E DOS POEMAS INGLESES Os primeiros passos de Pessoa na poesia foram na língua inglesa. São 35 sonetos, inscrições epitáfios e o poema “ Antinous” ou “Antinoo”. Não esquecer “ O Fausto”, “ Na Floresta do Alheamento”, “ O Marinheiro”, a tradução de “ O Corvo” de Edgar Allan Poe, “Hino a Pã”, “ Catarina a Camões”.

POETA DAS PÁGINAS ÍNTIMAS E DE AUTO-INTERPRETAÇÃO , dois volumes onde está recolhida a sua teoria literária e muitas outras explicações acerca de projectos, de obras, críticas etc....

POETA DA ESPERANÇA-DESILUSÃO: « Tudo quanto sonhei tenho perdido antes de o ter»

POETA DA MÁGOA, DO DESESPERO, DO CANSAÇO, DO FATALISMO, DA NÁUSEA E TÉDIO, DA EFEMERIDADE DA VIDA:« Meu coração é um pórtico partido», « Cansa ser, sentir dói, pensar destrói», « Náusea! Vontade de nada! Existir por não morrer» « Dorme que a vida é nada!, Dorme que tudo é vazio!

POETA DA CONTRADIÇÃO ENTRE O PENSAR E O SENTIR: « Todos temos que vivemos/ uma vida que é vivida/ e outra vida que é pensada/ e a única vida que temos/ é essa que é dividida/ entre a verdadeira e a errada»

POETA DO PARADOXO EXISTENCIAL PROVENIENTE DO CHOQUE ENTRE A VONTADE E O PENSAMENTO: « Tudo o que faço e medito/ fica sempre a metade/ querendo quero o infinito/ fazendo nada é verdade/ Que nojo de mim me fica/ a olhar para o que faço»

POETA DA DÚVIDA SOBRE QUEM É: « Sabes que sou? Eu não sei» « Grandes mistérios habitam o limiar do meu Ser» « Não sei quantas almas tenho/ cada momento mudei/ Nunca me vi nem achei/ de tanto ser só tenho alma/ e quem tem alma não tem calma (...) Por isso vou lendo/ como páginas, meu ser/ O que segue não prevendo/ O que passou a esquecer/ noto á margem do que li/ o que julguei que senti/ Releio e digo: Fui eu?/ Deus sabe porque o escreveu.»

POETA DO OCULTISMO: Pessoa dedica-se ao estudo da astrologia, da teosofia e de outras disciplinas esotéricas. Possuía faculdades telepáticas e mediúnicas, reveladas por si a Sá Carneiro.
Relacionou-se com sociedades secretas. O seu apreço pela filosofia Rosacruz pode ver-se no poema “ No Túmulo de Christian Rosenkreuz”

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Teste " Avisos" António Vieira

ESCOLA SECUNDÁRIA RAINHA DONA LEONOR
12º Ano de escolaridade
Duração da prova: 90 minutos 3º teste
2008/2009( Janeiro) Prof: Euclides Rosa
PROVA ESCRITA DE PORTUGUÊS

(130 pontos)
I
ANTÓNIO VIEIRA
O céu ‘strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de formas e de visão,
Surge, prenúncio claro de luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
Mensagem, Pessoa

1. Transcreve duas expressões textuais que traduzam os elogios feitos a António Vieira, explicitando os motivos/ razões que os justificam.

2. Nas duas primeiras estrofes Vieira surge associado a céu.

2.1. Identifica o recurso estilístico que serve essa associação.

2.2. Explica, servindo-te da informação do texto, a intenção da mesma.

3. Caracteriza por palavras tuas a configuração que é feita do Quinto Império, justificando as tuas afirmações com expressões textuais.

4. Integre, justificando, este poema na estrutura global da Mensagem.

( 70 pontos)
II
B “Com a Mensagem Pessoa desejou que se recuperasse a memória mítica do passado português, um panteon imaginário que não foi possível reunir nos Jerónimos.”
Comente a frase acima transcrita, num texto expositivo-argumentativo entre 100 a 120 palavras, fundamentado em referências e juízos de leitura reveladores de conhecimento autêntico de três dos principais mitos de Mensagem.

Cenários de correcção
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1. Na verdade, há todo um discurso de elogio de António Vieira neste poema, mais concretamente pelas duas expressões: «Imperador da língua portuguesa / No imenso espaço seu de meditar».
Quanto ao primeiro, refere-se ao seu papel de educador e evangelizador no Brasil.
Relativamente ao segundo, refere-se ao carácter visionário que do profeta que prevê o quinto Império, e ao filósofo/pensador.

2.1. De facto, nas duas primeiras estrofes António Vieira surge associado metaforicamente ao céu, mais especificamente a partir dos versos: «Foi-nos um céu também» / «Constelado de formas e de visão».

2.2. Em primeiro lugar, há uma diferença de intenções na associação de António Vieira ao céu na primeira e segundas estrofes.
«Foi-nos um céu também», mostra a amplitude universal da cultura e língua portuguesa que António Vieira conseguiu.
Posteriormente a segunda associação aponta para a importância do céu e de religião na profecia do «Quinto Império».

3. A configuração do Quinto Império é toda ela feita com recurso a elementos relacionados com o tempo; meteorologia, clima.
Primeiramente na segunda estrofe associa-se a luar: «Surge, prenúncio claro de luar», mas na terceira estrofe é clarificado que não se trata de uma luz ofusca mas sim de uma luz etérea e clara como o dia: “... é luz do etéreo/ É um dia...”.
Finalmente, apresenta-se uma dimensão utópica deste «Quinto Império». Existe exclusivamente enquanto crença: «... amplo de desejo», é do domínio da ficção: «madrugada irreal», permitindo contudo à revitalização espiritual de Portugal: «Doira as margens do Tejo».

4. António Vieira é um dos Avisos, precedido de “Bandarra” e sucedido de “ Escrevo meu livro à beira mágoa”.
Internamente à terceira parte onde os “Avisos” se integram, “ O Encoberto”, são precedidas de “Símbolos” e segue-os os “Tempos”.
Toda a terceira parte da obra trata simbolicamente a morte e a possibilidade de renovação da Nação. Como tal D. Sebastião é metáfora do Estado da Nação.
Essa possibilidade de regresso mítico do rei é expressa pelo profeta António Vieira.

II

Sendo a “Mensagem” uma epopeia mítica e simbólica, justifica-se a comparação que é dela feita na frase com um “Phateon imaginário” uma vez que consegue reunir os heróis símbolos / nacionais.
Em primeiro lugar, convém lembrar que a própria estrutura tripartida: “ Brasão”, “ Mar Português” e “ Encoberto” é também simbólica, representando nascimento, vida, morte e renascimento nacional.
Entre os mais variados mitos, destacamos os de garantir a independência: “Conde D.Henrique”; “D: Afonso Henriques”; “Viriato”; “Nuno Alves Pereira” que são simbolicamente forças que permitiram a instituição de uma nacionalidade.
Posteriormente propo-mos outro mito significativo, o de concretização do Império material das descobertas. Curiosamente surge ainda na Idade Média como obra do acaso em D. Dinis que sem saber se tornou: “o plantador de naus levou”, mas é o próprio mito simbólico do carácter predador do povo português que enquanto cabeça do Grifo se torna o Infante D. Henrique.
Finalmente, completa-se na obra Império Nacional das descobertas, que se desfez: “… faltando cumprir-se Portugal”, numa dimensão espiritual que D. Sebastião poderá impulsionar.
E aí não serão especiarias, nem ouro, ou os escravos, mas sim a paz, a cultura e a língua que nos trarão riqueza e reconhecimento universal.

Teste " Símbolos" D. Sebastião

ESCOLA SECUNDÁRIA RAINHA DONA LEONOR
12º Ano de escolaridade
Duração da prova: 60 minutos 3º teste
2008/2009( Janeiro) Prof: Euclides Rosa
PROVA ESCRITA DE PORTUGUÊS

PRIMEIRO / D. SEBASTIÃO
'Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura
É Esse que regressarei.
Fernando Pessoa, Mensagem
(130 pontos)
Grupo I
1. Distingue no poema a alusão a D. Sebastião histórico e a D. Sebastião mítico, servindo-te de expressões textuais.

1.1 Explicite, justificando qual dos dois assume uma maior relevância no poema.

2. Relacione o uso do imperativo no início do poema com o verso final.

3. Justifique o messianismo que perpassa todo texto.

Grupo II
(70 pontos)
B
“ A Mensagem de Pessoa não enaltece heróis, nem acontecimentos reais; é a consciência de que o futuro do Homem e da Humanidade não se concretiza pelo materialismo mas numa dimensão espiritual, talvez utópica.” Prof. Euclides
Comente a frase acima transcrita, num texto expositivo-argumentativo entre 100 a 120 palavras, fundamentado em referências e juízos de leitura reveladores de conhecimento autêntico de Mensagem.
Cenários de resposta
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Grupo I
1. Num discurso protagonizado pelo próprio herói mítico, D. Sebastião, ( Vide 1ª pessoa do singular nas formas verbais e pronomes) o próprio confronta-se na sua dimensão histórica e mítica.
Relativamente à primeira, é a figura histórica conhecida pelo combate aos infiéis mouros em Alcácer- Quibir, onde perde a vida ou desaparece: “Caí no areal e na hora adversa/Que Deus concede aos seus”.
Quanto à dimensão mítica, que valoriza em detrimento da histórica, apresenta-se como o protegido eleito por Deus: “com Deus me guardei?”, aquele que existe enquanto sonho eterno: “sonhei que eterno dura”, como tal, garante o seu regresso: “Esse que regressarei.”

2. Em primeiro lugar, importa referir que é o próprio herói que reconhece a importância enquanto mito: “ Que importa o areal e a morte e a desventura/ Se com Deus me guardei”.
Por outro lado, são também expressivos e reveladores dessa importância os pronomes pessoais complemento directo e demonstrativo: “ O” e “ Esse”, grafados com maiúsculas.

3. O discurso do herói inicia-se com um imperativo exortativo, com valor de pedido
“Sperai” e termina com a justificação dessa solicitação, expressa através de uma forma verbal no futuro do indicativo, garante de certeza: “ Regressarei”.
Em suma, o sujeito poético revela-se convicto do seu ressurgimento numa dimensão mítica, que só se concretizará se houver uma espera envolta em crença.

4. Todo o mito sebástico é configurado a partir do messiânico.
As três associações de D. Sebastião a Deus são prova clara dessa associação.
Primeiramente, o herói surge como eleito por Deus para uma existência enquanto símbolo e mito: “Que Deus concede aos seus”, “Em sonhos que são Deus”.
Finalmente, assegura a sua existência como protegido por Deus: “Se com Deus me guardei?”, gozando à sua semelhança da capacidade de ressuscitar, regressar.



Grupo II
A Mensagem distingue-se de Os Lusíadas, embora ambas epopeias, porque partindo de um núcleo histórico, a sua dimensão é simbólica e mítica, como tal, contrariamente à epopeia camoniana, não “enaltece heróis, nem acontecimentos reais”.
Em primeiro lugar, registe-se que a própria estrutura tripartida, Brasão, Mar Português e Encoberto são símbolos interpretaivos da História da nação lusitana, representativos de Nascimento, Vida, Morte e Revitalização.
Em segundo lugar, quando confrontados com os poemas, verificamos que não há uma intenção de proceder à caracterização das figuras históricas, nem tão pouco dos seus feitos. Na verdade, são heróis sem rosto, forças latentes da identidade nacional, existentes no passado mas emergentes no presente.
Para exemplificar, recordamos os heróis dos castelos, Afonso Henriques, D. Dinis, por exemplo, representativos da garantia da nossa independência a preservar no presente de crise: “ Pai, foste cavaleiro, hoje a vigília é nossa”, ou o visionário ocasional implantador dos alicerces para a descoberta de novos mundos, ainda que na idade, dita das trevas “ Na noite..../ o plantador de naus a haver”.
De todos os heróis, D. Sebastião é, sem dúvida, a dama do xadrez que é a Mensagem; move-se por toda a História nacional, enquanto Quina da loucura humana que motiva o Homem e sem a a qual “ mais que besta sadia( seria) cadáver adiado que procria”, é o ultimo a embarcar na “ Ùltima Nau”, que não se sabe a “ que ilha indescoberta aportou” , “ nem se regressará da sorte que teve”; é associado a todos os “ Símbolos”, enquanto Desejado, Encoberto, ou “ Avisos” dos visionários “Bandarra” e “António Vieira”, por exemplo.
O rei desejado dará sentido a um Quinto Império espiritual, cultural, civilizacional de dimensão universal, que sará as feridas do império material das Descobertas: “ Cumpriu-se o mar e o império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal”, mas é a Hora!

sábado, 24 de janeiro de 2009

A dor de pensar

Lê atentamente o seguinte poema :

A ciência, a ciência, a ciência…
Ah, como tudo é nulo e vão !
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção !

Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço ralha !
Contra o pensar, que é o meu vício !

A ciência ! Como é pobre e nada !
Rico é o que a alma dá e tem !

Fernando Pessoa

GRUPO I

1. O poema expressa uma angústia resultante de uma equação relativa à forma de estar no Mundo.

1.1.Transcreve os versos que melhor expressam essa equação.
1.2.Identifica a figura de estilo subjacente a essa equação.

2.Considera os versos : « Aquela mulher que trabalha/ Como uma santa em sacrifício.»
2.1.Explica como se estabelece a oposição entre «aquela mulher » e o Eu poético.
2.2. Explica o valor expressivo da comparação entre a « mulher que trabalha » e a « santa em sacrifício ».

3. Propõe uma divisão lógica do poema, justificando-a.

4.O poema apresentado equaciona uma temática de Fernando Pessoa Ortónimo claramente presente em dois dos poemas que estudaste. Compara-os no tratamento da mesma.

5. Explica o sentido do último dístico do poema, relacionando a ideia aí expressa com a concepção de arte que Pessoa apresenta expliciatmente noutros poemas.

GRUPO II

Lê com atenção o texto seguinte :

(…) Com efeito, passámos a ser condicionados por formação a pensar, de preferência sem demonstrar emoção, sem necessidade de associar à ideia o sentimento que ela evoca. E, por outro lado, somos educados a sentir as coisas, sem necessariamente associarmos a isso a actividade do pensamento. Seres divididos que somos, mais em função da educação do que da fisiologia, temos tendência a interpretar o mundo de maneira diferente quando o sentimos ou quando o pensamos.
Contudo, ao longo deste século, vai-se configurando um novo paradigma científico(…) que traz novas achegas ao problema, e isto, sobretudo, de três maneiras.
A primeira relaciona-se com a importãncia da imaginação e da criatividade no campo científico, ao contrário do que antes se pensava, a saber, que a ciência é um processo intelectual baseado somente nos factos e na razão, o que já não acontece com a actividade artística que supostamente se baseia fundamentalmente na imaginação e na emoção.
A segunda prende-se com a possibilidade de os acontecimentos científicos influenciarem outras áreas da actividade cultural(…).
A terceira refere-se ao facto de hoje em dia a dificuldade de acompanhar a literatura, a música e a pintura, por exemplo, não ser menor, para o público inteligente e culto, embora não especialista, do que as dificuldades que se lhe deparam na compreensão das ideias fundamentais da ciência. A razão desta dificuldade é que enquanto até ao início do século a ciência e as artes tinham a mesma linguagem(…), hoje falta-lhes uma linguagem e uma compreensão comuns, em virtude da crescente especialização e compartimentação do saber(…).

Vítor Quelhas, in Rev. «Ler»nº 14, Circ. De Leitores, 1991


1. De cada questão, selecciona a alínea /alternativa correcta de acordo com o conteúdo do texto que acabaste de ler.

1.1
a) A educação ea formação conciliam pensamento e emoção.
b) A formação orienta-se para a aprendizagem do pensar e a educação para o sentir.
c) Entende-se por educação todo o processo de aprendizagem baseado nos factos e na razão.
1.2.
a) Neste século a crescente especialização e compartimentação da ciência afastaram-na cada vez mais das artes.
b) Não se concebe neste século uma ciência limitada à razão, sem uma vertente criativa e emotiva.
c) O novo paradigma científico do nosso século aceita o contributo da criatividade humana mas rejeita completamente a emoção no entendimento dos fenómenos de que se ocupa.
1.3.
a) Reconhece-se actualmente a possibilidade da ciência condicionar algumas manifestações culturais.
b) É incontestável nos dias de hoje que toda a actividade artística resulta inevitavelmente do processo evolutivo da ciência.
c) É a actividade cultural que impulsiona novos paradigmas científicos.

1.4.
a) A ciência e as artes apresentam actualmente deficits de compreensão e consequentemente níveis de adesão diferentes.
b) As artes como a Literatura, a música e a pintura, por exemplo, são mais facilmente acompanhadas pelo público porque têm uma linguagem menos especializada.
c) A ciência e as artes, devido à sua crescente reinvindicação de linguagens científicas específicas para cada área, têm-se distanciado cada vez mais.

2. Reescreve as duas frases simples numa complexa, estabelecendo entre elas um relação concessiva :

Hoje as artes e a ciência são constantemente divulgadas pelos media ou por revistas de especialidade.
O interesse e apetência para uma formação específica nessas áreas não aumenta.


GRUPO III

« (...) hoje em dia a dificuldade de acompanhar a literatura, a música e a pintura, por exemplo, não ser menor, para o público inteligente e culto, embora não especialista, do que as dificuldades que se lhe deparam na compreensão das ideias fundamentais da ciência».
Partindo da frase acima transcrita, produz um texto expositivo-opinativo, entre duzentas e cinquenta e trezentas palavras, em que apresentes o teu ponto de vista sobre a problemática aí enunciada.
Deverás fundamentar a tua resposta com três argumentos que justifiquem a tua opinião e duas propstas para resolver o problema.

A dor de pensar

Escola Secundária Rainha Dona Leonor
Português 12º ano
Sequência de aprendizagem: Fernando Pessoa- Ortónimo

TPC

Análise do poema “ Ela canta, pobre ceifeira”

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1. Divide o poema em momentos, partes.

1.1. Sintetiza o conteúdo de cada uma.
1.2. Indica o tipo de frases e os tempos e modos verbais mais frequentes em cada momento.
1.2.1. Justifica a sua utilização.


2. É através do canto que o sujeito poético caracteriza a ceifeira.

2.1. Faz o levantamento de palavras ou expressões que remetem para a tensão e harmonia do seu canto.

2.2. Identifica as figuras de estilo usadas para a caracterização do Tu feminino. Dá exemplos concretos de cada uma.

2.3. Apresenta os sentimentos/ desejos que esse canto desperta no poeta.

2.3.1. Mostra que há uma gradação na apresentação dos mesmos.

2.4. Explica o sentido da frase seguinte: “ ... A ciência pesa tanto e a vida é tão breve”.

2.5. Diz como se perspectiva o sujeito lírico relativamente à dicotomia Consciência/ Inconsciência.

2.6. Retira do poema o verso mais emblemático que alude à intelectualização do sentir.

2.7. Exemplifica com elementos textuais e recursos estilísticos o tom dramático do discurso poético.

2.8. Explica por palavras tuas o sentido da última estrofe, indicando o recurso estilístico aí presente.

3. Procede à análise formal do poema: tipo de rima, métrica, ritmo, nível fónico, tipo de estrofe.

4. Infere razões para tomar a ceifeira como modelo de comparação com a condição de vida do poeta.


Linhas de Leitura

- Composição datada de 1914, já com as grandes características formais da poesia de pessoa ortónimo.

- Versa a temática da “dor de pensar” mas anuncia já algumas características próprias dos heterónimos, sobretudo Ricardo Reis, “ A ciência pesa tanto e a vida é tão breve” e Alberto Caeiro para quem “ouvir é um acompanhamento de ver”.

- Das seis quadras que compõem o poema, podemos verificar que nas primeiras três se descreve o canto da ceifeira e nas restantes se apresentam as repercussões dessa audição no mundo interior, subjectividade, do poeta. Esta divisão do poema pode ser confirmada com a passagem das frases de tipo declarativo na primeira parte para as exclamativas na segunda.

- Apesar da delimitação que podemos fazer do poema, nota-se contudo já na primeira parte uma situação de conflito entre o exterior e interior do sujeito lírico, daí a antítese “ouvi-la, alegra e entristece”. A antítese verfica-se também na condição existencial e na atitude da ceifeira, sendo “pobre” e “ duma anónima viúvez”, julga-se “feliz” e a sua voz é “ alegre”.

- Podemos subdividir a segunda parte em dois momentos: a expressão do desejo de ter a “ consciência da inconsciência “ dela, expresso pelos infinitivos e as condicionais de imperfeito do conjuntivo “ se eu pudesse”, “ se eu tivesse”. Mas tendo consciência da inconsciência, deixa de ter inconsciência.
O segundo momento, o momento da invocação “ Ó céu! Ó campo! Ó canção!” que disponham da sua alma e o levem., entregando-se aos responsáveis pela alegria da ceifeira e desta forma encontrar o anestésico para a sua “ dor de pensar”.

- Aliterações das fricativas /f/, /v/, sugestivas da passagem do tempo.

- Alternância do presente do indicativo, do imperativo presente e do Pretérito imperfeito do conjuntivo.

- Adjectivação expressiva muitas vezes antitética.

- Comparação e a metáfora da voz como um canto de ave que ondula.

- Apóstrofe ao céu, campo, canção.

- Personificação dos elementos apostrofados que o podem levar.

- Sentido conotativo dos últimos dois versos, apontando para o desejo de anulação, de morte.