«Mensagem», Fernando Pessoa
Génese
A elaboração desta obra ocupou toda a vida de Fernando Pessoa, desde 1913 a 1934 (morre a 30 de Novembro de 1935).
Pessoa nasceu como homem intelectual no estrangeiro (África do Sul, sob influência da cultura inglesa).
Regressou a Portugal aos 17 anos e teve de se integrar na sua Pátria.
Dotado de uma inteligência invulgar e de uma cultura muito acima da média, compreendeu que o país estava mergulhado na mediocridade cultural e tinha, pois, um papel importante a desempenhar.
A Ditadura de João Franco («Franquismo», 1907-1908) terá provocado nela um forte patriotismo.
Em 1912, escreve na revista A Águia (Saudosismo, Patriotismo), os célebres artigos em que profetiza para breve o aparecimento de um Super-Camões e de um Super-Portugal.
Em 1932, Pessoa escreve uma carta a João Gaspar Simões onde alude ao seu projecto de publicar uma parte da sua obra.
«Mensagem» foi o único livro completo publicado em vida pelo Poeta.
A sua publicação ficou a dever-se a dois amigos, António Ferro e Ferreira Gomes, próximos do Poder, que estavam convencidos que esta obra ganharia facilmente o «prémio de Antero de Quental», criado pela SPN (Secretaria da Propaganda Nacional), cujo júri reuniria em Dezembro de 1934.
A obra, terminada em Setembro e impressa em Outubro, é simbolicamente posta à venda a 1 de Dezembro de 1934, dia em que se comemora a Restauração da Independência (1640) face ao domínio espanhol.
A obra recebeu apenas «a segunda categoria», pois não cumpria todas as imposições do concurso. O 1º lugar foi para a obra do Padre Vasco Reis, «Romaria».
Título
O primeiro título da obra foi «Portugal».
Pessoa alterou o título por sugestão do amigo Da Cunha Dias, pois, segundo este «o nome da nossa pátria estava hoje prostituído a sapatos».
Pessoa colocou-lhe, então, um título mais abstracto, que o próprio explica: a palavra portuguesa “mensagem” deriva anagramaticalmente da fórmula de Anquises, quando explica a Eneias, descido aos Infernos, o sistema do Universo: «Mens ag itat mol em» («O espírito move a massa»).
Pessoa aproveita toda a simbologia da “descida aos Infernos” para justificar o advento da Nova Pátria (o Quinto Império), afirmando, logo à partida, o seu
terça-feira, 27 de novembro de 2007
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Heráldica e simbologia da bandeira nacional

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Descrição Heráldica e Considerações Históricas
Os símbolos da Pátria são: a Bandeira Nacional, o Hino Nacional e o Chefe de Estado.
A Bandeira Nacional representa as lutas da fundação, a independência e restauração de Portugal e os descobrimentos marítimos.
No reinado de D. Afonso Henriques a Bandeira era branca com uma cruz azul larga ao centro, simbolizando o emblema do cruzado e o azul, a cor principal das armas da Casa de Borgonha.
Sofrendo várias alterações ao longo dos vários reinados, a Bandeira Nacional com a Implantação da República passa a ser verde e vermelha, sendo composta por um rectângulo de pano cuja altura é igual a dois terços da largura.
É dividida em duas partes, na vertical, sendo a parte que fica junto à haste de cor verde, ocupando dois quintos da superfície e a outra parte de cor vermelha, ocupando três quintos.
Simbologia
Cor Verde - Representa a esperança em melhores dias de prosperidade e bem-estar e também os campos verdejantes.
Cor Vermelha - Representa o valor e o sangue derramado nas conquistas, nas descobertas, na defesa e no engrandecimento da Pátria.
Esfera Armilar - Situa-se no centro da divisão das duas faixas, simbolizando as viagens dos navegadores portugueses pelo Mundo, nos séculos XV e XVI.
Armas de Portugal - Assentam sobre a esfera armilar, sendo compostas por um escudo maior com outro mais pequeno brocante, simbolizando o escudo, a arma de defesa utilizada pelos nossos antepassados nos combates.
Escudo Maior - É vermelho e à sua volta estão representados sete castelos que representam as cidades fortificadas que D. Afonso III tomou aos mouros.
Escudo Pequeno - É branco e encerra cinco escudetes azuis pequenos, fazendo alusão às cinco chagas de Jesus Cristo. Cada um desses escudos contém cinco besantes de prata que contando duas vezes os da quina do meio, recordam os trinta dinheiros pelos quais Judas vendeu Jesus Cristo e simbolizam o poder régio de cunhar moeda.
Autores da Bandeira Republicana
Columbano, João Chagas e Abel Botelho.
Portugal/ A Mensagem
SIMBOLOGIA E ESTRUTURA DA MENSAGEM
A Mensagem poderá ser vista como uma epopeia, porque parte do núcleo histórico, mas a sua formulação, sendo simbólica e mítica, do relato histórico, não possuirá a continuidade. Aqui, a acção dos heróis só adquire pleno significado dentro duma referência mitológica. Aqui serão só eleitos, terão só direito à imortalidade, aqueles homens e feitos que manifestam em si esses mitos significativos. Assim, a estrutura será dada pelo que, noutra linguagem, se poderá chamar os esquemas ideológicos, ou as ideias-força desse povo: regresso ao paraíso, realização do impossível, espera do messias... raízes do desenvolvimento dessa entidade colectiva.
Os antepassados, os fundadores, que pela sua acção criaram a pátria, a ergueram a personalidade, separada, ou a plasmaram na sua alma própria; as mães, as que estão na origem das duas dinastias, cantadas como “antigo seio vigilante”, ou “o mano ventre do império”; os heróis navegantes, aqueles que percorrem o mar em busca do caminho da imortalidade, cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre duma missão transcendente); e finalmente, depois desta missão cumprida, desta realização, na era crepuscular de fim da vida, os profetas, as vozes que anunciam já aquele que viria regenerar essa pátria moribunda, abrindo-lhe novo ciclo de vida, uma nova era – O ENCOBERTO.
Assim, a estrutura da mensagem, sendo a dum mito, numa teoria cíclica, a das idades, transfigura e repete a história duma pátria como um mito dum nascimento, vida e morte dum mundo; morte que será seguida dum renascimento, desenvolvendo-a como uma idade completa, de sentido cósmico e dando-lhe a forma simbólica tripartida – BRAZÃO, MAR PORTUGUÊS, O ENCOBERTO, que se poderá traduzir como: os fundadores, ou o nascimento; a realização, ou a vida; o fim das energias latentes, ou a morte: essa que conterá já em si, como gérmen, a próxima ressurreição, o novo ciclo que se anuncia – O QUINTO IMPÉRIO. Assim, a terceira parte é toda ela um fim, uma desintegração; mas também toda ela cheia de avisos, de pressentimentos, de forças latentes prestes a virem à luz: depois da Noite, e Tormenta, vem a Calma e Antemanhã, estes sãos os Tempos.
Que mutação houve e que auscultou o poeta, na alma do seu povo? À era dos heróis, daqueles que, percorrendo sozinhos e únicos, o caminho da realização pessoal e colectiva, levando-a até ao fim através de perigos sem conta, se teria sucedido uma era de desistência e anulação pessoal, em que a esperança e a obra de realização, de salvação se transfere e projecta num super eu nacional – O DESEJADO. É ele que trará a regeneração do povo; que pela sua aparição instaurará o tempo novo. Depois da degenerescência do tempo antigo, Alcácer Quibir contará o fim dum ciclo duma pátria, tal como o dum mundo, por um dilúvio, pela sua força renovadora e purificadora.
Esperai! Caí no areal e na hora adversa/Que deus concede aos seus/Para o intervalo em que esteja a alma imersa/Em sonhos que dão Deus (...).
A vinda do Encoberto marcará o fim da história. Os cinco impérios são irreversíveis. Alcácer Quibir é um acontecimento de valor religioso. E aí a morte de D. Sebastião assumirá o sentido da morte redentora dum Deus. E a sua parúsia no futuro, aquele do fim do tempo.
Essa intrínseca identificação do poeta com a sua nação, torna aqui o profetismo a forma do que assume em si, na sua pessoa, única e mortal, o destino dum ser colectivo em todo o transcurso da sua existência.
Dalila L. Pereira da Costa, O Esoterismo de Fernando Pessoa
A Mensagem poderá ser vista como uma epopeia, porque parte do núcleo histórico, mas a sua formulação, sendo simbólica e mítica, do relato histórico, não possuirá a continuidade. Aqui, a acção dos heróis só adquire pleno significado dentro duma referência mitológica. Aqui serão só eleitos, terão só direito à imortalidade, aqueles homens e feitos que manifestam em si esses mitos significativos. Assim, a estrutura será dada pelo que, noutra linguagem, se poderá chamar os esquemas ideológicos, ou as ideias-força desse povo: regresso ao paraíso, realização do impossível, espera do messias... raízes do desenvolvimento dessa entidade colectiva.
Os antepassados, os fundadores, que pela sua acção criaram a pátria, a ergueram a personalidade, separada, ou a plasmaram na sua alma própria; as mães, as que estão na origem das duas dinastias, cantadas como “antigo seio vigilante”, ou “o mano ventre do império”; os heróis navegantes, aqueles que percorrem o mar em busca do caminho da imortalidade, cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre duma missão transcendente); e finalmente, depois desta missão cumprida, desta realização, na era crepuscular de fim da vida, os profetas, as vozes que anunciam já aquele que viria regenerar essa pátria moribunda, abrindo-lhe novo ciclo de vida, uma nova era – O ENCOBERTO.
Assim, a estrutura da mensagem, sendo a dum mito, numa teoria cíclica, a das idades, transfigura e repete a história duma pátria como um mito dum nascimento, vida e morte dum mundo; morte que será seguida dum renascimento, desenvolvendo-a como uma idade completa, de sentido cósmico e dando-lhe a forma simbólica tripartida – BRAZÃO, MAR PORTUGUÊS, O ENCOBERTO, que se poderá traduzir como: os fundadores, ou o nascimento; a realização, ou a vida; o fim das energias latentes, ou a morte: essa que conterá já em si, como gérmen, a próxima ressurreição, o novo ciclo que se anuncia – O QUINTO IMPÉRIO. Assim, a terceira parte é toda ela um fim, uma desintegração; mas também toda ela cheia de avisos, de pressentimentos, de forças latentes prestes a virem à luz: depois da Noite, e Tormenta, vem a Calma e Antemanhã, estes sãos os Tempos.
Que mutação houve e que auscultou o poeta, na alma do seu povo? À era dos heróis, daqueles que, percorrendo sozinhos e únicos, o caminho da realização pessoal e colectiva, levando-a até ao fim através de perigos sem conta, se teria sucedido uma era de desistência e anulação pessoal, em que a esperança e a obra de realização, de salvação se transfere e projecta num super eu nacional – O DESEJADO. É ele que trará a regeneração do povo; que pela sua aparição instaurará o tempo novo. Depois da degenerescência do tempo antigo, Alcácer Quibir contará o fim dum ciclo duma pátria, tal como o dum mundo, por um dilúvio, pela sua força renovadora e purificadora.
Esperai! Caí no areal e na hora adversa/Que deus concede aos seus/Para o intervalo em que esteja a alma imersa/Em sonhos que dão Deus (...).
A vinda do Encoberto marcará o fim da história. Os cinco impérios são irreversíveis. Alcácer Quibir é um acontecimento de valor religioso. E aí a morte de D. Sebastião assumirá o sentido da morte redentora dum Deus. E a sua parúsia no futuro, aquele do fim do tempo.
Essa intrínseca identificação do poeta com a sua nação, torna aqui o profetismo a forma do que assume em si, na sua pessoa, única e mortal, o destino dum ser colectivo em todo o transcurso da sua existência.
Dalila L. Pereira da Costa, O Esoterismo de Fernando Pessoa
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Com a lira destemperada mas na obrigação de poeta
Reflexão do poeta, canto X, est.145-148
O poeta retoma o tom elegíaco. Reconhece a inutilidade do seu canto, pois o que celebra são-lhe indiferentes e inúteis. Nem o amor à Pátria o incentiva mais, já que esta está mergulhada na cobiça, encontra-se em decadência. Dos versos 4 a 8 da estrofe 146, reitera a falta de ânimo para a realização de grandes feitos.
Depois o discurso passa a ter como destinatário o rei, recuperando-se assim o tom épico. Há claramente um contraste de tons, épico e anti-épico nesta mesma estrofe; o primeiro porque o Rei é representante de Deus na terra, senhor de vassalos únicos pelas suas qualidades; o segundo porque a Pátria está numa decadência espiritual.
Da estrofe 147 à 148 faz-se um quadro épico das qualiades desses vassalos, que por várias vias dão provas do seu heroismo e que enfrentam todos os perigos no mar e na guerra para trazer fama e glória à Pátria e ao Rei. Estes perigos são apresentados quase como um espectáculo mostrado ao Rei “ Olhai que ledos vão, por várias vias quais leões ou bravos touros”.
Na estrofe 149, há como que um retomar da dedicatória, em que o poeta lembra ao Rei dos deveres que tem para com os seus vassalos.
O poeta retoma o tom elegíaco. Reconhece a inutilidade do seu canto, pois o que celebra são-lhe indiferentes e inúteis. Nem o amor à Pátria o incentiva mais, já que esta está mergulhada na cobiça, encontra-se em decadência. Dos versos 4 a 8 da estrofe 146, reitera a falta de ânimo para a realização de grandes feitos.
Depois o discurso passa a ter como destinatário o rei, recuperando-se assim o tom épico. Há claramente um contraste de tons, épico e anti-épico nesta mesma estrofe; o primeiro porque o Rei é representante de Deus na terra, senhor de vassalos únicos pelas suas qualidades; o segundo porque a Pátria está numa decadência espiritual.
Da estrofe 147 à 148 faz-se um quadro épico das qualiades desses vassalos, que por várias vias dão provas do seu heroismo e que enfrentam todos os perigos no mar e na guerra para trazer fama e glória à Pátria e ao Rei. Estes perigos são apresentados quase como um espectáculo mostrado ao Rei “ Olhai que ledos vão, por várias vias quais leões ou bravos touros”.
Na estrofe 149, há como que um retomar da dedicatória, em que o poeta lembra ao Rei dos deveres que tem para com os seus vassalos.
Ilha dos Amores e Máquina do Mundo: Utopia e Realidade
Episódio da Ilha dos Amores (canto IX, X est.18-143)
Segundo Vitor de Aguiar e Silva, este episódio ocupa 20% , da epopeia.
Na estrofe 18, assistimos ao primeiro momento de preparação da Ilha, ou seja, do prémio dos heróis, a cargo de Vénus, que triunfa também com a vitória dos Portugueses. Ordenada por entidades superiores, compensa o esforço dos Lusitanos, dando-lhe alegria “ nos mares tristes” (antítese).
Este prémio torna-se ainda mais merecido, quando a ninfa recorda os perigos que passaram, alguns preparados por Baco(est.19).
Auxiliada por Cupído, prepara um lugar propício ao repouso onde pudessem revigorar-se do cansaço, enfim onde “ os humanos (encontram) o Céu sereno” (est.20).
Nas estrofes 21e 22, é apresentada a ilha como um espaço de refúgio, isolamento, não afectado pelas contingências da realidade, uma Utopia com aquáticas donzelas que com a dança e a sua beleza terão”Vontade de trabalharem de contentar a quem se afeiçoaram”, “ ornada de esmaltado e verde arreio”.
A descrição da ilha (est54-63) é feita do geral para o pormenor (outeiros, vales, lago, arvoredo, árvores, laranjeira, cidreira, limões). Esta descrição tem sido objecto de várias leituras simbólicas, mas no plano literário, é construída à base de tópicos do “ Locus amoenus” ,lugar ameno, de natureza natural em equilíbrio. O número três que introduz esta descrição assume um valor simbólico de perfeição, que juntamente com os elementos naturais de ornato, a adjectivação valorativa do campo semântico de beleza, sensações visuais, auditivas, olfactivas e tácteis, e a dimensão ascendente de muitos dos elementos, dão-lhe singularidade, carácter de excepção. Há nitidamente uma intenção de erotização da natureza: “o arvoredo gentil sobre ela pende”, “ a laranjeira tem no fruito lindo a cor que tinha Dafne nos cabelos”, “ os fermosos limões, ali, cheirando, estão virgíneas tetas imitando”.
Os Portugueses chegam e pretendem caçar (est.64-66); caça essa rapidamente transformada em jogo lúdico amoroso entre os nautas e as ninfas.
Da estrofe 88 a 92 registe-se a explicitação que o próprio poeta faz; a ilha não é mais do que uma representação alegórica, tal como a construiu, também a desfaz. O prémio ideal dos heróis é a honra, a glória, a fama; também os deuses da mitologia foram simples homens que, pelos seus feitos ilustres, alcançaram a imortalização.
No canto X, est77-81, temos a representação da Máquina do mundo. De forma esférica, é a mais perfeita e uniforme mas também sem limites, é, no fundo, a imagem ou reflexo de quem a criou, Deus. É uma representação contemporãnea de Camões, com os quatro elementos: Terra, água, fogo, ar, produto da sabedoria divina, do mistério de um saber alto e profundo. O empíreo é identificado com o Céu de concepção cristã; os deuses saõ desmitificados, povoam o universo pela sua função estética e estilística, representam abstracções, são forças atrvés das quais Deus actua no mundo.
Segundo Vitor de Aguiar e Silva, este episódio ocupa 20% , da epopeia.
Na estrofe 18, assistimos ao primeiro momento de preparação da Ilha, ou seja, do prémio dos heróis, a cargo de Vénus, que triunfa também com a vitória dos Portugueses. Ordenada por entidades superiores, compensa o esforço dos Lusitanos, dando-lhe alegria “ nos mares tristes” (antítese).
Este prémio torna-se ainda mais merecido, quando a ninfa recorda os perigos que passaram, alguns preparados por Baco(est.19).
Auxiliada por Cupído, prepara um lugar propício ao repouso onde pudessem revigorar-se do cansaço, enfim onde “ os humanos (encontram) o Céu sereno” (est.20).
Nas estrofes 21e 22, é apresentada a ilha como um espaço de refúgio, isolamento, não afectado pelas contingências da realidade, uma Utopia com aquáticas donzelas que com a dança e a sua beleza terão”Vontade de trabalharem de contentar a quem se afeiçoaram”, “ ornada de esmaltado e verde arreio”.
A descrição da ilha (est54-63) é feita do geral para o pormenor (outeiros, vales, lago, arvoredo, árvores, laranjeira, cidreira, limões). Esta descrição tem sido objecto de várias leituras simbólicas, mas no plano literário, é construída à base de tópicos do “ Locus amoenus” ,lugar ameno, de natureza natural em equilíbrio. O número três que introduz esta descrição assume um valor simbólico de perfeição, que juntamente com os elementos naturais de ornato, a adjectivação valorativa do campo semântico de beleza, sensações visuais, auditivas, olfactivas e tácteis, e a dimensão ascendente de muitos dos elementos, dão-lhe singularidade, carácter de excepção. Há nitidamente uma intenção de erotização da natureza: “o arvoredo gentil sobre ela pende”, “ a laranjeira tem no fruito lindo a cor que tinha Dafne nos cabelos”, “ os fermosos limões, ali, cheirando, estão virgíneas tetas imitando”.
Os Portugueses chegam e pretendem caçar (est.64-66); caça essa rapidamente transformada em jogo lúdico amoroso entre os nautas e as ninfas.
Da estrofe 88 a 92 registe-se a explicitação que o próprio poeta faz; a ilha não é mais do que uma representação alegórica, tal como a construiu, também a desfaz. O prémio ideal dos heróis é a honra, a glória, a fama; também os deuses da mitologia foram simples homens que, pelos seus feitos ilustres, alcançaram a imortalização.
No canto X, est77-81, temos a representação da Máquina do mundo. De forma esférica, é a mais perfeita e uniforme mas também sem limites, é, no fundo, a imagem ou reflexo de quem a criou, Deus. É uma representação contemporãnea de Camões, com os quatro elementos: Terra, água, fogo, ar, produto da sabedoria divina, do mistério de um saber alto e profundo. O empíreo é identificado com o Céu de concepção cristã; os deuses saõ desmitificados, povoam o universo pela sua função estética e estilística, representam abstracções, são forças atrvés das quais Deus actua no mundo.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Mas que Império é este?
Reflexão: O poder corruptor do vil metal (canto VIII, 96-99)
O Catual, seduzido pelo ouro, só deixa partir os Portugueses depois de lhe entregarem as fazendas que traziam, pelo que Camões o insulta de “cobiçoso, corrompido e pouco nobre”(est96, vv.3,4). E a sede do dinheiro corrompe é uma maldição a que ninguém escapa: nem o rico, nem o pobre, nem os nossos amigos, os Reis e até os próprios religiosos, mesmo que camuflada numa falsa virtude.
O dinheiro faz os amigos traidores, aos nobres faz-lhes perder a honra, é inimigo do conhecimento pois não promove o interesse pelo mesmo, cega a justiça e até conspurca os ensinamentos divinos(est98, 99).
Nestas duas últimas estrofes, veja-se o valor da anáfora o deíctico referencial “este”, repetido sete vezes, pois sete são os pecados mortais.
Prof: Euclides, Linhas de leitura das Reflexões do poeta em Os Lusíadas
O Catual, seduzido pelo ouro, só deixa partir os Portugueses depois de lhe entregarem as fazendas que traziam, pelo que Camões o insulta de “cobiçoso, corrompido e pouco nobre”(est96, vv.3,4). E a sede do dinheiro corrompe é uma maldição a que ninguém escapa: nem o rico, nem o pobre, nem os nossos amigos, os Reis e até os próprios religiosos, mesmo que camuflada numa falsa virtude.
O dinheiro faz os amigos traidores, aos nobres faz-lhes perder a honra, é inimigo do conhecimento pois não promove o interesse pelo mesmo, cega a justiça e até conspurca os ensinamentos divinos(est98, 99).
Nestas duas últimas estrofes, veja-se o valor da anáfora o deíctico referencial “este”, repetido sete vezes, pois sete são os pecados mortais.
Prof: Euclides, Linhas de leitura das Reflexões do poeta em Os Lusíadas
Da Epopeia à Elegia
O lamento do poeta pela ingratidão daqueles que celebra
Estando reunidos o Catual, Paulo da Gama, Nicolau Coelho e o Monçaíde, todos olham para um estandar-te onde estárepresentado o imortal Luso em” trajo à Grega usança e com um ramo, por insígnia, na(mão) direita” . É esse ramo evocado que desencadeia os lamentos dirigidos às Ninfas sobre a sua própria situação individual(vv.4-8), veiculados metaforicamente pela viagem. Desta vez as Ninfas não são invocadas para o pedido de inspiração, mas para a salvação do poeta(vv.7,8). A Viagem á Índia é metáfora quer do árduo trablaho de produção do poema, quer da sua própria vida.
Na estrofe 79, o poeta considera-se investido de cantar os trabalhos dos Portugueses mas também os trabalhos por que passa: os perigos no mar e na guerra, cumprindo ele próprio o ideal humanista renascentista “ Nua mão sempre a espada e noutra a pena.” Trata-se nitidamente de um processo de auto-glorificação, isto é, o poeta apresenta-se aqui como herói perfeito, exemplificado na figura mitológica de Cânace.
Prossegue na estância 80 pela referência aos sofrimentos por que passa: miséria, solidão, desespero, sempre com a vida presa por um fio ( vide episódio do naufrágio de Camões, Canto X, est.128). Dói-lhe também a ingratidão dos homens que celebra (est.81vv.3,4), que tinham obrigação de o recompensar com coroas de louro. Nesta estrofe, 81, lança também a ideia do Mecenatismo, bastante prestigiada na Europa desta altura, que se traduzia na concessão de condições materiais aos artistas para que pudessem desenvolver as suas artes, sem que fosse necessário da parte dos artistas a subserviência ou servilismo.
A estrofe 82 reveste-se de um tom polidamente irónico, no sentido retórico do termo, isto é, tem exactamente o sentido contrário, antífrase, os escritores futuros com estes exemplos não escreverão.
Desiludido, num desamparo total, conta apenas com as Musas, com a inspiração poética, a figura do poeta anima-se pela consciência do seu poder de distribuir glória a quem bem entender(est.83). Quem o não merecer não será glorificado,nem tão pouco por lisonja. Não cantará aqueles que anteponham os seus interesses pessoais à frente da pátria, nem os ambiciosos que pretendam poder para alragar os seus vícios (est.84), não cantará os hipócritas, exemplificados com Proteu, em suma, não cantará aqueles que tiranizam o povo para conquistar o favor do rei(est.86).
Nas estrofes 86 e 87 expressa o seu conceito de justiça, merce o canto aqueles que perderam a vida, mas que ganharam a imortalidade e a glória por Deus e pela Pátria.
Prof: Euclides, Linhas de leitura das Reflexões do poeta em Os Lusíadas
Estando reunidos o Catual, Paulo da Gama, Nicolau Coelho e o Monçaíde, todos olham para um estandar-te onde estárepresentado o imortal Luso em” trajo à Grega usança e com um ramo, por insígnia, na(mão) direita” . É esse ramo evocado que desencadeia os lamentos dirigidos às Ninfas sobre a sua própria situação individual(vv.4-8), veiculados metaforicamente pela viagem. Desta vez as Ninfas não são invocadas para o pedido de inspiração, mas para a salvação do poeta(vv.7,8). A Viagem á Índia é metáfora quer do árduo trablaho de produção do poema, quer da sua própria vida.
Na estrofe 79, o poeta considera-se investido de cantar os trabalhos dos Portugueses mas também os trabalhos por que passa: os perigos no mar e na guerra, cumprindo ele próprio o ideal humanista renascentista “ Nua mão sempre a espada e noutra a pena.” Trata-se nitidamente de um processo de auto-glorificação, isto é, o poeta apresenta-se aqui como herói perfeito, exemplificado na figura mitológica de Cânace.
Prossegue na estância 80 pela referência aos sofrimentos por que passa: miséria, solidão, desespero, sempre com a vida presa por um fio ( vide episódio do naufrágio de Camões, Canto X, est.128). Dói-lhe também a ingratidão dos homens que celebra (est.81vv.3,4), que tinham obrigação de o recompensar com coroas de louro. Nesta estrofe, 81, lança também a ideia do Mecenatismo, bastante prestigiada na Europa desta altura, que se traduzia na concessão de condições materiais aos artistas para que pudessem desenvolver as suas artes, sem que fosse necessário da parte dos artistas a subserviência ou servilismo.
A estrofe 82 reveste-se de um tom polidamente irónico, no sentido retórico do termo, isto é, tem exactamente o sentido contrário, antífrase, os escritores futuros com estes exemplos não escreverão.
Desiludido, num desamparo total, conta apenas com as Musas, com a inspiração poética, a figura do poeta anima-se pela consciência do seu poder de distribuir glória a quem bem entender(est.83). Quem o não merecer não será glorificado,nem tão pouco por lisonja. Não cantará aqueles que anteponham os seus interesses pessoais à frente da pátria, nem os ambiciosos que pretendam poder para alragar os seus vícios (est.84), não cantará os hipócritas, exemplificados com Proteu, em suma, não cantará aqueles que tiranizam o povo para conquistar o favor do rei(est.86).
Nas estrofes 86 e 87 expressa o seu conceito de justiça, merce o canto aqueles que perderam a vida, mas que ganharam a imortalidade e a glória por Deus e pela Pátria.
Prof: Euclides, Linhas de leitura das Reflexões do poeta em Os Lusíadas
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