terça-feira, 20 de maio de 2008

cenários de correcção do teste

PROVA ESCRITA DE PORTUGUÊS
Duração da prova: 90 minutos 6º teste
2007/2008( Maio) Prof: Euclides Rosa
CENÁRIOS/ CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO

GRUPO I

1. ( 7+3)
A alegoria que enforma o poema Dobrada à Moda do Porto delineia-se narrativamente na seguinte realidade concreta, presente nas duas primeiras estrofes: o sujeito poético vai a um restaurante e servem-lhe dobrada fria, recusa-a e pede-a quente. Contudo, não é atendido o seu pedido” impacientaram-se comigo”, não a come, paga a conta e sai do restaurante.
A realidade abstracta está desde logo no segundo verso na comparação, a dobrada é um simbolo artístico e literário para se referir a amor “ serviram-me o amor...”, mas também na contextualização espacio temporal “ Um dia.... fora do espaço e do tempo”, logo é uma realidade vivida interiormente, num tempo e espaço psicológico, os da criatividade artística.
Explicitação de cada uma das realidades com citações textuais......3,5 pontos

Explicitação de cada uma das realidades sem citações textuais....... 2,5 pontos

Organização e coerência discursiva.........................................................2p
Correcção linguística......................................1p

2. (10+5)

A contextulaização espacio-temporal aponta para a indefinição e para a ficcionalidade, limitando-se a remeter para um passado criado sem recurso à memória de uma experiência real concreta. É o tempo e espaço do fingimento artístico.

Interpretação do valor simbólico.............................................................10p
Organização e coerência discursiva.........................................................3p
Correcção linguística.......................................2p

3. (10+5)
Atitude do sujeito lírico: a recusa delicada, sem protesto (v.3), (v.21), revolta silenciosa, resignação (v.8)
Caracterização da atitude com discurso pessoal e citações......................................10p.
Caracterização da atitude com discurso pessoal semcitações.................................. 7p.
Caracterização da atitude só com citações...............................................................5p.

4. (7+3)
A quarta estrofe apresenta-se entre parentesis, funcionando como um aparte da alegoria. È aí que o sentido da mesma se revela e justifica pela situação presente “ a tristeza é de hoje”, confrontando-se a infãncia do poeta com a de “ toda a gente”.

Justificação da utilização de parentesis...................................................................7p.
Organização e coerência discursiva.........................................................2p
Correcção linguística.........................................1p
5. (15+5)
Dobrada fria associa-se á infãncia do sujeito poético. Foi servida no restaurante, que é metáfora alegórica da sua casa natal, um espaço de transacão comercial, o missionário da cozinha e todos os que “ se impacientaram” todos os que lhe deveriam ter dado afectos, sobretudo familiares. É no fundo a infância que, na dimensão valorativa do conceito, não teve, ou, caso a tenha tido, a vê agora, perturbado pela angústia existencial e pelo tédio, como negativa “ E que a tristeza é de hoje”.
A Dobrada quente, a que preferia, porque assim deve ser servida, é o amor sincero, altruísta, sem espera de trocas, recompensas.
Esta última Dobrada é a que sabe ter existido na “infãncia de toda a gente” , marcada pela alegria do jardim onde as crianças brincam.

Comparação do sentido metafórico da oposição Dobrada quente/ fria........................15p.
Organização e coerência discursiva.........................................................3p
Correcção linguística......................................2p

6. (15+5)

O poema situa-se na terceira fase da poética de Campos, conhecida por fase intimista, confessional, marcada pelo decadentismo, a abulia, o tédio. Trata-se no fundo do regresso a Pessoa ortónimo, até mesmo pelo tema da infância, nostalgia da infãncia que não teve, que é mero fingimento poético.
No poema Dobrada à Moda do Porto nota-se a nível do conteúdo, um lirismo de elegia, lamentação, a expressão de uma emoção de uma negatividade dramática ( repetição frio/a “) e não a euforia e valorização da matéria, teconologia da fase futurista/ sensacionista.
Em síntese, a poética centarada no Eu e a nostalgia da infância idealizada são duas razões para se situar este poema na terceira fase.

Contextualização do poema com justificação.................................................................15p.
Contextualização do poema sem justificação..................................................................6p.
Organização e coerência discursiva.........................................................3p
Correcção linguística.....................................2p


A

Reis propõe uma filosofia de vida, baseada no equilíbrio, na moderação, que é totalmente contrária á expressão da nostalgia de um passado, incluindo o da infância.
Numa das suas odes faz mesmo o confronto entre aqueles que “ com olhos postos no passado, vêem o que não vêem” e aqueles que obcecados pelo “ futuro vêem o que não pode ver-se”. Assim sendo, incentiva-nos a viver o presente, a colher o dia, Carpe diem, mas evitando, amores, paixões, odios, alerta bem notório no poema “ vem sentar-te comigo ,Lídia, á beira do rio”.
É a consciêcia da inevitabilidade da morte, decidida pelo Fado, “ que está mais longe que os próprios Deues” e o sentimento da fugacidade da vida, que o levam a persuadir-nos da apatia, e da ataraxia que a vida nos exige, é aceitá-la de mãos abertas, “ pagãos e tristes e com flores no regaço” , norteados pelos ensinamentos do Epicurismo e do Estoicismo.
As flores, os rios, a natureza em geral, são os melhores exemplos onde podemos aprender a aceitar felizes o nosso destino.


Tema e tipologia de texto............................................................................5p.
Coerência e pertinência da informação.......................................................10p
Argumentação da escolha de três direitos humanos...............................10p.
Planificação do ensaio.........................................................................5p.

Organização e estruturação discursiva, recorrendo a articuladores textuais,
Mecanismos de coesão interfrásica,parágrafos..........................................12,5p.

Correcção linguística.....................................................................7,5p.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Guiões de leitura e análise

Realizam-se na aula de substituição de 6ª feira, devem ser enviados resolvidos para o mail euclidesrosa1123@gmail.com até sábado às 13 horas. São para avaliação e não se aceitam fora do prazo)

Saudação a Walt Whitman

Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus ver sos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícias, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,

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Orientações de leitura e análise:

1. Retira do texto expressões ou versos reveladoras da influência que Walt Whitman exerce sobre Campos.
2. Explique a intencionalidade da metáfora da experiência das sensações em orgia báquica(v1-3).
2.1. Mostre que as sensações não se limitam aos sentidos mas têm uma componente emocional e intelectual a eles ligada.
3. Mostre que o sujeito poético se assume deliberadamente egoísta, não olhando a meios para atingir o seu fim, “sentir tudo de todas as maneiras e em toda a parte”

4. Prove que nesta fase da poesia de Campos, marcada pelo sensacionismo Whitmaniano, há nitidamente um fôlego de uma vida projectada no futuro que se expressa por uma linguagem/ pensamento que oscila entre o filosófico e a banalidade do quotidiano.






Passagem das Horas

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.
(...)
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...

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Orientações de leitura e análise:

1. Caracteriza o estado de espírito do sujeito poético ao longo do poema.
1.1.Apresenta os motivos que estão na origem do mesmo ( título e conteúdo do poema).
2. Transcreve os versos que melhor exprimem o ideal de vida sensacionista defendido.
2.1. Justifica o uso frequente do infinitivo.
2.2. Procede ao levantamento de todo o léxico assoiciado a dinamismo/ movimento.
3. Prove que é a natureza do sensacionismo, misto de sentidos e imaginação/espírito que desncadeia a frustração do eu poético.
4. Mostre que o discurso do poeta alterna entre o poético e o filosófico, indicando recursos linguísticos e estilísticos de que se serve.


Dois Excertos de Odes
(...)
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
(...)
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
...................................................................................
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Orientações de leitura e análise:

1. Prova que há uma humanização/personificação da Noite invocada pelo sujeito poético.
1.1. Justifica a intenção dessa personificação.
2. Identifica os diferentes tipos de sensações que a relação do Eu com a Noite desperta.
3. Prova que essa relação tem não só uma dimensão sensitiva mas também emocional e espiritual.
4. Retira do texto léxico associado à modernidade que a Noite traz para o poeta.
5. Explica o sentido dos últimos três versos, notando que são já a expressão de um sensacionismo decadentista.

Sensacionismo Whitmaniano( aula de 4ª feira)

Sensacionismo Whitmaniano:
• A única realidade na vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.
• Não há Filosofia, Ética ou Estética, mesmo na arte, onde existem apenas sensações.
• Pujança da sensação intelectual, emocional e física

Vivência em excesso das sensações (“Sentir tudo de todas as maneiras” – afastamento de Caeiro)
Sadismo e masoquismo
Cantor lúcido do mundo moderno

Do sensacionismo (de Walt Whitman), Campos adoptou, para além do verso livre, um estilo esfuziante, torrencial, espraiado em longos versos de duas ou três linhas, anafórico, exclamativo, interjectivo, monótono pela simplicidade dos processos, pela reiteração de apóstrofes e enumerações, mas cheio de vida.

- celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna
- apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina
- exalta o progresso técnico, a velocidade e a força
- procura da chave do ser e da inteligência do mundo torna-se desesperante
- canta a civilização industrial
- recusa as verdades definitivas
- estilisticamente: introduz na linguagem poética a terminologia do mundo mecânico citadino e cosmopolita
- intelectualização das sensações
- a sensação é tudo
- procura a totalização das sensações: sente a complexidade e a dinâmica da vida moderna e, por isso, procura sentir a violência e a força de todas as sensações – “sentir tudo de todas as maneiras”
- cativo dos sentidos, procura dar largas às possibilidades sensoriais ou tenta reprimir, por temor, a manifestação de um lado feminino
- tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir
- exprime a energia ou a força que se manifesta na vida.

Futurismo de Marinetti ( aula de 4ª feira)

A segunda fase do Futurismo Whitmaniano:

Campos recebe influências do Futurismo de Marinetti e do Sensacionismo De Walt Whitman.
Manifesto Futurista de Marinetti (11 de Março de 1912):
• Deve destruir-se o eu na literatura, isto é, deve abolir-se toda a psicologia (...) substituindo-a pela matéria (...) com os seus impulsos directivos, a sua força de compressão, de dilatação, de coesão e de desagregação, a sua composição molecular ou as suas turbinas de electrões (...) O calor de um pedaço de ferro ou de madeira, é muito mais apaixonante, para nós, que o sorriso ou as lágrimas de uma mulher. Queremos na literatura a vida do motor, novo animal instintivo do qual conheceremos o instinto geral, depois de conhecermos os instintos das diversas forças que o compõem (...) É necessário sentir o peso e o odor dos objectos, coisa que nunca se fez na literatura, ouvindo os motores e reproduzindo os seus especialíssimos discursos inumanos.
• (...) Há necessidade de orquestrar as imagens, dispondo-as segundo um máximo de desordem
• (...) Deve haver uma gradação de analogia cada vez mais vasta, estabelecendo relações tanto mais profundas e sólidas, quanto mais distantes. A analogia nada mais é do que o amor profundo que liga as coisas distantes, aparentemente diversas e hostis. Quando, na minha Battaglia di Tripoli, comparei uma trincheira hirta de baionetas a uma orquestra, uma metralhadora a uma mulher fatal, introduzi, intuitivamente, uma grande parte do Universo num breve episódio de batalha africana. As imagens não são flores para semear e colher com parcimónia, como dizia Voltaire. Elas constituem o próprio sangue da poesia. A poesia deve ser sequência ininterrupta de imagens novas, sem o que será pura anemia (...) É necessário, portanto, abolir na língua o que ela contenha de imagens estereotipadas, de metáforas desbotadas; isto é, quase tudo.
• Necessidade de libertação da sintaxe, dispondo os substantivos ao acaso, de forma espontânea;
• Deve usar-se o verbo no infinitivo, para que se adapte elasticamente ao substantivo e não se sobreponha ao eu do escritor que observa ou imagina (...);
• Deve abolir-se o adjectivo, para que o substantivo nu conserve o seu valor essencial (...);
• Deve abolir-se o advérbio (...) para evitar que ele dê à frase uma fastidiosa unidade de tom;
• Todo o substantivo deve ter o seu duplo, isto é, o substantivo deve ser seguido, sem conjunção, do substantivo a que está ligado por analogia (...);

O Futurismo em Portugal foi um escândalo sociológico. Os jovens futuristas ( Pessoa, Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, entre outros, foram apelidados de “ malucos”, “loucos” mas era isso que eles próprios queriam, “ dar uma bofetada no gosto do público(famoso poema de Maiakovski), rompendo definitivamente com hábitos culturais esclerosados e retrógrados.

“ Um automóvel é mais belo que a Vitória de Samotrácia”
Elogio da civilização industrial e da técnica
Ruptura com o subjectivismo da lírica tradicional
Atitude escandalosa: transgressão da moral estabelecida.

domingo, 30 de março de 2008

Os Colombos

Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

Colombo, que tentara durante anos o apoio do rei de Portugal, acabaria por descobrir o Novo mundo sob a égide dos reis católicos de Espanha; significa aqui as oportunidades perdidas, mas também que a missão de Portugal vai mais além da dos “Colombos”.
“Outros haverão de ter / O que houvermos de perder”
“Mas o que a eles não toca / É a magia que evoca / O longe e faz dele história”
Este poema, que se situa na segunda parte da obra a “ Mensagem” intitulada de Mar Português, substitui um outro chamado “Ironia” que constatava nas primeiras versões dessa obra.
O poema refere-se a Cristóvão Colombo que foi o descobridor da América ao serviço dos reis de Espanha. Por isso mesmo sabemos que há todo um contencioso entre Portugal e Espanha a propósito de Colombo, que deveria ter descoberto a América em nome do rei de Portugal se este, D.joão II, não o tivesse rejeitado.
Não se referindo apenas a Cristóvão Colombo, este poema fala ainda de todos os navegadores estrangeiros (chamados aqui “Colombos”) cuja glória, diz, é apenas um reflexo da luz das descobertas portuguesas. Neste poema, na minha opinião, existe um certo exagero quanto ao nacionalismo, porque, como podemos ver na primeira estrofe, o poeta diz que os outros navegadores só vão ter o que Portugal não quis, pois Portugal não podia conquistar tudo.
Quanto à análise estilística do poema é de referir o uso de rima emparelhada, cujo esquema é aabb, esta rima pobre acentua os feitos menores dos navegadores que não eram portugueses, do discurso na primeira pessoa do plural, como se fosse Portugal a falar, e ainda o uso da metonímia, pois Colombo aparece em representação de todas as potências estrangeiras que tentam apoderar-se do que é português.

Diogo Soares 12º 2
Padrão
O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Este poema pertence à 2ª parte da “Mensagem”, “Mar Português”, está efectivamente relacionado com os Descobrimentos .
Um padrão era um marco de pedra em forma de cruz que era colocado nos sítios descobertos pelos portugueses. O padrão tinha as armas(as quinas) portuguesas e uma inscrição, e era destinado a afirmar a soberania portuguesa na região onde se encontrava.
Diogo Cão foi um navegador português do século XV. Enviado por D. João II, realizou 2 viagens de descobrimento da costa africana entre 1482 e 1486. Chegou á foz do Zaire. Estabeleceu as primeiras relações com o reino do Congo. Em 1485, chegou ao Cabo da Cruz (actual Namíbia). Introduziu a utilização dos padrões de pedra, substituindo assim as cruzes de madeira para assinalar a presença portuguesa nos locais descobertos.
Assunto: num discurso de primeira pessoa, o sujeito poético , Diogo Cão, mostra neste poema o significado do padrão. Assim, o padrão “sinala ao vento e aos céus/Que, da obra ousada, é minha a parte feita” , ou seja, o padrão indica que o navegador cumpriu a sua missão.
As quinas testemunham o domínio português no oceano, que foi muito superior ao dos gregos e ao dos romanos.
A cruz mostra qual o objectivo último da navegação: a procura do porto sempre por descobrir(Céu), que só será encontrado “na eterna calma”(depois de morrer),e até lá, guiar-se-há pela vontade de Deus, que o incentiva a navegar constantemente.

A 1ª estrofe é uma introdução ao poema , já que se identifica o sujeito poético e aquilo que ela fez: deixou um padrão “junto ao areal moreno” eseguiu a sua navegação.
Na 2º estrofe, o sujeito poético reconhece que aquele padrão assinala que a missão do navegador foi cumprida.
Nas duas últimas estrofes, o sujeito poético mostra o significado das Quinas e da Cruz.
O sujeito poético é um navegador persistente e corajoso, tendo consciência da fragilidade humana: “O esforço é grande o homem é pequeno” e “a obra é imperfeita”.
É um ser insatisfeito, pois quer sempre seguir o seu caminho na descoberta de novas terras, nunca parando.
O poema apresenta muitos recursos expressivos. De salientar a utilização de metáforas como ,por exemplo,( "A alma é divina") - mostrando que a alma está ligada à divindade por oposição a uma outra ( "a obra é imperfeita"), da antítese inicial do poema "grande/ pequeno", reforçando a oposição Homem/Deus. Também importa salientar a dupla adjectivação "imenso e possível oceano" para reforçar a imensidão do mar e a personificação das Quinas que "ensinam" e da Cruz que "diz". Importa ainda referir todo o vocabulário que está relacionado com o mar como "areal", "naveguei", "navegador",...
O poema é formado por 4 estrofes, tendo cada uma 4 versos (quadras); o esquema rimático é abab- rima cruzada; não tem uma métrica regular.
Este poema está, assim, inserido na 2ª parte da "Mensagem", que representa simbolicamente a vida ou a realização.



Duarte Simões 12º 2
A Outra Asa do Grifo

Afonso de Albuquerque

De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quere o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.

“Mal com os homens por amor del-rei, e mal com el-rei por amor dos homens” é uma famosa frase dita por Afonso de Albuquerque pouco tempo antes de morrer e que traduz o ideal que norteou toda a sua .
Este poema foi primeiramente editado na revista “Mundo Português” no dia 26 de Setembro de 1928.
Na estrutura interna de Mensagem o poema é o terceiro (a outra asa do grifo) do quinto grupo “ O Timbre” da primeira parte O Brasão.
Simboliza o poder da força, a concretização do sonho.
Se tivermos em conta o simbolismo dos três poemas do Timbre teremos algo como visão (D. Henrique), o poder da vontade (D. João, o segundo) e o poder da força, que se já conhecemos do primeiro verso do poema “ O Infante”, “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce.”
O autor começa por captar um momento da vida do herói, dando uma imagem deste de pé sobre as suas conquistas no primeiro verso.
Do segundo verso ao oitavo são dados os seus sentimentos que têm como causa os feitos heróicos e as suas consequenciais.
Pessoa vai para alem da imagem do herói forte e determinado, e mostra-o como um ser cansado de ver a injustiça que há no mundo e o que o destino (sorte) lhe reserva. A injustiça que o autor se refere é à ingratidão dos outros pelos seus feitos. O seu sucesso não desperta admiração nos outros, mas sim inveja.
Há um desprezo pela vida material por parte do herói. Este já está tão cansado do poder e das conquistas que já não pensa em nada, já foram realizados todos os seus desejos materiais. O seu poder já é tão grande que ultrapassa o seu desejo.
O seu desejo de glória trouxera mais do que vitórias e poder, trouxera também as invejas dos outros e da corte “Que o querer tanto/ calcara mais do que o submisso mundo”.
Nos últimos dois versos Pessoa fala sobre as conquistas, referindo-se a três impérios.
O número três representa simbolicamente a perfeição, pelo que a conquista destes três impérios é a utopia do herói. Estes três impérios podem ser o Material, o Espiritual, e o Cultural, podem também ser o império Português, o Árabe e o Hindu, e ainda, mais especificamente se nos tivermos a referir a Afonso de Albuquerque, podem ser Goa, Malaca e Ormuz, as três cidades fortes que conquistou.
Pessoa mais uma vez chama sorte ao destino ao contrário dos poemas dos das quinas em que o azar é uma constante.
Foi o destino que “deu”, que permitiu a realização dos feitos de Afonso de Albuquerque, mas como nada é de graça, ele presenciou um futuro negro, e uma vida repleta de azar.
Quanto à análise formal do poema, é constituído por uma décima composta por cinco versos decassílabos e cinco hexassílabos alternados.
A rima é emparelhada, sendo o esquema rimático aabbccddee.



Nuno Viegas Moreira nº23 12º2