quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Trabalho de escrita recreativa

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, 1956





Tarefa: Produção de texto argumentativo

No poema de António Gedeão, Pedra Filosofal,( Ver blogue), sem sonho o homem não teria atingido o progresso civilizacional, nem se teria realizado enquanto”bichinho álacre e sedento (...) que foça através de tudo num perpétuo movimento”.
A argumentação presente no poema a favor do sonho poderia também ser válida para defender a empresa ultramarina. Serve-te dela para produzires um discurso argumentativo que respeite o plano seguinte:

Tese: O Sonho é uma constante da vida
O Sonho é energia criativa
O Sonho é o motor do conhecimento

Desenvolvimento

Exórdio:escolhe de um auditório/ interlocutor a quem vais dirigir o teu discurso,
-Desperta o interesse do auditório, implicando-o no assunto que vais tratar(utilizar para esse efeito apóstrofes; posicioná-lo perante uma situação concreta)


Argumentação: por via indutiva, apresentando de forma directa os argumentos e posteriormente por via dedutiva, através de paralelismos, de interrogações retóricas etc...

Conclusão: Deverá ser feita sob forma de generalização, saindo das situações concretas referidas na argumentação e ter uma amplitude universal e intemporal.



Texto de apoio


O discurso contém diversos temas, como a oposição à ida à Índia, envolvendo demasiados riscos, a preferência pelo Norte de África, mais perto e mais seguro, a expansão da fé etc... mas o tema central é a ambição que perdeu os homens, desterrando-os da Idade do Ouro para a Idade do Ferro, a ambição que arrasta os portugueses para perdições sem conta na Ida ao Oriente. Foi também a ambição que levou Adão e Eva à expulsão do Paraíso Terrestre; foi a ambição que levou Prometeu a roubar o Fogo aos deuses, provocando a fúria de Júpiter e o castigo do usurpador, foi a ambição que levou Ícaro a afastar-se de seu pai, Dédalo e a voar muito alto com asas de cera, acabando por se precipitar no mar Egeu.
O Velho do Restelo fala, em parte, como um humanista, manifestando um certo desprezo pelo povo néscio.
António José saraiva acha que o discurso do Velho do Restelo entra em contradição com a tese fundamental da obra- a viagem à Índia.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Notas avulsas sobre a mitificação do herói

DIMENSÃO EXEMPLAR DA HISTÓRIA NARRADA

A história narrada em Os Lusíadas tem uma dimensão exemplar, por apresentar factos e figuras como modelos a seguir, bem como atitudes a evitar (estas em menor número).
Quem são as personagens agentes de feitos ilustres notáveis?
São muitas. São os heróis da navegação, da conquista, os reis portugueses que dilataram a Fé e o Império, que difundiram a civilização nas terras de África e Ásia; são também aqueles cujo nome ficou na História por actos de excepção… (cf. Canto I, 1-2)

Em Os Lusíadas, especialmente a partir do Canto V, no final de cada Canto, há partes que não são narrativas, porque o poeta aproveita para tecer os seus comentários e críticas. Contudo, segundo os cânones da epopeia, o Poema de Camões deveria ser alheio à pessoa do poeta. É neste sentido que Luís António Verney, no séc. XVIII, faz as seguintes críticas:

“Errou o Camões em não sustentar sempre o carácter e grandeza do seu herói, que abaixa sensivelmente no canto VIII, do meio para diante. Errou nas enfadonhas digressões que introduz por toda a parte. Errou em acabar quase todos os Cantos com exclamações mui fora de propósito e muito contra o estilo da epopeia.” (in Carta VII do Verdadeiro Método de Estudar, Editorial Presença, p. 168).

De opinião oposta à anterior, Eduardo Lourenço, dois séculos mais tarde, diz o seguinte:
“Os Lusíadas não são a primeira epopeia realista dos tempos modernos, mas a primeira que nada perdeu da sua força, graças ao fulgor da sua forma, quer dizer, graças à sua autonomia de poema humanista, de realidade escrita” (“Camões e o tempo ou a razão oscilante” in Poesia e Metafísica, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1983, p. 34)

Um dos propósitos de tais intromissões do poeta é o de doutrinar e construir, por cima do tradicional herói guerreiro, um novo tipo de herói, o humanista.

O HERÓI POSSÍVEL

Camões, em Os Lusíadas, apresenta o heroísmo em termos teóricos, programáticos, havendo uma distância entre a perfeição idealizada e o plano da realidade
Primeiro, Camões anuncia as formas de comportamento que o herói deve evitar (Canto VI, 95-96): não descansar à sombra dos louros conquistados pelos seus antecessores e evitar a ociosidade, inércia e comodismo.
Depois, anuncia o programa em forma afirmativa (Canto VI, 97-99): necessidade de exercício, esforço da coragem e capacidade de enfrentar todo o tipo de sofrimento.
Assim, advêm-lhe não só honras próprias, isto é, do seu próprio mérito, como também coragem para enfrentar os perigos de guerra e para dominar o medo e a comoção – manifestações exteriores que se forem moldadas dão-lhe uma superioridade moral e uma serenidade intelectual.
Numa sociedade justa e bem organizada, um homem destes será chamado ao desempenho de cargos de responsabilidade: será chamado “contra vontade sua, e não rogando” (Canto VI, 99). Requer-se um homem desprendido do poder, que aceite exercer cargos mesmo sem o desejar, apenas movido por uma consciência cívica de servir a pátria.
O bom herói, ou bom português, deve renunciar a tirania, a ociosidade, a cobiça, as “honras vãs”, o “ouro puro” (cf. Canto IX, 92-95) – pois,

Melhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.
Cumpridos estes preceitos,
Sereis entre Heróis esclarecidos
E nesta Ilha de Vénus recebidos
(Canto IX, 95)

Apesar de tal prémio, este tipo de herói ainda não corresponde, por completo, ao ideal ético do poeta dos tempos novos.

O PODER DO POETA

Em última análise, quem premeia os nautas com uma ilha mitológica é o próprio vate ao resgatá-los do esquecimento (da lei leteia), dispensando-lhes a fama e imortalidade no e através do seu canto.
O rudo canto meu, que ressuscita
as honras sepultadas,
as palmas já passadas
dos belicosos nossos Lusitanos,
para tesouro dos futuros anos,
convosco se defende
da lei leteia, à qual tudo se rende.
(Ode VII)


Nas estâncias 83 a 87 do Canto VII, Camões chega a enumerar as pessoas que não merecem a glória que o canto do poeta dá: os lisonjeiros; os que actuam movidos por um interesse pessoal em prejuízo de um bem comum e do seu rei; os que actuam movidos pela ambição (os que sobem ao poder por influências, compra de cargos de importância), permitindo dar largas aos seus vícios; e os que exercem despoticamente o poder.
O poeta chega ao ponto de se queixar do facto de a aristocracia portuguesa, representada na pessoa de Vasco da Gama, não ser amiga das Musas:

Que ele, nem quem, na estirpe, seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga
(Canto V, 99)

Por isso, diz, não é por Vasco da Gama que as Musas (o poeta) cantam; é pela pátria:

Às Musas agradeça o nosso Gama
O muito amor da pátria, que as obriga
A dar aos seus, na lira, nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga

E mais: “se este costume dura” Portugal ficará pobre em heróis:

Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque quem não sabe arte, não na estima.

Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias nem Aquiles feros.
(Canto V, 97-98)

Sem Virgílio não há Eneias, sem Camões, Gama.

Em toda a sua poesia, a começar no canto épico, há a expressão, quase cansativa, de uma decepção causada por uma crise inerente à sua época.


O HERÓI HUMANISTA

“A melhor forma de serviço público e de empenhamento cívico, aquela em que se logra a desejada simbiose entre a vida activa e a vida contemplativa, é a do homem de intelecto, do humanista, que é simultaneamente um homem de acção, um soldado. Por isso tanta importância tem no nosso discurso histórico-literário o topos das Armas e Letras.

Doravante a ideia de mérito e experiência individual, sempre que se trate de eleger alguém para lugares de responsabilidade pública, vai sobrepor-se à ideia de linhagem e privilégio de nascimento.” (Luís de Sousa Rebelo, A tradição clássica na literatura portuguesa, Lisboa, Livros Horizonte, 1982).

Nesta ordem de ideias, há uma visão de conjunto sobre os heróis portugueses como sendo imperfeitos (cf. Canto V, 92-97), por não ultrapassarem o desenho tradicional do herói cavaleiresco.

O poeta diz ter vergonha destes heróis, porque são ignorantes, ao contrário dos Antigos, como Octávio que,

[…] entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos
(Canto V, 95)

As figuras da Antiguidade são o paradigma humanista da associação das ARMAS e das LETRAS.

Da galeria de heróis de Os Lusíadas, Nuno Álvares Pereira é aquele que Camões decide construir à medida do novo conceito de herói, pois é representado como excelente na capacidade de discursar (cf. Canto IV, 14-21) e excelente no campo de batalha (cf. Canto IV, 28-44).

Mesmo que historicamente Nuno Álvares Pereira tenha sido um bom estratega e orador, naturalmente que o épico o estilizou tão à maneira de Fernão Lopes que, por sua vez, já o havia tornado lendário.

Na verdade, em Os Lusíadas, Camões é o único que comporta majestosamente estas duas qualidades: a conciliação das Armas e das Letras.

Se repararem, quando se fala de Os Lusíadas o nome que vem imediatamente à mente é o de Camões e não o de um herói literário. Os Lusíadas não nos remetem senão para o seu autor. Mas, no que toca a outras epopeias, ocorrem-nos os nomes de Ulisses, Eneias, El Cid, Tristão, Hamlet, D. Quixote, isto é, os respectivos heróis literários.

“Para compensar uma tal ausência – cujo mistério se repercute sobre a imagem global da nossa literatura – temos uma espécie de herói-vivo, cuja lenda verídica teve o condão de se converter em existência ideal, como é apanágio da ficção perfeita. Referimo-nos, naturalmente, ao próprio Camões, herói da sua própria ficção, e que se tornou para um povo inteiro bem mais mítico e, mesmo, bem mais heróico que os heróis exaltados pelo seu Poema.” (Eduardo Lourenço, op. cit.)


AUTOMITIFICAÇÃO

“Com efeito, o esforço original de automitificação através do qual Camões tenta escapar à insignificância e ao esquecimento […] não é uma descoberta de Camões. Constitui a vivência mais inovadora do seu tempo cultural.” (Eduardo Lourenço, op. cit.)

Na estância 154 do Canto X, o poeta caracteriza-se:

Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
[…]
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.

A seguir, na estância 155, pede para servir o rei e a pátria através do seu canto.

Em Os Lusíadas, podemos ver a encarnação dos ideias do humanismo cívico na figura do poeta, numa associação do homo politicus e homo theoreticus.
Narração de Vasco da Gama ao Rei de Melinde
( Cantos III, IV, V)
Ao longo destes três cantos, Vasco da Gama assume-se narrador participante homodiegético, passando de personagem a personagem-narrador que vai responder ao solicitado pelo Rei de Melinde.
Respondendo pela ordem sugerida pelo rei anfitrião. Começa em primeiro lugar por situar geograficamente Portugal na Península Ibérica” nobre Hespanha” e esta na Europa “ soberba Europa” ( est.6-16 “ soberba Europa e os seus povos; 17-19 “ nobre Hespanha”, 20-21 “ reino Lusitano”. Parece haver proporcionalidade entre o número de estrofes que ocupam cada um destes momentos e o espaço físico considerado. Por outro lado, repare-se também, que à medida que se caminha para a localização de Portugal, se vai perdendo a objectividade descritiva, acalorando-se o discurso de subjectividade” Esta é a ditosa pátria minha amada”.
No canto III, vv. 21-243 e IV 1-77, Gama passa à História de Portugal, relatando acontecimentos ocorridos na 1ª Dinastia, portanto entre os reinados do Conde D. Henrique e D.Dinis. No canto IV, centra-se na segunda Dinastia que vai de D.João I a D. Manuel, rei que, lembre-se, ordena a partida para a Índia. A partir da estrofe 77 do canto IV e durante todo o canto V, narra por analépse a sua viagem, desde a praia do Restelo até aquela paragem, Melinde.




No mar
Após o sonho simbólico de D. Manuel em que lhe é profetizada a chegada à Índia, depois de ultrapassadas duras guerras no Oriente, das quais Vasco da Gama sai vencedor, merece a sua atenção a descrição dos preparativos para a viagem. Também aqui Gama entra na história como agente dinamizador, logo envereda por um discurso na 1ª pessoa, marcado pelos deícticos pessoais, realizados ora pelo pronome pessoal Eu, ora pelo “Nós” majestático, em que se assume como represente de uma força nacional para a diáspora. É uma acção épica, naqual o “ bicho da terra tão pequeno”, que são o Gama e os seus companheiros, vai medir força com Neptuno, deixando a segurança da Terra e arriscando-se ao tão traiçoeiro Mar.
Feitos os preparativos para a viagem, apresentam-se as dificulades. São elas a consciência dos perigos, o receio dos mares e ventos desconhecidos e uma oposição política conservadora, que se diz de “um saber de experiências feito”, que prevê os maiores infortúnios.
A despedida
É o tom patética, no sentido trágico do termo, que enforma a despedida da “praia das lágrimas”, como João de Barros lhe chama.
Passamos de um plano de conjunto que enlgloba os que “ aparelham a alma para a morte” e os que “ acorrem por amigos, por parentes ou por ver somente”, para um plano particular. Neste último, a consternação dos homens e mulheres era geral; elas “ cum choro piadoso”, eles “ com suspiros que arrancavam”(est.89).
Nas estrofes 90 e 91 temos respectivamente uma mãe e uma esposa que valem por todas as outras que se encontram nesta condição. Camões dá-lhes voz. A mãe não compreende a atitude do filho, que ao partir, a vota ao abandono, e de certa forma a uma morte de desgosto mais certa do que aquela que o possa tolher no mar.
A esposa censura o marido que faz do amor e da sua vida pertença privada, quando, no seu entender, são património do casal.
Retoma-se a visão de conjunto. A fragilidade das mães, esposas, velhos e meninos, sob o risco de orfandade, comove a própria natureza mas não os heróis que embarcam “ sem o despedimento costumado”, não vá a piedade alterar os seus intentos nobres e dignos.
De entre os velhos, ergue-se a voz de uma figura de “ aspeito venerando”, logo a merecer toda a atenção. O seu discurso, embora apresentando argumentos de natureza política e também social, é no fundo uma análise minuciosa da condição humana: “ a glória de mandar”, a “cobiça”, a “ vaidade”, a “ fama”. É no seu entender a dimensão mais mesquinha da estranha condição de Homem, que só seduzem “néscios”, ignorantes que não distinguem essência de aparência. Mas na aventura não há bom senso, lógica razão.
Uma questão se nos coloca, como se concilia esta vertente anti-épica do Velho do Restelo com o todo do poema que visa a glorificação de uma viagem que juntamente com a nossa História eram os nossos maiores motivos de orgulho? . Embora se saiba que Camões também terá defendido a manutenção da nossa empresa ultramarina no Norte de África, posição que como poeta humanista, dramatiza no Velho do Restelo, este episódio acaba por contribuir para o processo de heroicização de um povo.
Prof. Euclides (2007), Resenha personalizada de bibliografia dive

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ao colo de Calíope



Calíope (mitologia)
Calíope é a musa da poesia épica. Filha de Zeus e Mnemósine (memória), é uma das noves musas, que têm por missão a inspiração dos seres humanos para que estes se tornem criativos na arte e na ciência. As outras musas são Clio (Musa da história), Tália (Musa da Comédia e da poesia ligeira), Melpómene (Musa da Tragédia e da harmonia musical), Érato (Musa da poesia erótica), Urânia (Musa da astronomia), Polímnia (Musa da poesia sacra), Terpsícore (Musa da dança e do canto) e Euterpe (Musa da poesia lírica).Da união com Eagro, rei da Trácia ou de Apolo (deus da música), Calíope foi mãe de Orfeu (poeta mítico e músico). Amada por Apolo, teve mais dois filhos: Himeneu (deus dos cantos nupciais, do casamento) e Iálemo (deus dos cantos tristes pelos que morrem jovens); Calíope, na mitologia grega, surge representada com um estilete e tabuinhas de escrita nas mãos. De porte majestoso, aparenta ser uma jovem mulher, coroada de ouro, com supremacia entre as musas suas irmãs. Camões, no início do Canto III de Os Lusíadas, pede a Calíope que o inspire para melhor contar a história de Portugal, como Vasco da Gama a relatou ao Rei de Melinde.


Calíope (mitologia). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2007



“ Agora, tu, Calíope, me ensina o que contou ao rei o ilustre Gama...”
( canto III, est.1-2)

Esta invocação a Calíope antecede a narração do Gama ao rei de Melinde em que é contada a História de Portugal desde as auas origens míticas e históricas da fundação do reino até ao presente da narração.
A recepção da armada em Melinde, incluindo a parte da viagem do Gama, anterior à chegada a Melinde.
Corresponde, em suma, à realização de uma importante parte do projecto da epopeia, que vai ocupar os cantos III, IV e V, anunciado na proposição e explicitado na dedicatória, pedindo-se grande fulgor de inspiração. Justifica-se, portanto, um novo apelo, pedido que individualiza esta narrativa dentro da narração global do poema.
É neste contexto que se expressa o amor à poesia, o orgulho pátrio, a confiança no seu engenho poético. Um certo sentido de humor é o traço mais evidenciado pelo poeta nas duas primeiras oitavas.
Das estrofes 3 a 5 faz-se o exórdio do discurso, prepara-se o auditório para o que vai ouvir e apresenta-se o plano da sua narrativa; na estrofe 6, depois da localização da “ Soberba Europa” no globo terrestre, passa-se à descrição da “ larga terra” onde se situa Portugal.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Os Lusíadas - Reflexões/excursos do poeta

«Os Lusíadas», Luís de Camões
Vertente pedagógica da epopeia


Reflexões do Poeta: críticas e conselhos aos Portugueses

O Poeta faz diversas considerações, no início e no fim dos Cantos da sua epopeia, criticando e aconselhando os Portugueses.
Por um lado, refere os «grandes e gravíssimos perigos», a tormenta e o dano no mar, a guerra e o engano em terra; por outro lado, faz a apologia da expansão territorial para divulgar a Fé cristã, manifesta o seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português.
Nas suas reflexões, há louvores e diversas queixas aos comportamentos. Se realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito próprio, lamenta, por exemplo, que os Portugueses nem sempre saibam aliar a força e a coragem ao saber e à eloquência, destacando a importância das Letras. Se critica os povos que não seguem o exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do Mundo, não deixa de queixar-se de todos aqueles que pretendem alcançar a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem. Daí, também, lamentar a importância atribuída ao dinheiro, fonte de corrupção e de traições.
Lembrando o seu «honesto estudo», «longa experiência» e «engenho», «Cousas que juntas se acham raramente», confessa estar cansado de «cantar a gente surda e endurecida» que não reconhecia nem incentivava as suas qualidades artísticas.


As reflexões que merecem destaque:


Canto I (est. 105-106); p.39

As traições e os perigos a que os navegadores estão sujeitos justificam este desabafo do Poeta.
Não será por acaso que esta reflexão surge no final do Canto I, quando o herói ainda tem um longo e penoso percurso a percorrer.
Ver-se-á, no Canto X, até onde a ousadia, a coragem e o desejo de ir sempre mais além pode levar o «bicho da terra tão pequeno», tão dependente da fragilidade da sua condição humana.


Canto V (est. 92-100); pp.74-75

O Poeta começa por mostrar como o canto, o louvor, incita à realização dos feitos; dá exemplos do apreço dos Antigos pelos seus poetas, bem como da importância dada ao conhecimento e à cultura, que levava a que as armas não fossem incompatíveis com o saber.
Não é, infelizmente, o que se passa com os portugueses: não se pode amar o que não se conhece, e a falta de cultura dos heróis nacionais é responsável pela indiferença que manifestam pela divulgação dos seus feitos. Apesar disso, o Poeta, movido pelo amor da pátria, reitera o seu propósito de continuar a engrandecer, com os seus versos, as «grandes obras» realizadas.
Manifesta, desta forma, a vertente pedagógica da sua epopeia, na defesa da realização plena do Homem, em todas as suas capacidades.


Canto VI (est. 95-99); p.77

Continuando a exercer a sua função pedagógica, o Poeta defende um novo conceito de nobreza, espelho do modelo renascentista: a fama e a imortalidade, o prestígio e o poder adquirem-se pelo esforço - na batalha ou enfrentando os elementos, sacrificando o corpo e sofrendo pela perda dos companheiros; não se é nobre por herança, permanecendo no luxo e na ociosidade, nem pela concessão de favores se deve alcançar lugar de relevo.
Canto VII (est. 3-14); pp.78-79)

Percorrido tão difícil caminho, é momento para que, na chegada a Calecut, o Poeta faça novo louvor aos Portugueses. Exalta, então, o seu espírito de Cruzada, a incansável divulgação da Fé, por África, Ásia, América, «E, se mais mundos houvera, lá chegara», assim inserindo a viagem à Índia na missão transcendente que assumiram e que é marca da sua identidade nacional. Por oposição, critica duramente as outras nações europeias - os «Alemães, soberbo gado», o «duro inglês», o «Galo indigno», os italianos que, «em delícias, / Que o vil ócio no mundo traz consigo, / Gastam as vidas» - por não seguirem o seu exemplo, no combate aos infiéis.


Canto VII (est. 78-87); pp.81-82)

Numa reflexão de tom marcadamente autobiográfico, o Poeta exprime um estado de espírito bem diferente daquele que o caracterizava, no Canto I, na Invocação às Tágides - «cego, […] insano e temerário», percorre um caminho «árduo, longo e vário», e precisa de auxílio porque, segundo diz, teme que o barco da sua vida e da sua obra não chegue a bom porto. Uma vida que tem sido cheia de adversidades, que enumera: a pobreza, a desilusão, perigos do mar e da guerra, «Nũa mão sempre a espada e noutra a pena;». Como não ver neste retrato a intenção de espelhar o modelo de virtude enunciado em momentos anteriores?
Em retribuição, recebe novas contrariedades - de novo a crítica aos contemporâneos, e o alerta, para inevitável inibição do surgimento de outros poetas, em consequência de tais exemplos.
Mas a crítica aumenta de tom na parte final, quando são enumerados aqueles que nunca cantará e que, implicitamente, denuncia abundarem na sociedade do seu tempo: os ambiciosos, que sobrepõem os seus interesses aos do «bem comum e do seu Rei», os dissimulados, os exploradores do povo, que não defendem «que se pague o suor da servil gente».
No final, retoma à definição do seu herói - o que arrisca a vida «por seu Deus, por seu Rei».


Canto VIII (est. 96-99); p.84

A propósito da narração do suborno do Catual e das suas exigências aos navegadores, são agora enumerados os efeitos perniciosos do ouro - provoca derrotas, faz dos amigos traidores, mancha o que há de mais puro, deturpa o conhecimento e a consciência; os textos e as leis são por ele condicionados; está na origem de difamações, da tirania dos Reis, corrompe até os sacerdotes, sob aparência de virtude.
Retoma a função pedagógica do seu canto, o Poeta aponta um dos males da sociedade sua contemporânea, orientada por valores materialistas.


Canto X (est. 145-156); p.99-100

Os últimos versos de «Os Lusíadas» revelam sentimentos contraditórios - desalento, orgulho, esperança.
«No mais, Musa, no mais […]» o Poeta recusa continuar o seu canto, não por cansaço, mas por desânimo. O seu desalento advém de constatar que canta para «gente surda e endurecida […] metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Dhũa austera, apagada e vil tristeza.». É a imagem que nos dá do Portugal do seu tempo. Por contrate, o orgulho naqueles que continuam dispostos a lutar pela grandeza do passado e a esperança de que o Rei saiba estimular e aproveitar essas energias latentes para dar continuidade à glorificação do «peito ilustre lusitano» e dar matéria a novo canto. O poema encerra, pois, com uma mensagem que abarca o passado, o presente e o futuro. A glória do passado deverá ser encarada como um exemplo presente para construir um futuro grandioso.

Os Lusíadas (síntese)

Os Lusíadas sãoum texto renascentista traduzindo o espírito optimista do renascimento e a inspiração humanista, proferindo um acto de fé nas capacidades humanas. Porém, não é apenas isso, pois trata-se de um poema bipolar onde a voz épica é contradita por outra voz anti-épica. Uma face solar do poema e uma face lunar através da qual a dúvida se contrapõe à confiança.
[...]
Os Lusíadas celebram os Portugueses enquanto nação, colectividade. para isso, o poeta desenvolve uma história de Portugal como epopeia, seleccionando os episódios e as figuras, de modo a fazer avultar o lado heróico e exemplar da História, cantando-a. Por outro lado, o poema tende á universalidade, louva não só os Portugueses mas o homem em geral: a sua capacidade realizadora, descobridora. A empresa das descobertas é grande prova dessas capacidades: a de se impor á natureza adversa, de desvendar o desconhecido, de ultrapassar os limites traçados pela cultura antiga e pelo conceito tradicional do homem e do mundo, que estavam dogmatizados e eram difíceis de superar. Os Lusíadas celebram a capacidade de alargar e aprofundar o saber; a realização do homem no que espeita ao amor e, por fim, talvez o mais importante, o poder de edificar a vida face ao destino.Por isso, um dos temas épicos consiste na comparação sistemática com os modelos antigos, com o apogeu da divinização dos heróis.
Não são, contudo, só exaltação e glorificação. Camões faz um diagnóstico lúcido e consciente da decadência que se aproxima. Não desconhece nem esconde os erros, os defeitos e os crimes de tantos Portugueses. No final do canto VII denuncia com mágoa a hipocrisia, o espírito de adulação, o abuso do poder, a exploração dos humildes; e queixa-se com ironia amarga da ingratidão dos contemporâneos. Lembra que a cristandade atravessa um momento crítico abalada pelas divisões religiosas motivadas pela Reforma, e ameaçada do exterior pelo poder turco que alastra da Ìndia até á Europa central. É este sentimento de enfraquecimento que a gesta lusitana vem compensar. [...] O medo também se expresssa na voz do Velho do Restelo, que o calo do passado inquieta perante o futuro. O abandono do ninho paterno, do aconchego e segurança do lar simbolizam o cortar das amarras, a despedida para o encontro da vocação universalista.
Enquanto toda a cção narada se reclama de verade histórica, o prémio consiste num sonho! num sonho?!
(adaptado de Tópicos para uma Leitura d' Os Lusiadas, maria Vitalina Leal de Matos, Verbo, 2003

O programa em grama



Rapaziada, reconhecem-no?

Camões, n' Os Lusíadas, revela o espírito do homem da Renascença que acredita na experiência e na razão. Consagra os heróis portugueses, que construíram Portugal e alargaram o império, sendo, por isso, merecedores da mitificação.
Serão os excursos ou refelexões do poeta que merecerão a nossa atenção:
- o que pode um "bicho da terra tão pequeno?"
- quem não conhece, nem sabe de arte, pode estimá-la?
- a fama e a imortalidade como se ganham?
- "Numa mão a espada, noutra a pena", assim se cantam o Tejo e os Lusitanos
- " grão tesouro faz tredores e falsos os amigos[ ]cega os juízos e as consciências"
- " Sereis entre os Heróis esclarecidos/ E nesta ilha de Vénus recebidos"
- " Tomai conselho só de esprimentados[ ]... todo o mundo de vós cante[ ] e em vós se veja"

curiosidade: Por que terminam Os Lusíadas com a palavra enveja?