quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Quinas

Segunda
D. Fernando, Infante de Portugal

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
A esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro de mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.


Num discurso na primeira pessoa ( ver flexão verbal, pronomes pessoais, determinantes possessivos), o herói simbólico perspectiva-se em dois tempos distintos: o passado em que foi predestinado por Deus para o servir na Guerra Santa: “A sua santa guerra./ Sagrou-me seu em honra e em desgraça,”; e o presente destemido pronto a enfrentar tudo em seu nome: “Cheio de Deus, não temo o que virá/ E este querer grandeza são seu nome “.
Há contudo um contraste entre a situação presente e a alma do herói ( dois últimos versos). “Às horas em que um frio vento passa/ Por sobre a fria terra “ , esta é a situação presente da nação, insensível aos valores humanos e à fé em Deus mas não vencerá a animosidade do herói:” venha o que vier, nunca será/ Maior do que a minha alma. “
Nota: D. Fernando, cativo dos mouros, humilhado e martirizado, aconselhou sempre seu irmão D. Duarte a não entregar Ceuta.
Prof. Euclides

As Quinas D. Duarte

As Quinas
Primeira
D. Duarte, Rei de Portugal

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.

Na primeira estrofe, o herói simbólico assume que o seu Ser foi totalmente determinado pelo seu dever, tal como o mundo de Deus. Consequentemente, podemos deduzir a sujeição do homem, fazendo também ele parte do mundo, à vontade de Deus.
No segundo verso compreende-se que esse dever é dos maiores, o “ de ser Rei”, aquele a quem se lhe exige” regra”, que seja “ firme”, representando interesses de um povo e de uma nação, mesmo que isso lhe custe disabores e sofrimentos: “em minha tristeza, tal vivi “ .
A mitificação do herói simbólico é totalmente conseguida quando reconhece que esse dever de rei venceu a própria vontade do Destino, que esteve sempre contra ele. É a prova cabal de que o homem pode traçar a sua própria vida, desde que seja estóico a suportar as armaguras da vida, vendo-as como meio de cumprir a sua missão no mundo; daí que nada, nem as tristezas, são inúteis: “Inutilmente? Não, porque o cumpri.”


Luís Figueiredo
n.º 17 12ºano 2ª
Janeiro, 2008
Prof. M. Euclides Rosa

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Matriz 3º teste (Fevereiro)

Escola Secundária Rainha Dona Leonor
Português 12º ano
Ano lectivo: 2007/08
Prof: Euclides Rosa Turma: 12º 2


Matriz de objectivos e conteúdos (3º teste, 2º período)

O teste é constituído por três grupos de resposta obrigatória.

Pretende-se que o examinando:

Grupo I ( sete itens de resposta curta)
115 pontos

- Situe, justificando, um poema de Mensagem
- Divida, justicando, o poema dado
- Transcreva expressões do texto que caracerizem o herói mitificado
- Explique a dimensão da realidade histórica a que se referem essas expressões
- Identifique um recurso estilístico, explicando a sua intencionalidade
- Relacione léxico/ expressões textuais com um assunto do poema


Grupo II (dois itens: um de associação por colunas, um de resposta curta sem expressão escrita)
25 pontos

- Identifique mecanismos de coesão interfrásica (coordenação, subordinação, conectores textuais)


Grupo III ( Item de resposta extensa/ ensaio)
60 pontos

- Produza um texto expositivo-opinativo sobre temática decorrente dos assuntos estudados em aula
- Revele capacidades de expressão escrita, cumprindo tema e tipologia de textos pedidos, coerência e pertinência da informação, domínio dos mecanismos de coesão e estruturação textuais, variedade e propriedade vocabular, domínio da ortografia


domingo, 27 de janeiro de 2008

Os castelos « D. Filipa de Lencastre»

Sétimo (II)
D. Filipa de Lencastre

Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós o teu rosto sério,
Princesa do Santo Gral,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!

Poema constituído por dois momentos, uma primeira quadra de aproximação à figura histórica e a segunda que encerra um valor exclusivamente simbólico.
As duas interrogações que comportam toda a primeira estrofe denunciam alguma admiração pela qualidade da progenitora, que “ só génios concebia”, que parecem ter sido protecção divina “Que arcanjo teus sonhos veio/ Velar...”. Esta poderá ser uma referência directa ao arcanjo Gabriel que – diz Lucas no seu Evangelho – veio anunciar o nascimento de Jesus Cristo à virgem Maria (Lc 1, 26-38)
Num segundo momento o sujeito poético invoca o “rosto” materno de D. Filipa, o rosto da mãe que cuida – séria – dos seus filhos, com o olhar atento e preocupado. A invocação desta figura materna é de grande importância, visto que está em causa o futuro dos seus filhos – os Portugueses.
“Princesa do Santo Graal” pode ter diversas interpretações. D. Filipa de Lencastre era princesa inglesa da casa dos Plantagenetas.
Por outro lado, há quem dê ao Santo Graal um sentido simbólico absoluto – o de representar o sangue de Cristo. E se assim for, “princesa do Santo Graal” significará a origem de uma linhagem com o sangue nobre, o sangue de Cristo, origem divina e providencial do Império ainda por nascer.
Seja como for, é certo que ela foi o “humano ventre do Império”, nomeadamente gerando o Infante D. Henrique, e podendo assim ser considerada – pelo sangue – protectora, “madrinha” do futuro de Portugal.

Nota:
Ínclita geração: Duarte, foi Rei de Portugal; Pedro, Duque de Coimbra e considerado o príncipe mais culto do seu tempo na Europa; Henrique, Duque de Viseu foi o impulsionador dos Descobrimentos; Isabel de Portugal (1397-1471), casada com Filipe III, Duque da Borgonha, actuava muitas vezes em nome do seu marido e era dada como a verdadeira governante da Borgonha; João, Infante de Portugal foi condestável e avô do Rei D. Manuel I; Fernando, o Infante Santo morreu cativo em Fez, depois de recusar entregar Ceuta em troca da sua própria liberdade

Pedro Granate 12º2 (2007/08)

Os Castelos « D. João I »

Sétimo (I)
D. João o Primeiro

O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.

Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.


O poema divide-se em três momentos distintos, correspondendo cada um a uma das quadras que o compõem.
O primeiro em presente do indicativo de valor intemporal, temos o tópico recorrente na Mensagem, o homem como instrumento da vontade de Deus, sem a qual é matéria “ carne” que se converterá a “pó”. O que se lhe exige é que esteja à “ hora” certa em que “ Deus faz a história”.
Na segunda quadra, o epíteto de “ Mestre” permite-nos a identificação do símbolo com o herói histórico Mestre de Aviz, D. João I de Portugal, pai da Ínclita Geração, garantia da nossa independência relativamente a Castela, por isso “ Templo/ Que Portugal foi feito ser”, sem que tivesse consciência da mesma “ sem o saber”. Foi um passado( ver tempos verbais) a considerar como exemplo de instinto de defesa do que é nosso.
No terceiro momento, última quadra, volta-se ao presente do indicativo, é o tempo da memória desse símbolo “ nome” e “ fama” que nos dá a identidade “ nossa alma interna”, metaforicamente, é a nossa “eterna chama” que nos livrou do eterno esquecimento, da nossa inexistência enquanto nação.

Prof. Euclides

Os castelos « D. Dinis»

Sexto
D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.


As expressões “escreve um seu Cantar de Amigo” e “O plantador de naus a haver” permitem-nos relacionar este símbolo com o nosso rei trovador, o mesmo que também mandou plantar o pinhal de Leiria. Numa interpretação simbólica da nossa História, que é no fundo o objectivo primordial da Mensagem, ele é o místico que “ ouve o silêncio” do nosso Império e do “ oceano por achar” que só concretizariamos dois séculos depois do seu.
O poema assenta em metáforas/ comparações sucessivas desencadeadas a partir de uma fulcral: “O plantador de naus a haver”. A voz oculta que ouve é “ o rumor dos pinhais”, os pinhais serão a colheita da nossa empressa ultramarina, “ um trigo de Império”, o correr do riacho, arroio, “ é a voz da terra ansiando pelo mar”.
Há nitidamente marcados dois tempos distintos: um presente obscuro “ Na noite”, em que os próprios pinhais são “marulho obscuro” e um futuro oculto que “ ondula sem se poder ver”, que encontaremos no mar. No fundo, simbolicamente, também no nosso Passado, se repetiram os tempos ( ver “Encoberto”), aqui marcados pela noite e o nevoeiro do nosso futuro ultramarino.

Prof. Euclides

Os castelos « D. Afonso Henriques»

Quinto
D. Afonso Henriques

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

Um sujeito plural, nós, apela um símbolo que, como pai, é o exemplo de força e de coragem: “Dá-nos o exemplo inteiro/ E a tua inteira força!”. Este apelo justifica-se pela possibilidade do ressurgimento de “ novos infiéis”, todos aqueles que não cumpram a sua missão no mundo.
Há a consciência de um presente ameaçado que exige a cada um de nós uma atitude vigilante: “Hoje a vigília é nossa”, a mesma revelada pelo cavaleiro que no passado desembainhou a sua espada para a guerra santa.
A espada, contudo, já não é material, não se distingue de uma “ benção”, uma protecção sagrada que só um pai, incluindo Deus, pode dar a um filho. Assim sendo, hoje a Bellum sine Bello , a guerra sem guerra, será todo o desafio pacífico para a concretização de um império onde os valores humanos sejam cultivados.
Prof. Euclides